sábado, 12 de junho de 2010

Arroz de Braga


A cidade de Braga, a mais antiga de Portugal, é famosa pela sua velha igreja, a Sé de Braga, que vem dos anos 1000, mas também pelo arroz que leva o seu nome. Fim de semana de fria temperatura, bem indicado para se fazer este prato. Vamos à cozinha.

Ingredientes

2 xícaras de caldo de carne
2 xícaras de água a ferver
150g. de linguiça
1 paio
100g de toucinho defumado picado
2 colheres de óleo
4 sobrecoxas de frango
1 cebola picada
2 xícaras de chá de arroz
½ repolho pequeno
1 tomate picado
sal a gosto

Modo de fazer

Corte a lingüiça e o paio em rodelas e reserve. Aqueça o óleo, frite nele o toucinho e junte o frango, fritando até ficar bem dourado. Acrescente o paio e a linguiça e frite mais um pouco. Junte o arroz previamente lavado e seco e deixe refogar durante alguns minutos. Despeje o caldo e a água fervente e, quando levantar fervura, acrescente o repolho cortado em pedaços grandes e o tomate. Diminua o fogo e deixe cozinhar durante aproximadamente 15 minutos, até que a superfície apareça seca. Abafe a panela embrulhando-a em jornais e deixe descansar 10 minutos antes de servir.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Mar ausente


As cidades foram erguidas junto aos rios ou junto aos mares. São as águas que criam as paisagens urbanas e o tom do seu traçado, organizam os transportes e lhe dão personalidade. Onde não existem rios, longe do mar, crescem aglomerados tristes e destituídos de alma, como Las Vegas.

O Rio é um presente do mar, como o Egito é uma dádiva do Nilo, pela inspirada definição de Heródoto. Nas praias do Atlântico, de frente para a África e na rota das Índias, o Rio teve o seu destino e a sua glória por sua ligação com o mar que, junto com as montanhas, constroem a sua beleza.

Por que razão o Rio odeia o mar, que é sua origem e do qual depende como parte da sua essência? Nas imagens antigas, gravadas pelos artistas europeus que vieram atraídos pelo novo mundo, vê-se como a cidade era tão próxima do mar. Há sempre figuras de pessoas olhando para o mar, que pouco a pouco foi afastado pelos aterros sucessivos e pelas construções que se fazem nas praias: arenas para espetáculos, palcos, estádios, arquibancadas.

Hoje, caminham-se quilômetros pela orla e não se vê o mar.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Uma nova religião


O publicitário francês Frédéric Beigbeder foi demitido da Young & Rubican por falta grave, depois que publicou seu livro 99 francs (rebatizado como 14,99 €, depois da chegada do euro). Ele escreveu que a publicidade é uma nova religião pela qual nós somos manipulados e condicionados. Sobre seus colegas de profissão, ele diz que são embrutecidos, superpagos, totalmente cínicos e niilistas, que só pensam em lucro e jamais refletiram sobre o poder que detêm.

Beigbeder diz que os métodos de trabalho das agências são obsoletos e consistem em reuniões onde as boas idéias são destruídas. A maneira de fazer anúncios é a mesma dos tempos de David Ogilvy e Bill Bernbach e a liderança encontra-se cada vez mais com o cliente. As agências passaram a ser meras executantes.

As marcas deixaram de falar do produto e passaram a vender estilos de vida, impondo um universo imaginário ao qual crianças e adolescentes são vulneráveis e permeáveis.

Ele propõe que exista nas escolas uma matéria destinada a criar resistência à publicidade e ensinar que felicidade não é aquilo que se vê nos anúncios.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Sergio


Sergio foi um habitante de Ipanema nos anos dourados, quando a boemia intelectual marcava presença nos botequins e alegrava o bairro. Tivemos uma boa amizade, fomos vizinhos em Arraial do Cabo, no tempo em que a cidade era uma vila de pescadores, para onde iamos nos fins de semana, pescávamos, bebíamos e eramos felizes.

Quando ele se mudou para Campo Grande ninguém entendeu muito bem o que fora fazer em Mato Grosso, longe de tudo o que amava e do qual fazia parte. Fui visitá-lo uma vez, ele havia construido uma casa agradável, com uma característica que a distinguia das outras casas, pois todos os cômodos davam na cozinha, que era o centro de tudo. Ele era um grande cozinheiro.

A notícia da sua morte veio com a violência de um impacto. Ele havia sido vítima da bala de um assaltante, na frente de casa, quando conversava com amigos. Sergio era um homem gentil, de fala tranquila e de humor inteligente.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O homem invisivel


Em seus sonhos ingênuos povoados de absurdos, como costumam ser os sonhos, as crianças se imaginam com superpoderes, capazes de voar, destruir monstros inimigos e alcançarem a invisibilidade. As histórias em quadrinhos criaram superheróis que passaram ao cinema com o mesmo sucesso.

O homem invisível foi criação de H.G Wells, numa obra-prima de ficção científica, entre outras que ele escreveu, como A Guerra dos Mundos e a Ilha do Dr. Moreau. Quando não queria ser visto, bastava ao homem invisível retirar as faixas que usava cobrindo o corpo, para então circular entre as pessoas sem qualquer possibilidade de ser percebido.

As crianças gostariam de às vezes se tornarem invisíveis. Quando envelhecem, percebem que se tornaram mesmo invisíveis, podem andar pela rua e trafegar entre a gente, acompanhar multidões sem serem percebidas. É dessa forma que os velhos conseguem tornar reais as fantasias infantís que um dia excitaram sua imaginação.

domingo, 23 de maio de 2010

Três mulheres

Eram três mulheres de ar cansado que tomavam chope no fim da tarde, alheias ao burburinho da Barata Ribeiro na hora do rush. As mesas do botequim estavam todas ocupadas, como sempre no fim da tarde, e o barulho incomodava, como de hábito. Diante da zoada que elas mesmas produzem, as pessoas costumam falar cada vez mais alto para serem ouvidas e acabam quase gritando.

As três mulheres usavam roupas coloridas, falavam alto, às vezes ao mesmo tempo, como as mulheres costumam fazer quando estão em grupo e conversam entre si. Frases soltas podiam ser ouvidas de longe e quem estivesse sentado na mesa ao lado podia escutá-las, mesmo que não pretendesse ouvir o que diziam.

Elas não eram jóvens mas não aparentavam sentir-se velhas. Penso que falavam de amor e do tempo passado, pois uma delas de vez em quando repetia, como se desejasse informar ou convencer as outras, eu já fui amada, eu já fui muito amada.

Os motores aceleravam quando o sinal abria para o verde, aumentando o barulho e a poluição do ar, como acontece todas as tardes em Copacabana.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Looping


Pelas estatísticas da FAB, quase 30 por cento dos acidentes aéreos ocorrem durante o treinamento de pilotos, por culpa dos aprendizes ou da inabilidade dos instrutores.

