quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A partida



Em um verso de uma das suas composições memoráveis, Luiz Gonzaga diz “quem deixa a terra natal em outro canto não para”. Ao desenterrar as raízes, o sentimento é o de não pertencer mais a lugar nenhum. O retirante despede-se das suas referências sentimentais e segue um rio de corrente agitada, margens inóspitas e portos desconhecidos.

O próprio lugar de onde um dia partiu não existirá mais. Como disse Drummond, será apenas um doloroso retrato na parede. Nada restará da paisagem da infância, apenas um ou outro ponto de lembrança numa paisagem esquecida. As cidades se perdem com o tempo, em seu lugar surgem cenários diferentes, estranhos, desconhecidos, sem memória.


O tempo é um redemoinho de lembranças cujas formas desapareceram dentro do próprio tempo e foram reconstruídas de emoções tardias. Pouco ficou gravado na alma da criança antiga, só inquietações e o desejo de partir novamente como ave de arribação. Os sonhos seguem na direção de destinos desconhecidos, onde talvez tenha sido semeada a esperança.

domingo, 25 de setembro de 2016

Morte em Las Vegas




Lembrei-me de um filme de baixo orçamento que surpreendeu Hollywood em 1995. Rendeu um Oscar a Nicholas Cage e deu novo impulso à carreira de Elizabeth Shue, que foi também indicada ao Oscar de melhor atriz. Leaving Las Vegas ganhou outros prêmios da crítica especializada e em diversos festivais de cinema nos EUA e pelo mundo afora. Naquele tempo, Cage cuidava melhor de sua carreira e o diretor Mike Figgis conseguiu dele uma interpretação que só costuma ser alcançada pelos grandes atores.

Tanto ele, Cage, quanto Elizabeth Shue tiraram de seus personagens toda carga de humanidade, frustração, desespero e perplexidade existentes no mundo emocional de um alcóolatra no caminho do suicídio, disposto a beber até morrer, e de uma prostituta que busca compensar sua solidão através de um amor que ela mesma sabia ser condenado ao fracasso.

Mike Figgis é também o responsável pela trilha sonora que transmite admiravelmente a atmosfera de Las Vegas, cidade artificial construída no meio do deserto, cenário perfeito para os últimos dias de um homem que tem pressa para chegar ao encontro com seu destino trágico. E para a história de uma mulher marginalizada e humilhada até os limites da degradação que descobre na solidariedade do amor um caminho que pode levá-la a se redimir. Las Vegas, cidade do divertimento e do vício, oferece o contraste adequado para uma das mais belas e tristes histórias de amor contadas pelo cinema.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um número



I

Um poema sem metáforas agudas,
com náusea e tédio, indefinido,
capaz de enxergar nos próprios versos
o mistério existente nas palavras.
Perseguição de formas anacrônicas,
soneto estéril, mutações de ritmo
cuspindo imagens, nexos opacos
ferindo inutilmente a folha branca.
Dilacerados sons. Ecos de outros
sons plantados na memória
estiolada de aflições antigas.
Marcado a indecisão, pleno
de vocábulos criados nos escombros
de palavras mudas.

II

Um número cercado
pelos lados, na fronteira
existente nestas cercanias
de tempo e de lugar, de desejos
para sempre reprimidos.
Existirá neste momento,
na exata procura dos limites
onde se encontra a febre
das sezões enfurecidas,
quando as almas das crianças
são habitações do medo.


sábado, 17 de setembro de 2016

José


José levantava-se cedo e mergulhava nas águas frias do mar tranquilo. Depois corria pela praia até o marco das casuarinas, alem da fumaça da usina, onde ainda não se avistava o fim daquela imensa paisagem. Não tinha companhia nas areias desertas, apenas a das gaivotas e outros pássaros pescadores que naquela hora mergulhavam em busca de comida.

Nuvens muito brancas misturavam-se com o verde das águas e continuavam a desenhar seus formatos sopradas pelo vento que mudava de direção e tangia aquelas nuvens. Um peixe saltava além da quebrada das ondas, perseguido pelos golfinhos que cercavam e devoravam cardumes. Era a selvagem lei do mar, pensava José.


