segunda-feira, 20 de março de 2017

Trevas



As trevas são habitação do medo, às vezes se constroem no íntimo dos homens e obscurecem a visão das coisas do mundo. Existem porque são antípodas da luz, de paisagens primaveris, do odor da chuva sobre um campo ressecado, inútil. No vasto azul escondem-se nuvens macias, brancas, onde não existem temor ou ameaças sombrias.

Existem, sim, paragens desconhecidas onde talvez naveguem sentimentos, crenças na luminosidade da vida ao lado de enleios, relvas umedecidas por finos orvalhos noturnos. São estas as visões que desassombraram os videntes que fugiram do inferno em busca da poesia.

A noite mais uma vez se aproxima das cores do crepúsculo, as águas do rio cor de chumbo passam com pressa rumo ao mar onde irão confundir-se com tonalidades menos escuras. Não haverá que temer nem trevas nem as sombras invasoras do poente. Vagarosamente, o silêncio começa a dar sentido às coisas inúteis que são, elas sim, a imitação exata dos segredos que cercam tudo, até a vida, ela mesma.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Um nome



Quase não falo. Trago presos
o peso das palavras e a mudez
diante do que é transitório.

A vida vale pelos precipícios,
pela morte, por seus labirintos,
pelos seus formatos perecíveis.

Dor é a dor dos oprimidos
e não a dor dos corações partidos
e não a dor do soco do inimigo.

É mais a dor do fundo das feridas,
a cicatriz das almas humilhadas,
o olhar para trás dos fugitivos.

O silêncio em que se debruçam
as marcas da nossa fome
e o seu desejo calado.

As suas assombrações,
o seu delírio, a febre
enlouquecida das sezões.

Tudo junto na memória
das coisas construídas
à margem do pensamento.

E sei que esta melodia,
estes sons desencontrados,
repetem o mesmo tema:

homem, lembra o teu nome,
não esqueças o teu nome
não te esqueças do teu nome.

Pois a lembrança se parte
quebrando-se nas muralhas
de ódio e de esquecimento. 

Escreve-se no teu rosto,
na palma de tuas mãos,
por toda a tua lembrança.

Por que não se nasce sem nome?
Não se morre sem ter nome?
É esta a vida do homem.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

As brancas



Doka, velho boêmio, aconselhava a tomar cuidado com as brancas. Referia-se a gin, vodka, tequila, todas as aguardentes que à distância pareçam água. Elas são perigosas, dizia, porque a embriaguês que provocam muitas vezes se confunde com a loucura.

Doka foi dono de um bar que sofreu a intervenção da família, pois era também o seu maior cliente e estava falindo a casa. Posto fora do balcão, foi obrigado a pagar pelo que bebia.

Quando se inscreveu nos AA, dizia que sua força de vontade prevalecera. Era capaz de sentir desprezo por qualquer bebida, só o cheiro de cachaça o perturbava, a ponto de sonhar todas as noites com um cálice cheio dela, transparente e branca. O cheiro que sentia lhe penetrava e o fazia perder o sono.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O lado humano



Um governador e sua dama, o negociante que sentava entre os mais ricos do mundo, os políticos cheios de poder, os famosos, os belos e os festejados, sua queda e desonra não nos deixam esquecer do que somos feitos. Há uma substância invisível, estranha, obscura e má que traça linhas para o destino e reveste o coração dos homens.

A queda dos ídolos, a desgraça dos poderosos e a inútil fantasia da onipotência são testemunhos da condição humana. No seu tempo, Shakespeare gozava de enorme sucesso popular com suas peças que exibiam a fragilidade dos poderosos. Hamlet, Othelo, Macbeth, o Rei Lear, Ricardo III, eram todos aristocratas, distantes do povo, vivendo suas tragédias particulares.

Os grandes trágicos gregos mostravam também que nem os deuses estavam isentos das fraquezas e das quedas. Quando desmorona, o Olimpo dos dominadores deixa revelar que poder e dinheiro estão condicionados por mesquinhos sentimentos humanos. É quando o destino demonstra a miséria que existe na grande planície dos instintos sombrios.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ruas





Existem ruas vivas e ruas mortas. As de Brasília, como as da Barra da Tijuca, são ruas onde a vida não pulsa, onde se vê apenas o desfilar dos automóveis com seus passageiros isolados, prisioneiros entre vidros fechados e escurecidos de insulfim. São vias em que os sinais de trânsito, quando acendem os farois vermelhos, transformam-se em paradas ameaçadas por assaltantes que podem saltar das sombras e nos levar a bolsa e a vida.