A história verdadeira e mais surpreendente que já ouvi é a de um desses acidentes. Quando conheci Gilberto, já formado em engenharia, ele confirmou: o que tinham me contado realmente acontecera. Ele havia mesmo caido de um avião, durante treinamento quando era cadete da Aeronáutica.

Estava em vôo solo, o que significa já ter alguma experiência como piloto. Disposto a executar algumas piruetas para exibir técnica e performance, deu-se mal no primeiro loop. Havia esquecido de atar o cinto de segurança e despencou no vácuo. A FAB perdeu um avião e um piloto que escapou da morte sem qualquer ferimento e resolveu estudar engenharia.

domingo, 16 de maio de 2010

No Araguaia


Conhecí aquele inglês alí na divisa de Mato Grosso, Tocantins e Goiás, trabalhando como gerente de uma pousada flutuante no Rio Araguaia. Costumavamos nos hospedar neste botel, de onde saíamos para pescar em canoas com motores de popa, num horário que ia das quatro às dez da manhã, quando o sol se tornava insuportavelmente quente. Taylor, que se dizia de uma pequena cidade perto de Manchester, era nosso anfitrião e guia pelos pesqueiros do Araguaia.

Era ele quem nos despertava, às 3 e meia da madrugada, de modo a que pudessemos estar em plena atividade por volta das quatro. Nada comia pela manhã, tomava apenas um copo de água e, a partir das oito, abria a primeira lata de cerveja e continuava a beber durante todo o restante do dia. Aquele copo que ele dizia ser de água, descobri mais tarde, na realidade era uma farta dose de gin. Nunca o vi embriagado, embora tropeçasse nas palavras, por conta da sua dificuldade com o português.

Da mesma maneira como apareceu nas margens do rio em busca de trabalho, também desapareceu. Quando chegamos no meio do ano, depois das grandes águas, o novo gerente do botel disse que Taylor certo dia pediu as contas, tomou uma última dose de gin, pegou carona num batelão de transporte de gado e sumiu para sempre.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sao Francisco


Dizem que Ouro Preto é uma cidade onde a humanidade construiu o que tinha de melhor e de pior. Crimes, traição e ganância estão presentes na sua história. E os fantasmas rondam a cidade, dizem as lendas – ninguém passeia sozinho na sua névoa, pois uma sombra do passado o acompanha por onde for.

Cada freguesia tem sua igreja, construida nos tempos da abundância do ouro e da transbordante religiosidade do povo. Algumas são de grande beleza, como esta que fotografei no meio da noite enevoada. A igreja de São Francisco de Assis começou a ser construida em 1766, é tida como a obra-prima do Aleijadinho, que foi seu arquiteto e escultor.

Outro mestre do barroco mineiro, Manoel da Costa Ataíde, pintou o teto, representando a assunção de Maria. Os seus santos, santas e anjos trazem nos seus rostos traços dos povos africanos escravizados.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Outono


Apesar da eventual ocorrência de frentes frias que trazem chuva, maio é um dos meses que oferecem ao Rio o tempo mais agradável e temperaturas amenas. Junto com setembro, mostra que outono e primavera são as mais amáveis estações do ano. Elas fazem uma cidade mais tranquila, protegida das canículas do verão e da fria umidade do inverno.

Copacabana prepara-se para hibernar, pois vive do agito do verão carregado de turistas e de banhistas que desfilam seminús pelas calçadas. Agora, no outono, sua verdadeira população sái às ruas. Já não precisa se proteger do calor que torna mais difícil a vida dos mais velhos, enquanto os jóvens sonham com temperaturas que tragam de volta os dias de praia. Pois é na praia que eles vivem a maior parte de suas vidas, onde socializam, acasalam e assistem ao início e ao fim de um novo verão, que traz sempre uma novidade e alguma nova surpresa.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O espetáculo e o medo


Nas duas vertentes adotadas pelo cinema – arte ou indústria – os filmes americanos cada vez mais exibem a escolha das suas platéias pelo espetáculo massificado. Distante da reflexão que toda obra de arte provoca, convidando seu público a uma participação criativa, a indústria americana optou por oferecer ao mercado de um lado a pirotecnia tecnológica e de outro o terror como diversão.

A carência de roteiros criativos é compensada pelos pesados investimentos na produção de blockbusters ingênuos: Avatar, Homem de Ferro e outros super-heróis dos quadrinhos convocados por Hollywood. Uma onda escapista de filmes de animação começa também a invadir o mercado.

A produção B especializou-se na exploração dos pesadelos infantis da classe média americana, criando um gênero que aos poucos se transforma numa cultura do medo. Na falta de emoções sutís, a indústria investe o que é possível na criação de impactos violentos, na exibição de crimes horrorosos e nas ameaças do terror sobrenatural, em fórmulas testadas e repetidas para lotar os cinemas e vender milhões de cópias.

Penso que existe oportunidade para um novo cinema nos Estados Unidos, capaz de criar novas platéias, saturadas de tanto sangue e tanto medo.

domingo, 2 de maio de 2010

As paixões


Existem pelo menos três temas que fazem despertar paixões impossíveis de controlar: futebol, política e religião. Quando faz parte de uma torcida, de um partido político ou de uma das revelações da divindade, o indivíduo abre mão da sua identidade e passa a ser o átomo de um corpo do qual é a menor partícula. O pensamento lógico se retrái para dar lugar à paixão, que é irracional.

Existem, claro, outros tipos de paixão além daquelas. A paixão amorosa é uma delas, quando o amor abandona o altruismo e passa a ser uma doentia necessidade de posse e dominação. O sujeito apaixonado vive a obsessão de um pensamento fixo, um tipo de esquizofrenia que o aliena e o escraviza dentro do círculo da insanidade.

Os tipos mais comuns de paixão situam-se, porém, nas torcidas esportivas e os excessos que conduzem multidões a batalhas campais com mortos e feridos. Na luta pelo poder político, quando o confronto de opiniões contraditórias podem levar à guerra e à destruição. E na crença fanatizada na palavra que teria sido pronunciada por Deus, outra fonte de loucura que conduz à violência cega.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

In illo tempore


Estropiados depois de um dia de marcha a cavalo, nádegas feridas, costumavamos dizer entre nós “imagina se um dia vamos lembrar disso e dizermos bons tempos aqueles”. Nosso corpo tinha o cheiro do suor das montarias, um cheiro tão forte que penetrava nas unhas e demorava meses para sumir.

