terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A moça ao lado



A moça na mesa ao lado comia muito e era muito gorda. E triste. Olhava para diante mas não parecia perceber os que passavam pela calçada em frente. Seu olhar perdido não se afastava de um ponto imaginário e ela apenas pensava, imersa, enquanto comia. E bebia refrigerante. Era também uma moça bonita, de olhos parados e pensamentos sombrios.

Este fim de outono tem trazido chuvas muito fortes e repentinas que inundam as ruas e afastam o povo que costuma encher as tardes de Copacabana. Dezembro tem surpreendido com frias temperaturas de um inverno tardio. O bairro volta a se encolher, como se ainda estivesse à espera dos últimos e movimentados meses do ano.


Os automóveis passavam aspergindo água nas calçadas vazias. Passageiros saltavam dos ônibus no ponto em frente e corriam a fugir da chuva, procuravam abrigo nas marquises, alguns maldiziam o tempo ruim. O fim de tarde criava em torno de si uma paisagem soturna. No botequim quase vazio a moça gorda e triste comia e olhava para alguma coisa que só ela avistava, perdida no infinito e na solidão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Cidades


As cidades nascem, crescem e morrem como os seres vivos. Quem se lembra de Nínive? Sua memória existe apenas na História. Foi a mais importante entre todas, quinze séculos antes de Cristo. O Livro de Jonas a ela se refere como uma cidade excessivamente grande. Perdeu-se no tempo também Senaqueribe, seu construtor, que resplandeceu o mundo com sua glória. E de Tikal, quem se recorda? Orgulho dos reis maias, foi abandonada porque cresceu demais e virou uma cidade perdida entre as árvores da selva.

Há dois anos, Detroit declarou a própria falência. Foi uma das mais ricas cidades americanas. Quando passar o tempo dos automóveis, que fizeram sua riqueza, talvez cumpra o destino de Nínive. Ainda abriga mais de quatro milhões de habitantes. Mas está morrendo. Hoje, javalis pastam no centro da cidade de Chernobyl, que foi grande e representou o poder atômico da União Soviética.


Todas vibravam sua energia e expandiram seu poder pelo mundo. Não resistiram aos desastres que amadureceram sob os pés dos seus habitantes. Algumas foram soterradas, em seu lugar surgiram outras cidades diferentes, muitas vezes com outros povos e falando outras línguas. As grandes metrópoles alimentam o mito de que são eternas mas o tempo não reconhece eternidade no que as civilizações humanas construíram.


domingo, 27 de novembro de 2016

Utopia


Sem a utopia, o que é o homem? Talvez nem o cadáver ambulante que procria, como definiu Fernando Pessoa. Em sua miséria interior, na sua violência animal, desprezo pelos semelhantes, insegurança e atração pelo crime, o bicho humano sonha ao mesmo tempo com a transcendência, a virtude, a justiça e um mundo melhor. Em sua miséria e nas contradições da sua alma sombria, busca desesperadamente a redenção.

Há muito desistimos de um mundo perfeito mas não de sonhá-lo.  Os que ainda não desistiram procuram ecoar alguns valores que precisam ser constantemente veiculados para não se tornarem esquecidos: a tolerância, a busca da verdade, o direito humano ao fracasso, a solidariedade e a justiça.

Testemunhar a ferocidade dos homens leva à desesperança. Há quem desista para se lançar à margem do caminho. Outros, como dizia Paulo Mendes Campos,  resolvem não pensar mais na ferrovia, mas no homem que se consumiu na ferrovia. E concluir que, se multiplicou sua própria dor, multiplicou também sua esperança.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A partida



A partida


Na terra onde cactos, palmas
e malacacheta brotaram seus espinhos,
foi construído um muro de silêncio
cercado pelo medo e o arrepio
das noites cheias de pressentimento.

Foram anos que formaram décadas,
vertigem de tempo e do refluxo
do ódio derramado pelas ruas,
nas cidades visitadas pela sombra
anunciando a dor dos torturados.

Visitamos com fome estas cidades,
vadeamos com sede os seus rios,
ouvimos o gemido e a gritaria
pelas suas largas avenidas,
vimos o sangue sobre a alvenaria.

Além das cercas de arame, o querosene
usado nas feridas do rebanho
provocava o ar e o cheiro
de um tempo tecido em pesadelo
e na humilhação dos oprimidos.

Um tempo descrito nos contornos
da escuridão dos cegos,
na contemplação dos velhos,
no andar dos aleijados
e no murmurar dos condenados.

Havia um sinal marcando o rumo
da nossa leva de emigrantes,
que não sabia para onde ir.
O orgasmo doía nas entranhas
e também o ato de existir.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O morro


Do branco areal do século XIX sobrou uma praia em forma de tripa que já não é tão branca. Cercada de morros, Copacabana abriga as contradições de um país contraditório. Na Avenida Atlântica, os ricos escutam o barulho do mar enquanto os pobres se espremem nas favelas dos morros dos Cabritos, São João e Santa Marta, os que se avistam daqui de onde estou, no Morro do Inhangá.

Este morro tinha antes uma enorme pedreira que foi demolida para abrir a Nossa Senhora de Copacabana e construirem o Edifício Chopin, ao lado do Copacabana Palace. O morro permanece, escondido por uma cerca de edifícios.

Dizem que a palavra Inganhá vem do tupi-guarani Anhangá e significa espírito ruim. Era em cima daquela pedreira que os raios caiam durante as tempestades.


domingo, 13 de novembro de 2016

Sobre astros



Sombras esquisitas, sons disformes, figuras estranhas numa noite como todas as outras mas contudo diferente. Há uma super lua nos céu com aparência de estrela morta há milênios, antes mesmo de se formar a via láctea onde nasceram os planetas sem luz. Corpos celestes escuros onde a vida depende do calor de fontes que deixaram há muito de existir.

Os viventes aspiram o ar viciado da noite com a respiração silenciosa dos enfermos. Há um tédio enorme em todas as manifestações da vida e este silêncio vem acompanhado da fúria que as nuvens escuras anunciam. Animais se movimentam, homens se protegem, a noite em que dormem os pesadelos mais uma vez se estende sobre o dia.


Qual a origem dessas sombras, a criança pergunta a si mesma em pensamentos inquietos e lança o olhar sobre a planície dos sonhos, onde o vento sempre antecede as tempestades. Neste silêncio ouve-se o roçar das esferas que habitam o espaço infinito. Os bichos escondem-se nas mesmas nuvens que cobrem os corpos inermes atormentados pela fúria da noite, prenúncio sombrio do inesperado choque das manhãs.