sábado, 18 de novembro de 2017

Cavalaria


Estropiados depois de um dia de marcha a cavalo, nádegas feridas, costumávamos dizer entre nós “imagina se um dia vamos lembrar disso e dizermos bons tempos aqueles”. Nosso corpo tinha o cheiro do suor das montarias, um cheiro tão forte que penetrava nas unhas e demorava meses para sumir.

Os oficiais faziam questão de parecerem o que eram na verdade: oficiais de cavalaria. E se comportavam na velha tradição da mais antiga das armas dos exércitos. Eram duros, grossos, cuspiam palavrões, exigiam que fizéssemos as proezas que eles faziam nos obstáculos dos exercícios exteriores. Com a diferença de que eles montavam cavalos árabes ou ingleses e nós os pangarés mal treinados da cavalhada militar.

Os exercícios em picadeiro serviam para divertir os alunos das outras armas. Eles tapavam o nariz quando passávamos, por causa do nosso cheiro. Noventa por cento da nossa turma levavam quedas espetaculares no movimento de terra-cavalo, que consistia em passar a perna direita por cima da sela, com o cavalo a galope, saltar no chão e no mesmo impulso tornar a montar. Só não caia quem não tinha coragem de saltar. E o quartel inteiro gargalhava. À noite, não nos deitávamos. Caíamos na cama, num sono tão profundo que era impossível sonhar.

Bons tempos aqueles.



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Adágio


O vento suave soprava cedo nas manhãs.
Depois se misturava à poeira e se transformava em redemoinhos.
Suspendia folhas ao sol, transformava a cor dos horizontes.
Concebia os tons de uma paisagem que se estendia no deserto,
lugares ermos, desconhecidos, vistos em algum sonho alucinado.
Durante as madrugadas havia silêncios cobertos pela noite,
longe da imaginação, segredos nunca revelados.
Caminhos encobertos de plantas, pontos de fuga,
lugares onde se encontravam fontes,
início das viagens, sons agudos,
sono de crianças que um dia nascerão.
São assim, como foram,
antes de existirem sombras e sereno sobre as dunas
que se movem e se afastam com a ventania,
desfazem-se,
transformam-se em mares de areia.
Sussurros no silêncio de águas profundas,
onde os peixes se devoram construindo símbolos,
noturnas traduções,

nuances em que a vida se constrói.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Wilson


Wilson está comigo numa memória remota, do tempo em que eu era criança. Ele era filho de Ana, que era lavadeira e também mãe de Gilvan, que morreu tuberculoso. Wilson era muito forte, bem-humorado e valente. Um dia viajou para trabalhar numa fazenda em Mato Grosso e deixou de mandar notícias.

Ana pediu dinheiro emprestado a meu pai e viajou para procura-lo. Voltou sem saber de nada. “Era a imagem da tristeza e da decepção”, disse dela a minha mãe. Quando Wilson reapareceu estava muito magro e muito doente. Havia fugido da fazenda onde trabalhava, ficou escondido no mato, foi ajudado pelos índios, contou muito sofrimento mas conseguiu voltar.

Lembrei-me de Wilson, de quando ele era forte, bem humorado e valente. E também de quando voltou e estava magro e doente. Estas notícias de jornal sobre a flexibilização da lei contra o trabalho escravo me despertaram esta memória de Wilson.