Os oficiais faziam questão de parecerem o que eram na verdade: oficiais de cavalaria. E se comportavam na velha tradição da mais antiga das armas dos exércitos. Eram duros, grossos, cuspiam palavrões, exigiam que fizessemos as proezas que eles faziam nos obstáculos dos exercícios exteriores. Com a diferença de que eles montavam cavalos árabes ou ingleses e nós os pangarés mal treinados da cavalhada militar.

Os exercícios em picadeiro serviam para divertir os alunos das outras armas. Eles também tapavam o nariz quando passavamos, por causa do nosso cheiro. Noventa por cento da nossa turma levavam quedas espetaculares no movimento de terra-cavalo, que consistia em passar a perna direita por cima da sela, com o cavalo a galope, saltar no chão e no mesmo impulso tornar a montar. Só não caia quem não tinha coragem de saltar. E o quartel inteiro gargalhava.

À noite, não nos deitávamos. Caíamos na cama, num sono tão profundo que era impossível sonhar.

Bons tempos aqueles.

sábado, 24 de abril de 2010

Uma surpresa


A industria põe na rua tal quantidade de produtos das suas fábricas que foi preciso desenvolver técnicas para garantir que esses bens fossem vendidos na proporção em que iam sendo produzidos. Para isso foram criadas e desenvolvidas as técnicas que os americanos chamam de marketing, palavra que adotamos porque não encontramos outra melhor para definir este processo de produto, embalagem, preço, distribuição, publicidade e vendas.

Com a ajuda da pesquisa, as técnicas de marketing chegaram a conhecer profundamente o consumidor: suas preferências, hábitos, emoções, seus pensamentos profundos. A tal ponto que vender um produto transformou-se em equações matemáticas: para entrar num determinado mercado, uma empresa deveria aplicar um volume de dinheiro correspondente aos seus objetivos, comprando dessa forma participação nesse mercado. Era assim que as coisas eram.

De repente, com a pulverização dos meios de comunicação trazida pela internet, vem a surpresa que a McKinsey & Co., uma das maiores na área da consultoria, detectou em seus estudos: dois terços da economia do mundo sofre a influência direta das recomendações pessoais. Ou seja: o boca-a-boca, direto ou eletrônico, funciona melhor do que a mídia tradicional.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Carlos Pena Filho


Carlos Pena Filho morreu com trinta anos de idade, deixou quatro livros, o último deles com sua obra completa: Livro Geral. Quando reuniu tudo o que havia escrito num derradeiro volume, será que teve a intuição da morte, dali a pouco?

Conheci-o no Bar Savoy, uma instituição do Recife que hoje não existe mais, desapareceu junto com a deterioração do centro da cidade. Eu tinha dezoito anos, dez a menos do que ele. Adorava a boemia do Recife, pensava que ali era o meu lugar. Sobre o Savoy, ele escreveu o refrão no poema Chopp:

São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.


Dos poetas de Recife, ele foi um dos maiores entre tantos que marcaram presença na melhor poesia: João Cabral de Mello Neto, Joaquim Cardoso, Mauro Mota, Ascenso Ferreira e o próprio Manuel Bandeira.

Leia neste link alguns dos seus belos poemas: http://www.interpoetica.com/carlos_pena_filho.htm

sábado, 17 de abril de 2010

A cidade do futuro


Há cinquenta anos, quando Brasília foi inaugurada, a imprensa mundial lhe dedicou grandes matérias, pois era a capital de um país construida moderna, exibindo uma arquitetura surpreendente. Vista contra a paisagem do imenso planalto, a linha do horizonte recortava os edifícios e projetava uma grande beleza principalmente ao por do sol.

Sua construção conquistou o interior de um país colonizado no litoral e os governos militares que vieram depois lhe dedicaram grande prestígio, pois era um centro de poder longe do povo, a salvo, portanto, de manifestações de desagrado.

Há quem diga que Brasília é a maior cidade do interior de Goiás. Mas foi saudada como a cidade do futuro e o futuro é hoje. Estariam depositadas neste futuro as esperanças de cinquenta anos atrás?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Rodízio e quilo


Parece que tanto os restaurantes de comida a quilo quanto as churrascarias em rodízio foram invenções brasileiras. Representam uma solução de marketing que leva em conta a fome sem medidas da clientela pois, ao invés do comerciante, quem determina o preço ou o tamanho do prato é o freguês.

Dessas duas fórmulas bem sucedidas de vender comida, o rodízio, invenção dos gaúchos, já existe até na Russia e faz o regalo dos americanos, que esbugalham os olhos e enchem a barriga nas bem sucedidas churrascarias de Miami e Nova Iorque. A carne é um produto caro, nesses países. Quanto ao quilo a preço fixo, penso que ainda não conseguiu sucesso no exterior porque os empresários do ramo de restaurantes temem perder dinheiro nesse negócio. Em Paris, cidade orgulhosa das suas casas de pasto, anunciado como “à volonté”, faz sucesso o buffet a preço fixo. É o que há de mais parecido.

Já em Copacabana, há um restaurante a quilo e uma farmácia em cada esquina. Não existe muita relação entre esses dois negócios, mas ambos são do agrado dos velhinhos do bairro, que garantem a saúde pagando apenas pelo que comem, sem maior desperdício. E dão sempre uma passada na farmácia.

domingo, 11 de abril de 2010

Depois da chuva


A atmosfera lavada abre um céu limpo e azul depois da trágica semana de abril. A amena temperatura substituindo os dias de forte calor inaugura finalmente o outono no Rio mas esta é no momento uma cidade triste. Impossível dar boas vindas com alegria a um céu azul e limpo depois da notícia de tantos mortos.

Uma cidade construida sobre pântanos e mar, crescendo sobre aterros, soterrando rios, avançando sobre os lagos. As enchentes de hoje são o movimento das águas na procura do seu espaço antigo sobre a terra improvisada.

Um amigo me diz que o Morro do Bumba, em Niterói, é uma metáfora perversa de como construimos a nossa sociedade. Uma vila sobre o lixo, construção precária tentando viver sobre detritos que se decompõem e se preparam para destruí-la.

O mar cresce, invade as praias. O limpo céu azul tomou o lugar das núvens negras que trouxeram consigo a destruição.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O melhor livro do mundo


Sua figura curva sobre o cavalo magro ainda hoje é lembrada e a história dos seus feitos continua sendo lida e cultuada. Louco, de porte desengonçado e uma bacia de barbeiro sobre a cabeça servindo-lhe de elmo, completando a velha armadura feita de lata velha, o Quixote continua a povoar o imaginário das gentes.

A compulsão de corrigir as injustiças do mundo aliada ao delírio insano da demência nos encanta porque o mito do herói nos acompanha desde muito cedo. Impossível viver sem a esperança de que todo mal seja combatido e toda injustiça compensada, apesar da dualidade do mundo e da vida.