Nas ruas mortas não existem bares, nelas as mulheres não desfilam diante de olhares perturbados pelo desejo nem se vê nas esquinas o encontro de pessoas que há tempo não se viam e de repente uma surpreende a outra.

Existem ruas onde a vida se manifesta nas lojas, nos botequins e em todas as esquinas, onde as mesas de calçada permitem observar com tranquilidade o desfilar da comédia humana. A Barata Ribeiro e a rua do Catete são exemplos de ruas que vêm de outros séculos mas cuja antiguidade não lhes tirou a animação e a vida. Ao contrário, deu-lhes um estilo e algum orgulho de serem a prova de que houve uma forma diferente de viver uma cidade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O charme



Quando hoje vejo fumantes acuados nas portas dos edifícios onde são proibidos de entrar, quando me lembro dos trepidantes anúncios de cigarros na TV e das coloridas fotos nas páginas nobres das revistas, ainda me surpreende a rápida derrocada do hábito de fumar. Do símbolo de status e poder que exalava, do charme social que possuia, o cigarro foi reduzido em poucos anos a um vício mesquinho e doentio.

Quase todos os fumantes que ainda insistem nesse hábito pensam em deixá-lo mas sentem-se incapazes. A cada dia novas doenças são associadas ao fumo, além do câncer pulmonar sobre o qual parece não haver mais dúvidas. É o terror substituindo o charme.

Pergunto-me sobre o que restou dos quinhentos anos de prazer que o fumo trouxe à civilização, quando foi descoberto logo após a conquista do Novo Mundo. Apenas isso, o medo das doenças, a bronquite e o câncer?

domingo, 29 de janeiro de 2017

Amanhecer

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Às sete da manhã, nesta época do ano, ainda faz escuro no Norte de Portugal. O tempo é frio e chove, às vezes. Ouço o canto das gaivotas do Rio Douro e os pingos de chuva na vidraça da janela acentuam a indecisão da paisagem que ainda se mantem mergulhada na densidade da noite. A gata chamada Preta acompanha meus passos e segue o meu olhar que busca enxergar no espaço escuro ocupado por árvores e construções antigas.

As gaivotas são um dos símbolos do Porto. São aves marinhas mas povoam também o Rio Douro. Dele se alimentam, nele procriam e formam suas colônias. Seu canto estridente soa sempre como um alerta, são mansas e não temem a proximidade humana. Seguem os barcos, povoam as margens do rio.

Enquanto a manhã avança, a aurora começa a aparecer e minuto a minuto ocupa lentamente o espaço da noite. A claridade tímida se embaralha nas nuvens de cinza escuro e há um ritmo próprio do sol que começa a ocupar todos os espaços, ilumina o que ainda restava sombrio, desponta sua luz dourada e começa a mostrar a beleza intensa das águas, dos velhos edifícios e da torre que se pode ver de qualquer ponto de onde se olhe pelos cantos desta cidade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Vivências


Quando sonhamos, dá-se o despertar da nossa vida inconsciente. Quando conseguimos nos lembrar do que sonhamos, nem sempre a lembrança é de conteúdo lógico, que possua um desenrolar capaz de ser contado, algo que tenha começo, meio e fim. São sensações, visões e emoções encadeadas que formam estranho painel refletindo essa misteriosa vida que existe por baixo da nossa vida consciente. Não há tempo nem espaço definidos, só vivências interiores, longas e extraordinárias, que podem ocorrer durante o cochilo que dura apenas um segundo, o tempo de um cabecear, mas onde se sucedem experiências que parecem prolongadas num tempo infinito.

Parece que sonhamos durante o sono mais leve, aquele que surge logo que adormecemos e que retorna pouco antes do despertar. Do sonho do sono profundo, nada fica em nossa memória consciente. Mas desconfio que muitas das nossas reações espontâneas, os rápidos reflexos que às vezes possuimos diante da vida, muitas das resoluções que nos ocorrem diante de problemas complicados, são todos construidos pelas vivências que sonhamos, em sua linguagem irracional e fora do mundo lógico.