Nos fins de tarde, um raro por de sol mergulhava lá adiante, na linha do horizonte marcado pelo fim do mar alcançado pela vista. A esta hora as crianças corriam na areia molhada banhada pelas ondas. Pensamentos nostálgicos lhe acudiam, mas eram bons e vinham acompanhados de pequenas alegrias. Muitos anos depois, dizia José que havia vento, havia nuvens, as crianças corriam e havia manhãs, naquele tempo.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Presságios



Névoas. Uma névoa de sono se aproxima e a criança sente-se mergulhar em áreas desconhecidas, inconscientes, acinzentadas. Uma paisagem se destaca, nela os animais passeiam lentamente, aproximam-se uns dos outros em ritmos marcados pela chuva umedecendo a terra.

Os habitantes prosseguem na sua marcha sob aquela chuva tentando adivinhações, buscam entender os sons que escutam misturados a notas musicais que se calam e de novo recomeçam. Acompanham as curvas descampadas, seguem para o lado assoprado pelo vento, buscam compreender os vultos indefinidos.


O sol tenta alguns raios de claridade mas não consegue ultrapassar a névoa nem os ambientes cinzas, úmidos e dispersos. Os dias estão enfraquecidos pela brisa, os bichos paralisados, surgem sortilégios, presságios, recordações. O homem procura sentido nas premonições e nas metáforas da vida. Neste país onde os dias são muito breves, o longo anoitecer traz consigo pesadelos e a própria noite antecede o mergulho sem fim no interior das trevas.

domingo, 4 de setembro de 2016

Blog Celso Japiassu: Finitude

Blog Celso Japiassu: Finitude: O sentimento marcante da vida não é a aspiração do infinito mas, ao contrário, a sensação de que todas as coisas são finitas, fugidi...

Finitude



O sentimento marcante da vida não é a aspiração do infinito mas, ao contrário, a sensação de que todas as coisas são finitas, fugidias, transitórias. Nada existe para durar, pois a vida é simplesmente um momento antecedendo a morte. E não haverá recomeço ou antevisão de nuvens acompanhadas de ventos alísios de esperança. A eternidade é um momento fugaz na embriaguez das almas.

Nascemos para completar um ciclo de reprodução da espécie. A existência tem uma data de vencimento que nós próprios ignoramos. E somos lançados na vida incapazes de andar, falar e enxergar com clareza, dependentes e perplexos. Nossa primeira manifestação é o pranto.


Somos uma espécie de macaco nu, feroz, que destrói a si mesma e conseguiu o domínio da tecnologia para dominar o mundo e escravizar as outras espécies. Nascemos para a brutalidade, para a divisão entre classes e a destruição do planeta que habitamos. Não há saída para o homem, há somente a perspectiva e a incompreensão da sua própria finitude.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A glória e o precipício




Um dos homens mais ricos do mundo foi um sueco chamado Ivar Kreuger, que teve o monopólio da fabricação e venda de fósforos em práticamente todo o mundo. Em seus escritórios localizados no prédio de número 7, na elegante Place Vendôme, em Paris, comandava várias empresas, entre as quais a poderosa Ericsson, e administrava o monopólio de fósforos negociado com chefes de estado em quase todos os países ocidentais.

Kreuger era também um boa-vida, dotado de grande charme pessoal, amante de belas mulheres que frequentavam sua garçoniere no andar logo acima dos seus escritórios. Era também amante dos bons vinhos, que guardava no subsolo do mesmo prédio. Sua adega despertou inveja até no banqueiro J.P. Morgan, seu rival no mundo dos negócios internacionais.

Como todos os grandes investidores, Ivar Kreuger amava os riscos do poker dos grandes negócios, que enfrentava com reconhecida inteligência financeira e dos quais saía ainda mais rico. Numa dessas jogadas, a fusão da Ericsson com a ITT americana, blefou e deu-se mal. Na manhã do dia 12 de março de 1932, Kreuger comprou uma pistola Browning automática de 9 mm e cem balas. Usou apenas uma delas para matar-se com um tiro no coração.