A história do Quixote contada por Cervantes foi indicada como o melhor livro de todos os tempos, por uma comissão de críticos literários de inúmeros países. Talvez por ter descrito tão bem como são difusas as coisas do mundo, dando razão a Erasmo, que escreveu em seu Elogio da Loucura, em 1509:

"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Livros e e-books


O comércio eletrônico no Brasil cresceu 30 por cento no ano passado e nesta conta não foi incluída a venda de passagens aéreas. Os jornais continuam em queda, a televisão perde audiência e o crescimento dos e-books, nos Estados Unidos, foi de 261 por cento em 2009, na comparação com o ano anterior.

Para uns, o crescimento do livro eletrônico é assustador, pois ameaça a existência do livro. Como seria a humanidade sem livros? É a pergunta que se fazem os bibliófilos, os que amam as estantes carregadas de volumes, por onde passeiam, sonham, consultam e sentem-se felizes.

Hoje, são apenas 3 por cento do mercado de livros os leitores de e-books. Mas o crescimento é enorme e surpreende até os especialistas, que discutem e buscam novas formas de comercialização. Os autores se indagam como irão escrever no futuro, quando o livro poderá não existir mais, ou ter sua importância relativizada.

O livro, como plataforma para leitura, substituiu o papiro, copiado por centenas de escravos que, em Roma, tornavam possível difundir a obra de Virgílio, Horacio ou Ovídeo. Gutemberg trouxe uma revolução que substituiu o papiro. Estaríamos diante de outra, que substituirá o livro?

No dia do Natal de 2009, a venda de e-books na amazon.com superou pela primeira vez a venda de livros.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As dúvidas do embaixador


Um diplomata que passou mais de vinte anos fora do país disse na volta que ainda não se reacostumara com duas manias dos brasileiros. Para protestar contra o atraso do trem, os brasileiros quebram o trem; e não havia como entender o hábito dos homens de coçar em público a genitália.
Também o impressionava o culto da Índia e do hinduismo por um segmento da classe intelectualizada, num misticismo alternativo que busca entender o mundo e a si mesmo com a importação de uma religião exótica. Quando voltou da Índia e passou pelo complexo da maré, disse ele, viu como aquelas construções eram melhores do que as casas da classe média de Deli. Pensou que o hinduísmo poderia ter tomado, naquelas favelas, o lugar das seitas evangélicas dominantes.
O embaixador morreu sem entender por que o homem brasileiro usa gravata no clima tropical do país, por que quebram os trens para protestar e por que não cultivavam o hábito lavar a genitália.

terça-feira, 30 de março de 2010

O homem que bebia cerveja


Conheci gente que resolveu se matar bebendo. Uma forma de suicídio sem dor e talvez com algum prazer, apesar da destruição do fígado. Eram pessoas ternas, sentimentais, risonhas e de humor ligeiramente cáustico que não conseguia esconder o desencanto. Marcelinho Cachaça, Murilo, Gelon, Doka, Abílio, todos eles mergulharam sem desespero na escuridão, de onde jamais sairam.

A lembrança deles me vem por causa do homem gordo que bebia cerveja no botequim da Rua Inhangá. Chegava por volta das sete horas da manhã, quando o bar abria as portas, sentava-se e lá ficava grande parte do dia. Olhava os passantes com ar de ironia, os que iam à praia, os corredores, os atletas do calçadão de Copacabana.

Às vezes ele acompanhava o copo de cerveja de um cálice de bebida branca. Cachaça, vodka, um destilado qualquer para aumentar o teor da cerveja.

Há dias que não o vejo.

sábado, 27 de março de 2010

Opinião pública


Ela se apresenta em ondas, parecidas com aquelas que se formam quando se joga uma pedra na água. E, como o mar, tem correntes às vezes contraditórias. Os políticos a temem porque dependem dela tanto para ganhar quanto para perder votos. Os místicos lhe tributam adoração. A mídia a corteja, ambiciona manipulá-la. Ela é irracional, violenta, avassaladora.

Circula e age dentro e na dependência da massa que, como toda massa, não tem forma nem energia. Mas ultrapassa e transcende a massa, esmaga a individualidade, movimenta-se em busca de sentido e antecipa as grandes mudanças.

Todos a temem, ela não tem rosto e é cavalgada por lideranças que a manejam, por aproveitadores que a bajulam e pelos que lhe fazem promessas de salvação. Ela vai em qualquer direção, mas nem sempre naquela que lhe foi apontada.

A opinião pública é um estranho animal, às vezes devora seus domadores.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Outono


O outono começou trapaceando, pois o calor com sensação de 46 graus é temperatura digna das mais quentes regiões da África. As praias continuam lotadas como no auge do verão, os bares de Copacabana batem recordes na venda de chope e as mulheres se vestem tão nuas como se vestiam para o sol de dezembro.

Não deveria ser assim, pois no outono as folhas deveriam cair e a estação chegar com suas chuvas, mas isto só acontece nos países que se encontram acima do equador, onde agora é primavera. No século XVI, as linhas da amizade dividiram o planeta. Ao norte, a origem da civilização e ao sul o território selvagem, terra de ninguém, livre de culpas, onde não existiria pecado, segundo o Papa Paulo III.

É bom saber que não existe pecado. Mas as estações do ano, com suas mudanças e diferenças, fazem falta. A quase inexistência delas não nos deixam perceber a passagem do tempo. Por que, então, os anos têm passado tão rápidos?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Índios

Os índios carajás e os tapirapés têm aldeias vizinhas nas proximidades de Santa Terezinha do Araguaia. São muito diferentes entre si, a começar pela lingua que falam. Os carajás se expressam em língua do tronco macro-jê e a dos tapirapés pertence ao tronco tupi. Todos falam português de forma arrevesada e os carajás estão muito mais próximos dos brancos do que os tapirapés.

Os carajás exibem sua decadência deambulando pelas ruas de Santa Terezinha, pela dentadura estragada, a aldeia desorganizada e suja e o vício de beber. Adoecem com facilidade. Pagam o preço de terem sido seduzidos e abduzidos pela civilização dos brancos e suas aparentes facilidades.

Os tapirapés são arredios, raramente vão à cidade, cultivam as tradições tupis e vivem da caça e da pesca na pequena reserva que conseguiram delimitar. No princípio dos anos 90, fui mais uma vez ao Araguaia. Estive com os tapirapés em sua aldeia, organizada e limpa. O cacique José Miguel – seu nome em língua portuguesa – agradeceu por todos um livro que encontrei num sebo do Rio e lhe dei de presente. Era o estudo de um antropólogo da USP sobre aquela mesma aldeia, realizado na década de 30. Tinha fotos dos antepassados e a relação de seus nomes. Os tapirapés não gostam de exibir sentimentos porém os mais velhos não esconderam sua emoção.

sábado, 20 de março de 2010

Beleza

De vez em quando as vejo, as divas de outrora. Algumas guardam algo da beleza de antigamente, outras são hoje belas ruínas. Umas são muito tristes, outras conseguem viver o tempo presente e de alguma forma se recusam a continuar na ilusão de que coninuam belas, poderosas e desejadas.