Penso que se todos os nossos sonhos durante o sono profundo fossem lembrados, seríamos levados a confundir a realidade com o mundo onírico. Não é isto o que ocorre com os loucos?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O amor



Depois de mais uma separação das muitas mulheres que amou, Doka me disse que não precisava dela para ser infeliz. O que não disse foi o que eu já tinha visto mais de uma vez, a profunda tristeza que lhe provocava o fim de cada romance. Ninguém se une a outra pessoa para uma ligação provisória, o amor traz sempre consigo e em suas voltas a aspiração do infinito.

Toda paixão é para sempre, dizia Doka, ninguém se apaixona imaginando o amor com data de vencimento. Mas algo existia que acabava por liquidar os amores eternos e o sentimento profundo voltava ao chão das coisas banais, às vezes se transformava em mágoa e ressentimento.

Divagando, bebendo e expressando seus pensamentos, Doka parecia falar para si mesmo. Acompanhei algumas das suas paixões definitivas. Eu sabia que provavelmente não iriam durar muito tempo, mas Doka se entregava inteira, apaixonada e profundamente. Até descobrir que não precisava de ninguém para ser infeliz.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Calor



A temperatura alta do verão carioca, a umidade do ar e o sol forte desses dias me fazem lembrar um texto de Borges que fala da humilhação do calor. Acho que é isso: o calor humilha as pessoas, a roupa se cola ao corpo e o suor desce pelo rosto. Você se sente como se carregasse bolas de ferro amarradas aos tornozelos. Todos reclamam do calor, uma mulher se abana de maneira nervosa e um camelô vende leques na calçada.

Uma amiga que nasceu e vive na Europa me disse um dia que a lembrança mais forte dos dias que passou no Rio, durante um mês de fevereiro, era a de uma gota de suor que lhe escorria, permanentemente, espinha abaixo. No calor europeu do mês de junho, não há suor. A baixa umidade do ar provoca um calor seco e sufocante.

O Rio é uma cidade que vive o verão. É quando ela mostra sua face verdadeira, regurgita, festeja e, literalmente, põe o bloco na rua em desfiles carnavalescos que começam desde janeiro. De abril a setembro, a cidade hiberna, esperando estes meses quentes de praias cheias, asfalto amolecido, bares com todas as mesas ocupadas, mulheres seminuas, samba e calor humilhante.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Saci



Na Cavalaria me designaram o cavalo 89. Não tinha nome, igual a todos os outros que eram conhecidos assim, por números. Dóceis, aprenderam a andar em fila, era difícil fazê-los se locomover fora dos alinhamentos organizados por um, por dois, por três ou por quatro, a depender da ordem que recebíamos gritada pelos oficiais.

Era um cavalo estúpido sem nome ou personalidade, como todos os outros. Acostumados à disciplina e às esporas, à violência dos cavaleiros que lhes impunham suas vontades. Obedeciam e seguiam aquele que estivesse imediatamente a sua frente. Eram animais escravizados e confinados em baias ou na ordem dos pelotões.

Havia apenas um que não se deixava dominar. E tinha um nome – Saci. Qualquer um de nós que recebesse a ordem de montá-lo sabia que era um castigo. Sofreríamos uma queda – às vezes violenta - que purgaria alguma falta cometida ou a simples antipatia do capitão. Era um cavalo orgulhoso, altivo, voluntarioso, nunca disciplinado. Todos sabíamos que Saci era um modelo, não para os outros cavalos, mas para nós mesmos. Na sua rebeldia ele nos mostrava que era possível desafiar os códigos e que isto sim era um gesto de liberdade.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Embriaguez

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No bar, observo os três homens bêbados e penso que desde a antiguidade a humanidade aprendeu a fermentar e depois a destilar frutos e plantas para alterar o modo de ver o mundo. As sociedades muito antigas descobriram como acelerar a fermentação mastigando os frutos. Depois cultivaram a vinha, num estágio mais avançado da civilização.

Os destilados apareceram com a tecnologia que acompanhou a industrialização. O resultado foi uma bebida concentrada e forte, com maior quantidade de álcool e capaz de embriagar rapidamente.

