sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Gaivota



O grasnar intenso da gaivota atravessa as cores de uma aurora vermelha acentuada de pincéis dourados. As águas do velho rio têm a cor de chumbo emoldurando o tempo dos edifícios nas duas margens que se defrontam. São duas cidades, uma de frente para a outra mas parecem e são apenas uma só, engrandecidas quando somam seus habitantes e a própria história que se perde no tempo.

São meses de verão, estes de agora. O calor é mais ameno, diferente daquele vivido em dezembro e no tempo do carnaval do Rio de Janeiro. Aqui se vive temperaturas opostas e o frio de dezembro faz lembrar a diferença dos trópicos. Nestes dias de agora, a presença do sol, o céu sem nuvens e a magia de uma cidade também atrai o povo de outras partes do mundo para a festa da vida.


O expatriado recorda outras paisagens que se confundem com esta agora vivida. Todas elas se juntam e se transformam numa viagem a cumprir suas etapas, investigando seus tempos, a explorar seus voos e mergulhar em seus abismos. Assim como estas gaivotas ribeirinhas grasnando no amanhecer desta cidade tão antiga como os confusos pensamentos humanos e tão bela como as cores dos seus labirintos.

sábado, 29 de julho de 2017

Sombras


A passagem do tempo lega a quem sobrevive a vivência da solidão. A morte dos contemporâneos deixa-nos cada vez mais sozinhos. Olhar a vida na procura de decifrá-la nos coloca diante do maior dos enigmas. Se não conseguíamos compreendê-lo quando tínhamos vinte anos, com o passar do tempo adensam-se as trevas que confundem a percepção.

O passado transforma-se no morto que é preciso enterrar para ter vida. O peso das lembranças mistura-se à incompreensão do mistério e o homem se vê diante das paisagens incendiadas no fogo da memória. A cada dia transformam-se em cantos cobertos de cinzas na planície de um território estranho, desconhecido.


Mergulha na infância, velho. Lá não existirão lembranças e as vagas sombras se locomovem como nuvens que vão trazer as chuvas de inverno. Sons de palavras misturam-se à música do vento e ao sussurrar das folhas em canaviais. Um dia o verde imenso se transformará em revelações e virá quem sabe o entendimento do que hoje é mistério, apenas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Tempo


Tempos antigos, imaginados mortos, insistem na memória. Poeira de épocas passadas a insistir no presente, instantes redivivos que teimam em permanecer. A vida é apenas o decorrer de momentos imprevisíveis, dirigidos pelo acaso, ventos no redemoinho de pequenos acontecimentos.

Caminhar no poente levaria à noite, às madrugadas frias do constante inverno onde, disse Fitzgerald, na noite escura da alma são sempre três horas da manhã. Tempo em que geadas trazidas pelo vento se depositam na escuridão das sombras pesadas de lembranças abandonadas.


Levantar-se, andar à procura da rosa da montanha. A chuva se aproxima em fluxos repentinos, inunda as trilhas, traz cores intensas aos crepúsculos em tons de luzes encarnadas. Talvez sejam auroras já perdidas. Lembram a intensidade dos rios no interior de terras imaginárias. Mesmo na memória das crianças o tempo insiste em confundir a calma de manhãs vividas.

terça-feira, 4 de julho de 2017

O enigma


Doka dizia que a humanidade ama a mentira e odeia o Bem, mas acredita que está sempre na busca da verdade e a fugir do Mal. Difundiu a falsa crença de que o Bem sempre vence aliado à virtude, à solidariedade entre os homens e à presença de Deus. A História, no entanto, comprova a  prevalência do Mal, da guerra, do genocídio, de toda sorte de crimes, da corrupção e da violência. E Deus não existe.

Ele também não acreditava no amor, pois entendia ser um sentimento em que seres egoístas se refugiam, solitários e tristes e confusos, acreditando na força sublimada das emoções para evitar a loucura e adiar a tragédia da morte. Mas a morte, ao fim, conquista a vitória para compensar a ilusão da vida.


Doka um dia sumiu e nem mesmo sua família jamais soube para onde fora ou se recolhera. Nós, os seus amigos, continuamos a conviver com o mistério do seu desaparecimento. De vez em quando alguém aparecia na mesa do bar com a falsa notícia de que ele tinha sido visto em algum lugar. Mas Doka levou consigo o enigma que passou a representar. Pelo tempo passado até hoje, talvez já tenha morrido em algum lugar, talvez não. Um sábio, ou apenas um ilusionista ou farsante, penso que na verdade ele representou a má consciência da minha própria juventude.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Retirantes

                                                                                                                                     Portinari

Deponho aqui com palavras
o pensamento assim cristalizado
entre colunas de ódio, de amor
e sentimentos tortos de abandono.

Sobre ilhas, sobre a multidão
de retirantes que há cem anos
passam em frente a esta casa
e trazem marcas do sertão.

O sertão da Paraíba: fuga
e cansaço entre os arbustos,
areia fina, cactos sangrentos
e sede e fome nauseada.

A cara amarelada dos defuntos,
o deformado corpo das crianças,
o riso desdentado dos doentes,
o opaco olhar de cegos e aleijados.

A vida insistindo longe dos tapetes,
da decorada sala de escritório,
da mesa posta para a ceia
de tâmaras e nozes e maçã assada.

São estes rostos sem boca, olho
e nem toque remoto de esperança
a dizer que as tardes são manhãs
de noites penetradas de agonia.

São ecos impotentes entre o som
das caixas eletrônicas, do ritmo
batido dos surdos, das guitarras
e da voz dos amplificadores.

A encardida, grossa pele
das prostitutas de catorze anos
no trotoir das ruas do Recife,
as suas pernas cobertas de feridas.

Está aqui, no ar das avenidas,
o que restou da dor destas meninas:
o seu sorriso de gengivas podres
pelas calçadas do Capibaribe.