A passagem dos anos é muito cruel para as mulheres bonitas que investiram toda a sua vida na esperança de que assim seriam para sempre. A fugacidade as surpreende na esquina da vida. Compreender e conseguir viver este encontro com o futuro é privilégio de poucas.

A mesma coisa ocorre também com os homens bonitos. Os galãs que arrasaram corações femininos não conseguem compreender por que não são mais olhados, admirados e desejados pelas mulheres com quem hoje cruzam nas ruas. E sentem-se perdidos na tempestade do tempo.

Esta reflexão me ocorre agora, depois de ver, na rua, uma das mulheres mais belas do meu tempo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Ilha do Medo


A atmosfera de pesadelo e de mistério perpassa o filme e lhe transfere o rítmo que captura e prende a atenção do espectador até o fim. O que é um bom filme? Aquele que diverte, transporta a vivência de quem o assiste ou o que faz pensar? A magia do cinema situa-se dentro desses limites e A Ilha do Medo (Shutter Island), apesar de algumas teorias discutíveis sobre a doença mental, chega muito perto, talvez seja mesmo um grande filme.

Martin Scorsese é um dos expoentes da geração de cineastas que revitalizou o cinema amaericano, da qual também fazem parte Francis Ford Coppola, Brian de Palma, George Lucas e Steven Spielberg. É cineasta em tempo integral: estudou na escola de cinema da Universidade de Nova Iorque, mantém uma fundação para a preservação dos filmes mudos, é fã do neo-realismo italiano e de Glauber Rocha. Quase teve de encerrar a carreira depois do escândalo causado por um dos seus melhores filmes, A última tentação de Cristo.

Em A Ilha do Medo, Scorsese volta na sua melhor forma e dirige Leonardo de Caprio numa excelente performance. Os atores americanos ficam bons na medida em que envelhecem, como acaba de também provar Jeff Bridges em Coração Louco (Crazy Heart).

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Tríade

Os chineses desapareceram das ruas de Copacabana. Eles eram muitos – homens e mulheres jóvens – e vendiam bugigangas eletrônicas pelos bares e ruas. Poucos falavam algumas palavras em português mas todos sabiam dizer o preço das mercadorias, contar dinheiro e fazer o troco.

Eram imigrantes ilegais. Sob o rosto impassível dos orientais, não conseguiam disfarçar uma certa preocupação ao verem um policial. Eles sumiram depois que Law King Chong, que dizem ser o maior contrabandista do país, foi preso em São Paulo. Uma coincidência.

A entrada ilegal no Brasil é organizada pela Tríade, nome pelo qual é conhecida internacionalmente a máfia chinesa. Ela não é tão bem organizada quanto a italiana mas está presente em todas as comunidades chinesas extorquindo comerciantes. Sua principal atividade é o tráfico humano. Hong Kong é o centro das suas atividades.

sábado, 13 de março de 2010

Galinha mourisca

Sábado, dia propício à cozinha, eis aqui uma receita portuguesa da forma como se fazia no século XV, antes, portanto, da descoberta das novas terras por Pedro Álvares Cabral. Os mouros ainda influenciavam Portugal.

Tome uma galinha crua e faça-a em pedaços.

Em seguida prepara-se um refogado com duas colheres de manteiga e uma pequena fatia de toucinho. Deita-se dentro a galinha e deixa-a corar.

Cubra-se a galinha com água suficiente para cozê-la, pois não se há de deitar-lhe outra. Estando a galinha quase cozida, tome-se cebola verde, salsa, coentro e hortelã, pica-se tudo bem miudinho e deita-se na panela, com um pouco de caldo de limão.

Acabe de cozinhar a galinha muito bem.

Tome então fatias de pão e disponha-as no fundo de uma terrina, e derrame sobre elas a galinha.

Cubra com gemas escalfadas e polvilhe com canela.

quinta-feira, 11 de março de 2010

As pílulas da liberdade


Conversando com o amigo, ele diz que as mulheres e os velhos hoje são livres mas nem sempre o foram. Devem sua liberdade atual a duas pequenas pílulas: a anti-concepcional e o Viagra. Ele se referia, claro, à liberdade sexual, pois foi através daqueles comprimidos que as mulheres se libertaram da virgindade tardia e os velhos da castidade a que estavam condenados na última fase da vida.

O símbolo da liberdade, portanto, deveria ser a cobra da farmácia e não a estátua que se encontra na entrada do porto de Nova Iorque. Esta tem conotações políticas e representa uma noção de liberdade que faz os Estados Unidos invadirem outros países, enforcarem o presidente e obrigarem o povo a ser livre.

A liberdade, como se vê, tem seu preço. O crescimento da aids na terceira idade tem preocupado as autoridades da saúde pública, embora em contrapartida cresça também a quantidade de velhinhos com ar de felicidade.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um gôl argentino


O cinema argentino passa por um grande momento, não só pelo Oscar de melhor filme estrangeiro que O Segredo de seus olhos acaba de ganhar. A produção do país dispõe de excelentes atores, roteiristas e técnicos e com realizadores do porte de Juan José Campanella, o inspirado diretor que antes já surpreendera as platéias com O Filho da Noiva e Lua de Papel.

O Segredo de seus olhos é uma obra baseada num roteiro complexo, de grande riqueza em seus detalhes e na sutileza da sua linguagem. Passa em revista profundos sentimentos humanos, em um pano de fundo da recente história argentina, tão trágica como a nossa e como a de outros países nossos vizinhos.

É um cinema de qualidade. Uma narrativa em que se misturam paixão, mistério, amizade, riso e amor sem esperanças. Mereceu o Oscar. O prêmio talvez sirva também para mostrar a Hollywood que o uso do talento e da sensibilidade podem resultar num filme melhor e mais barato do que as produções grandiosas e sem imaginação.

sexta-feira, 5 de março de 2010

As brancas


Doka, velho boêmio, aconselhava a tomar cuidado com as brancas. Referia-se a gin, vodka, tequila, todas as aguardentes que à distância se parecem com água. Elas são perigosas, dizia, pois a embriaguês que provocam se confundem muitas vezes com a pura e simples loucura.

Doka foi dono de um bar que sofreu intervenção da família, pois ele era também o seu maior cliente e estava falindo a casa. Posto fora do balcão, foi obrigado a pagar pelo que bebia.