O homem é um animal estranho. Condenado à consciência, descobriu na química dos elementos uma maneira de alterá-la, mudar a percepção da realidade e fazê-la quem sabe parecer melhor. Uma forma de suportar uma vida fugaz e as angústias que o acompanham ligadas ao seu destino.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Natal


Um acesso de pranto cerca a vida
no momento em que a criança nasce
para o sacrifício dos dias.

O sono do qual acorda
leito de palha, pasto de animais -
despertará também neste Natal.

Não para a festa de guirlandas,
das vitrines de alabastro
e neve de algodão.

É uma criança de face
e expressão perdidas,
lembradas apenas nos escritos.

Na memória dos feridos,
no pesadelo dos mudos
e no olhar dos perseguidos.

Esperança. Palavra repetida,
proclamada nos ritos,
nas igrejas e comícios.

Pouco proferida no dezembro
do calendário dos anos:
dois mil e dezesseis.

Uma vez ainda no Natal,
tão próximo da morte e da Paixão,
a memória e o tempo se confundem.

Mas encontram-se nas ruas,
no asfalto das cidades,
na chama das velas de eletricidade.


Entenderemos o pranto do recém-nascido,
perscrutaremos o olhar de espanto e medo
com esta palavra traduzindo tudo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Uma sombra



Entre a folhagem e a galharia
seca desta terra, onde memória
e tempo se confundem, tua vida
se mascara e se encerra nos limites
de sua última fronteira.

No clarão do sol à tua frente,
na imensidão desolada
de tanto espaço visto e assinalado,
com todos os sinais da encruzilhada
que procuraste entender e nada mais.

É grande esta paisagem de números,
a sua multidão de flagelados
na derradeira sombra dessas árvores,
na fonte que aos poucos transformou-se
no suor de homens e animais.

Permanecem ainda os sinais de vida
naquelas cercanias do lugar
onde se estende um corpo
e uma mão acenou na direção
das almas condenadas.

Mas é só réstia de vida,
porque a vida é mais do que deitar,
aceitar o sonho e avistar
a chegada da sombra a um lugar.
Vida é mais do que lutar.

É mais que revolver o tempo
ou a imagem das plantas,
insetos perseguindo gotas d'água
nos meses carregados de lembrança.
É mais do que o gesto ou emoção.

É acidente interrompendo
o fluxo das forças, energia que dorme
no íntimo das pedras, na nuvens
carregadas de eletricidade,
pelos mares e florestas densas.

É o fundo do conflito, porque paz
não há de residir nos seres vivos.
É o exato momento em que a vida
se completa e nela própria
se confunde o ato de existir.

Pois ela se transmite como germe,
vírus de doença que se cura
quando o ciclo se fecha e se completa,
o contágio se funde, antecipando vida
para seguir mais uma vez a mesma trilha.




domingo, 11 de dezembro de 2016

Minorias


As variadas tribos de Copacabana validam a palavra diversidade, que anda na moda quando se fala de uma sociedade moderna que aceite de bom grado o direito das minorias. Pois minorias é o que não falta no bairro. A primeira delas é a dos velhos que habitam os prédios antigos e formam a primeira referência. Exibem sua pobreza e uma certa dignidade nos supermercados, nos bancos, nas festas e nas ruas distantes da praia. Eles vieram para cá nos anos cinquenta, antes que Ipanema e Leblon despontassem como áreas residenciais e muito antes da Barra, o enorme areal hoje ocupado pela classe emergente dos subúrbios.

Tem os boêmios que enchem os bares da noite e, entre as profissões noturnas, ainda se destacam as jovens prostitutas e prostitutos que fazem ponto na Avenida Atlântica. Um garçon me chamou a atenção para a raridade das velhas putas de antigamente porque as de hoje tomam drogas e morrem cedo.

Há o mundo, o submundo, os atletas, as favelas, os jogadores de cartas das praças públicas, os pequenos e os grandes ladrões, criminosos e policiais de todos os matizes. Todos vivendo juntos. Cento e cinquenta mil pessoas em 79 ruas, sem contar os turistas e os que vêm de outros bairros e enchem a praia no fim-de-semana.

Hoje, um dia quente, o bairro ferve não só com a Parada do Orgulho LGBT. Os bares lotam, as mulheres se despem em Copacabana, o mais cosmopolita e democrático e também o mais humanamente rico dos bairros da cidade.