Quando se inscreveu nos AA, dizia que sua força de vontade prevalecera. Era capaz de sentir desprezo por qualquer bebida, só o cheiro de cachaça o comovia, a ponto de sonhar todas as noites com um cálice cheio dela, transparente e branca, cujo odor lhe penetrava e perturbava o sono.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A pracinha do jogo


A pracinha tem o nome de Manoel Campos da Paz, sanitarista que fez campanhas contra a febre amarela, quadro do Partido Comunista, pelo qual foi eleito vereador no Rio de Janeiro. Um médico ilustre, humanista que merece a homenagem. A praça tem um ar tranquilo, algumas mesas de cimento e uma forte vocação para o jogo.

Talvez tenha começado com os motoristas de kombis de aluguel que lá faziam ponto. O baralho ajudava a enfrentar o tédio na espera de clientes e aos poucos a pracinha com o nome do bom médico foi se transformando numa área de jogo que se ampliou pela vizinhança.

Um ponto de jogo-do-bicho e uma inocente loja de venda de jogos eletrônicos, onde as crianças trocam figurinhas, convivem com as mesas ocupadas pelo baralho. Há um botequim frequentado pelos amantes do jogo de damas e, de vez em quando, a polícia perturba a tranquilidade da pracinha e intervém para interromper um veloz jogo de cartas onde o dinheiro troca de mãos com incrível rapidez.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Arroz com costelinha de porco

Este é um fim de semana diferente dos outros mais recentes, pois o calor está mais civilizado, o que nos permite ir à cozinha e preparar um prato interessante. Dos botequins de Minas, trago esta receita. Vamos à cozinha?

Ingredientes:

Costelinha de porco
Bacon em pedacinhos
1/2 pimentão picadinho
1 cebola picadinha
Arroz (a quantidade você determina)
Cheiro verde

Preparo:

Numa panela de barro, fritar a costelinha de porco cortada em pedaços miúdos, refogar em alho e sal, mexer de vez em quando e deixar apurar bem. Quando estiver bem moreninha. retirar e separar na mesma panela.

Verificar a quantidade do óleo que se formou (para que o prato não fique muito gordo). Fritar então bacon em pedacinhos, separar no cantinho da panela, juntar então meio pimentão picadinho, uma cebola picadinha, esperar fritar um pouco, juntar o bacon e o arroz já lavado (a quantidade você determina).
Refogar com a costelinha que estava separada, juntar água quente o suficiente para cozinhar. Mexer de vez em quando para distribuir bem a costelinha. Provar o sal.

Depois de pronto, polvilhar bastante cheiro verde. Pode ser servido com uma salada verde bem temperada.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Intolerância


Os países europeus de tradição colonial pagam hoje a conta pela exploração que praticaram nos países da África e do Oriente Médio. Das antigas colônias que permanecem atrasadas e pobres e onde a injustiça social é parte do sistema do poder político, uma corrente migratória contínua se dirige para as antigas metrópoles.

França e Alemanha, Inglaterra, Espanha e Itália, sem esquecer até mesmo Portugal, são hoje países invadidos e multi-raciais. Em duas ou três gerações, serão tão mestiços quanto o Brasil.

Uma intensa discussão sobre os imigrantes, seus direitos e sua capacidade de integração cultural cresce na Europa. A classe média – sempre ela – manifesta forte intolerância contra esses estrangeiros negros e asiáticos que vêm em busca de emprego e sobrevivência e fazem filhos em suas filhas.

É sobre essa intolerância que o francês Philippe Lioret fez um bom filme, às vezes demasiadamente sentimental, mas mesmo assim muito bonito – Welcome, Bem-Vindo no título brasileiro. A história de um jovem curdo que veio do Iraque para a França. Impedido de entrar na Inglaterra, onde se encontra sua namorada, ele pretende atravessar a nado o Canal da Mancha.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O vôo do tempo

O trânsito pesado das ruas engarrafadas, ônibus e metrô lotados e as crianças entrando e saindo das escolas mostram que a cidade, enfim, começou o ano. Ao Natal e Ano Novo segue-se o carnaval, no calendário brasileiro. E o carnaval, no Rio, durou este ano de sexta até domingo da outra semana, inaugurando um novo e mais demorado período para a festa que mobiliza o povo.

Já estamos a um mês para o fim do primeiro trimestre de 2010, a quarta parte de um ano que promete, mais uma vez, passar muito rápido. A velocidade da passagem do ano aumenta com a nossa idade. Até os 15 anos, sentíamos o tempo demorar muito a passar e ansiávamos pela independência que os dezoito anos simbolizavam. E de repente estamos velhos.

O rítmo de trabalho dos nossos dias, toda a parafernália tecnológica em nosso entorno, a ansiedade que é a marca do nosso tempo, e mais a agitação de um ano de eleições, tudo se conjuga para que logo alí adiante já seja dezembro. A cidade vai parar, então. até o fim do próximo carnaval.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Turistas


O carnaval terminou mas muitos ainda ficaram por aqui. O calor os atrái e parece que eles preferem suar no Rio do que enfrentar o frio que faz este ano na Europa e em todo o hemisfério Norte. Por isso eles estão por aí de pele avermelhada e com as suas roupas diferentes que os identificam à distância.

A cidade recebeu, só durante o carnaval, 730 mil estrangeiros que, dizem, gastaram 500 milhões de euros e ocuparam todos os hotéis. Eles vieram atraidos pelo carnaval mas também porque o Rio tem uma estátua que foi considerada uma das sete maravilhas do mundo, foi eleito sede das Olimpíadas de 2016 e também o melhor destino gay. As universidades de Michigan e da California fizeram uma pesquisa e concluiram que o carioca é o povo mais cordial do mundo. Pronto: é o cenário ideal para um turista.

Sergio Porto dizia, em seus artigos assinados como Stanislaw Ponte Preta, que o morador de uma cidade turística paga os preços que o turista não se importa em pagar. Em sua opinião, a cidade é preparada para o turismo e o nativo é um cidadão de segunda classe.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O pensador


De chapéu novo e roupas limpas, aparência de quem tinha tomado banho, Marquinhos encostava-se na lixeira, talvez para se refazer do calor, quem sabe para, simplesmente, meditar. Alheio ao movimento e ao ruído, compenetrado e com o olhar parado, pensava em silêncio.

Os grupos de turistas vinham da praia no fim da tarde, jovens estrangeiros brancos, vermelhos de tanto sol e olhavam desconfiados para ele. Algumas moças vestiam seus biquinis, o que as identificava como paulistas ou mineiras, pois as cariocas se recusam a desfilar em roupa de banho e usam, na rua, o que chamam uma saida de praia.

A quarta-feira de cinzas ainda cheirava a carnaval, um odor de excrementos e urina; um ou outro passante ainda usava na roupa ou na cabeça detalhes de fantasia.

Marquinhos mergulhava em seus pensamentos, encostado na lixeira da esquina da República do Peru. Ele andava sumido. Agora, com o fim da louca festa do carnaval, volta de banho tomado e na segunda-feira, quando o bairro retomar seu rítmo habitual, estará certamente comandando o trânsito e dirigindo insultos aos motoristas e a quem mais tiver o atrevimento de passar a seu lado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Stieg Larsson


Stieg Larsson morreu jovem, em 2004, de um ataque do coração. Tinha apenas 50 anos mas deu importante contribuição à literatura policial com três romances deixados inéditos e que formam a trilogia conhecida por Millenium. Já vendeu 15 milhões de exemplares em todo o mundo e acaba de ser levada ao cinema em produções suecas.

No Brasil, os três livros tiveram como títulos Os homens que não amavam as mulheres, A Rainha do Castelo de Ar e A menina que brincava com fogo, publicados pela Companhia das Letras. Três histórias com os mesmos heróis: uma jóvem desajustada e talentosa e seu companheiro, um jornalista investigativo, sócio da revista Millenium, que empresta o nome à trilogia.

Os livros representam três bons momentos da literatura noir da Suécia e possúi os ingredientes dos bons policiais: mistério, ação, sensualidade e surpresa. A heroina Lisbeth Salander é um personagem marcante: hacker competente, bissexual, amante impetuosa e detetive com uma centelha de gênio. Uma bela leitura de carnaval para quem procura distância do carnaval.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Fim de tarde

Talvez tenham escolhido um bar tão movimentado como o Real Chopp, em plena Barata Ribeiro, para não tornar a conversa íntima demais. Ele falava, ela escutava e por sua vez rebatia algo que ele acabara de dizer; um detalhe da sua fala, algum argumento mal usado, um sentimento obscuro.

O fim da tarde, nas ruas internas de Copacabana, é marcado pelo barulho dos motores nos engarrafamentos da hora do rush. Talvez por isso, de vez em quando, um dos dois falava mais alto olhando diretamente para o rosto do outro. Depois ela baixava a cabeça e ele olhava para os lados sem saber o que procurava. Ficavam assim por um momento e depois retomavam a discussão.

Ela picava em pequenos pedaços o guardanapo de papel, ele mantinha as mãos nos bolsos. Havia tirado o paletó e a gravata e arregaçado as mangas da camisa para enfrentar o calor. Ela vestia uma saia simples, justa, com um paletó feminino, de acordo com a moda adotada pelas mulheres que exercem cargos executivos. Os dois copos de chope estavam quentes e sem espuma.

Em seguida ele pegou seu paletó e se levantou, deixou um dinheiro em cima da mesa junto com a conta que havia pedido ao garçon e foi embora pela Rua Paula Freitas na direção da praia. Ela ficou durante alguns momentos olhando os automóveis parados no engarrafamento. Então levantou-se, atravessou a rua e pegou um ônibus na direção do Jardim de Alah. O calor batia os 40 graus.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Rio versus Ada


O que já sentíamos no corpo foi confirmado pela ciência: a onda de calor que avassala o Rio foi considerada histórica, porque é a maior dos últimos 50 anos. A combinação de temperatura e umidade faz com que experimentemos uma temperatura mais alta do que a do deserto de Sahara.

Mais quente do que o Rio, nestes dias, só a cidade de Ada, em Gana, dizem os meteorologistas. Estamos, portanto, em segundo lugar no ranking mundial de calor.

Ada, a campeã, está apenas dois décimos acima de nós. Temos, portanto, chance de superá-la ainda neste verão. Esta pequena cidade no estuário do Rio Volta, na costa ocidental da África, é mencionada nos guias pelas belas praias do seu litoral.

Alguns turistas europeus em busca de calor costumam aportar nas praias de Ada e desconfio que devem ser os mesmos que, a esta altura trocando a segunda pele, desfilam pelas ruas de Copacabana.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Carnaval e calor


Os blocos improvisados já começaram a desfilar pela Barata Ribeiro e criam o clima de carnaval em Copacabana. São formados por um carro com alto-falante onde instala-se um cantor, seguido por uma orquestra pobre de uns três instrumentos desafinados. E pelo séquito de uma pequena multidão em que se destacam algumas meninas que desceram das favelas do bairro. Elas vestem seus biquinis e os curtos shorts que constituem sua marca particular de elegância e sensualidade.

O cantor repete as marchinhas que fizeram sucesso nos carnavais dos anos 50. Ele canta fora do rítmo e com a voz cansada de quem já perdeu a noção das palavras exaustas de tanta repetição. As meninas seminuas procuram acompanhá-lo com suas vozes finas, esganiçadas, algumas senhoras idosas abanam-se e também tentam acompanhar o cantor.

Ninguém dança, alguns ensaiam uns poucos passos, balançam o corpo mas interrompem o movimento. O calor não anima o bloco. O trânsito está engarrafado, as pessoas chegam às janelas dos apartamentos para assistir ao desfile que se dirige, lentamente, ao Posto Seis.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A escuridão


Diante do humilhante calor de 41 graus com sensação de 50 que fez ontem no Rio, me refugiei no cinema sem olhar que filme estaria sendo exibido. Entrei na sessão que estava a começar e assisti a O Fim da Escuridão (The Edge of Darkness), de Martin Campbell, que já fez filmes de 007 e já dirigiu, para a TV americana, uma minisérie com a mesma história.

É um drama policial misturado a uma conspiração atômica. Mel Gibson faz o papel principal. Ele é um ator de formação clássica. Já foi dirigido por Franco Zefirelli, em Hamlet, e dedicou muitos anos ao teatro. Mas optou por fazer carreira no cinema comercial. Deu-se bem, dirigiu alguns filmes razoáveis e deve ter ficado rico.

Aos 54 anos, ele parece envelhecido e sua aparência deve refletir os problemas recentes em sua vida pessoal. Fervoroso católico, políticamente aliado à Direita, separou-se da mulher, dirigiu alguns insultos aos judeus pelos quais teve de pedir desculpas e confessou problemas com o alcoolismo.

Depois de algum tempo parado, parece que voltou a beber.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O metrô


Quem usa o metrô do Rio está reclamando. Aumentou o número das estações, expandiram a rede, foi criado um novo trajeto de Botafogo à Pavuna e se manteve o mesmo número de trens. Diminuiram os vagões em cada composição. O resultado deve ter sido o esperado: atrasos e superlotação. É difícil entender o que se passa na cabeça dos engenheiros. Ou dos homens de governo.

É provável que as autoridades tenham sentido a necessidade da realização de grandes obras e expandiram o sistema sem calcular os riscos. É também possível que tenham imaginado que, com o aumento do preço da passagem, a procura iria diminuir.

O povo do Rio tinha um certo orgulho do metrô da cidade e os viajados diziam que ele era melhor do que o de Londres, de Nova Iorque ou de Paris. Era mais limpo, tinha ar-condicionado, melhor organização e não atrasava. Algo aconteceu e a maldição dos transportes caiu sobre o metrô.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Avatar


Desde as primeiras experiências dos irmãos Lumiére com o cinematógrafo, a vocação do cinema inclinou-se para o espetáculo e a diversão. A lanterna mágica provocou emoções de espanto diante de uma tecnologia que despontava e que no futuro encantaria milhões de espectadores em todo o mundo. O cinema de arte, profundo, humano e reflexivo, foi consequência da apropriação do novo meio de expressão por alguns artistas que descobriram sua linguagem e exploraram os seus limites.

Embora aparente preocupações ecológicas e pacifistas, Avatar é um filme ingênuo. Cada uma das sequências que o compõem já foram vistas mais de uma vez em outros filmes. O espectador antecipa o que vai acontecer, pois a luta entre o mal e o bem é um dos temas recorrentes do cinema, cujo maniqueismo é uma das pedras angulares dos seus roteiros. A indústria do entretenimento sabe que o público prefere assistir sempre as mesmas histórias

Resta a tecnologia para compensar a pobreza de um filme feito para crianças. Os efeitos visuais e a exibição em 3D são os verdadeiros protagonistas.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Balzaquianas


Não existem mais balzaquianas, pois as meninas de 30 anos, hoje, ainda moram com os pais e muitas delas ainda não acabaram os estudos. Muitas não pensam sequer em casamento e são mais felizes do que Júlia d`Àiglemont, a infeliz heroina de Balzac em seu romance A Mulher de Trinta Anos, responsável pela palavra que já definiu a mulher que permanecia solteira naquela idade.

As mudanças de comportamento na sociedade fizeram com que a mulher não dependa mais do casamento para se sentir realizada. Mesmo em idade mais avançada, independentes e vivendo sozinhas, elas são muitas em Copacabana. Com a pele queimada de sol, cabelos alourados e usando a pouca roupa imposta pelo forte verão, desfilam pelas calçadas exibindo autoconfiança.

Elas não possuem idade definida. Podem ter quarenta, sessenta anos ou mais. Formam um grupo bem presente no bairro. Pode ser identificado por um jeito de andar, falar e se vestir de quem acha a idade algo realmente irrelevante.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A expansão da Baixada

Com certa unanimidade, os antropólogos costumam afirmar que uma cultura superior esmaga a inferior. E citam exemplos da História, como o fato de a cultura dos gregos ter influenciado a dos romanos, que os tinham vencido e conquistado seu território. Mas nem sempre é assim e às vezes se dá o contrário.

A Baixada Fluminense não se caracteriza como região onde tenha florescido uma cultura sofisticada. Faltam-lhe teatros, museus, bons cinemas, livrarias, uma forte universidade. Mas a sua influência se espalha, já subiu a serra e chegou a cidades históricas, como Teresópolis, que luta para não perder sua identidade. E está cada vez mais próxima de Petrópolis e de Friburgo.

O empobrecimento pode ser uma das causas. Mas não se deveria esquecer o jogo-do-bicho, cujos capi dividiram o território do Estado do Rio de Janeiro e descobriram que a política é uma atividade atraente para quem trabalha distante da lei. Infiltrando-se na política, consolidam seu poder e as cidades conquistadas passam a exibir a mesma arquitetura pobre da Baixada, o mesmo estilo de vida e muitas vezes a violência.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Bastardos Inglórios


Depois de todos os filmes que já foram feitos sobre a Segunda Guerra Mundial, pareceria difícil explorá-la por um ângulo novo. Não foi só Hollywood que se apropriou de episódios, personagens e acontecimentos desse evento que mudou o mundo, mas práticamente todos os cinemas europeus, do francês ao russo, passando pelo italiano, o polonês, o alemão e todos os outros, praticamente exaurindo o assunto.

Quentin Tarantino, no entanto, decidiu que poderia criar algo inédito e fez Bastardos Inglórios, uma delirante versão da guerra, que tem boas interpretações de atores, destacando-se Christoph Waltz e Brad Pitt, cujos personagens disputam quem é mais cruel.

O cinema de Tarantino é interessante. Muitas vezes surpreendente quando utiliza a desbragada violência de uma forma que atinge as raias do humor e quase sempre procura mesmo fazer humor dentro de uma atmosfera sombria. Não é o caso de Bastardos Inglórios. Dessa vez ele parece ter se levado a sério e, num filme de produção muito bem cuidada, ultrapassou no final os limites da ficção. Apaixonou-se pelos seus personagens e reescreveu a história da Segunda Guerra.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Os quatro velhinhos gays


Eles estão sempre juntos, os quatro. De idade, devem ter mais de 75, sentam-se nos bares de Copacabana, conversam entre si, riem muito e avaliam com o olhar os jóvens que vão à praia. Um deles aparenta estar abalado por alguma doença, outro se veste com elegância apurada, um terceiro é discreto e silencioso e o quarto tem o rosto marcado por rugas provocadas pelo riso.

Bebem chope devagar e moderadamente. O que parece estar doente prefere caipirinha e não os vejo comer. São magros, devem controlar o peso cuidadosamente. Riem de maneira maliciosa e cheia de ironia, como riem aqueles que se divertem com as infindáveis bobagens humanas.

O mais elegante costumava aparecer com um cachorrinho no colo, um poodle bem tratado, de cor branca, que acompanhava a conversa entre eles movimentando a cauda e dirigindo-se ora para um, ora para outro, ansiando por atenção. O cão não tem aparecido, ultimamente.

É uma turma formada há muitos anos, acostumada a conviver em seu círculo fechado, pois se entendem e se comunicam às vezes com simples troca de olhar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Copacabana


O calor deu uma trégua mas demorou pouco e o termômetro volta a subir, pois este verão já se anunciava tão quente como os verões históricos que abafaram a cidade, quando se torna possível fritar um ovo nas calçadas.

As meninas estrangeiras das hospedarias do bairro, que vieram de países frios, estão vermelhas, encantadas com o calor. Algumas delas já se desfazem da primeira pele, como um pimentão levado a uma chama. Os bares, como sempre, estão lotados e já se ouve o batuque anunciando o carnaval.

Os quatro velhinhos gays que fazem ponto no bar da esquina tomam chope e riem maliciosamente, paqueram os garotos do subúrbio que saltam dos ônibus e do metrô em direção à praia. Um deles se abana com um leque, ereto e elegante. Marquinhos, louco, tenta desesperadamente dar um pouco de órdem ao trânsito e lança aos motoristas um olhar raivoso, ameaçador.

Copacabana consagra mais uma vez o verão na praia, nos bares e nas esquinas. Vive os seus pecados enquanto, em toda a sua preguiça, prepara-se para mais um ano de luta.