quarta-feira, 14 de junho de 2017

A vida



Um escritor expõe suas entranhas. Procura iludir seus leitores, assume uma postura distante, às vezes cínica, como se não fosse dele o sofrimento, a angústia que desponta na ficção que produz. Flaubert dizia que Madame Bovary era ele próprio. Esta divisão da própria personalidade em tantas vivencias é o que faz de um autor o escravo dos seus próprios fantasmas.

Dos poetas, então, as almas se dilaceram, às vezes. Poe, alcoólatra, viveu os últimos anos a ganhar um pouco de dinheiro para beber recitando O Corvo, seu poema mais célebre, nos botequins de Baltimore. Ginsberg emitiu um lancinante Uivo de angústia existencial, Alvares de Azevedo, tuberculoso, morreu com 21 anos. Maiakovski se matou, assim como seu amigo Essenine.

Doka, que era um bêbado, insistia que toda esta sina tinha raízes no mito da felicidade dos homens. A insistência em ser feliz, contrariando o destino da vida, conduzia à decepção e à própria infelicidade. Ninguém nasceu para ser feliz, ele dizia, pois se contentava em retirar da vida apenas a vida, ela só.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O bandolim



A música de um bandolim trouxe a poeira do tempo em que os sons misturavam-se a lembranças abandonadas. Meninos corriam contra o vento, espalhavam seus gritos pela chuva. Os olhos do poeta cego procuravam ouvir e compreender o que pudesse existir de beleza em volta. E de poesia, sim.  Entender o que faz uma criança incorporar na alma o fascínio da chuva e o que há de mágico numa ventania.

Mulheres de negro sentavam-se às calçadas e olhavam apenas o passar do mundo. Pouco havia de sons além da música do bandolim que era tocado por um velho de cabeça baixa, pernas cruzadas e ele também perdido nas fímbrias do seu próprio tempo. As nuvens tangidas pelo vento traziam também o coro das tempestades que tornavam a paisagem vazia como a solidão dos mortos.

Nenhum de nós conseguia entender além daquela música mas sabíamos que algo existiria acima de todas as coisas, mesmo dos sons das notas espalhadas pelo espaço do tempo incompreensível. A distância e as emoções despertadas faziam pensar em algo que estava além, muito além do coro das crianças que corriam contra o vento desafiando o som, a beleza de um bandolim sob as nuvens aziagas do final de um dia.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Noite



Aves mortas penetram no sono da criança. Ela se move entre os pequenos corpos imóveis de penas suaves agitadas pelo vento. Depois há um tigre com estrias vermelhas e olhos de fogo incandescente. A criança olha em torno e volta-se para o arco-íris colorido. Mais uma vez o vento se transforma na tempestade de tons negros, cinza e bordas escarlates.

As cores se transformam também nas sombras que avançam  vindas do horizonte e toda a paisagem se move na direção de um lugar que não existe. Somente o pensamento aproxima esta paisagem da vida que vai nascer em algum lugar distante, úmido de chuva, sombrio como a noite das paragens frias.

E mais uma vez renasce o desejo de ver o voo dos pássaros inertes que atapetam o chão com penas movidas pelo vento. Os outros animais aproximam-se lentos, curiosos, amedrontados. Ignoram o significado de tudo, o chão de vidro assume a opacidade dos ventos e a criança, uma vez mais, tenta vencer o assomo de lágrimas intensas e da noite que nunca mais terminará.

sábado, 29 de abril de 2017

Ilha Vitória



O executivo da multinacional que me acompanhou durante dez dias bebia muito. Todos os expatriados que moravam na Nigéria, naquele tempo, bebiam muito. A paisagem era feia e confusa na imperfeita cidade de Lagos. No dia em que cheguei oito acusados de roubo foram fuzilados na quente manhã de sol, perto do hotel, numa praia da Ilha Vitória, que foi urbanizada no tempo dos ingleses. Vimos os condenados passar conduzidos na carroceria de um caminhão sinistro.

Durante muito tempo não consegui esquecer os rostos negros e tristes, o olhar perdido em algum ponto que não era ali, naquele lugar, a praia aonde foram conduzidos para serem mortos. O mais jovem era quase um menino, o jornal dizia que havia roubado um aparelho de som.

Na tarde do mesmo dia fomos para o aeroporto para embarcar em direção a Kaduna. O voo atrasou como sempre. Marcado para as duas da tarde,  decolou às sete da noite. Passamos o tempo no bar miserável, lotado e barulhento. Quando embarcamos estávamos bêbados. Durante a viagem continuamos a beber de uma garrafa que trouxéramos na mala de mão. Alguns muçulmanos estenderam tapetes no corredor do avião e rezaram em direção a Meca. Conversamos sobre muitas coisas, bêbados mas no entanto conscientes. Não conseguimos falar daqueles que haviam sido fuzilados, naquela manhã, na praia da Ilha Vitória.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Mudanças



A viagem de 11 horas atravessando o Atlântico a deixou inquieta, de mau humor, no desespero da prisão de uma caixa sem conforto. Miou seu protesto durante todo o voo até a chegada num aeroporto movimentado, ameaçador. Submeteu-se com paciência ao exame minucioso das autoridades e aguardou curiosa a apresentação dos certificados que atestavam a sua saúde. Para quem havia saído do clima do Rio em pleno calor de janeiro, não pareceu estranhar o frio intenso da cidade desconhecida.

Ocupou a nova casa, bem menor que a anterior, e percorreu cada canto enquanto a pequena cadela, silenciosa durante toda a viagem, a acompanhava com os olhos. Nos poucos dias de sol das primeiras semanas, procurava os raios filtrados pelas nuvens para fugir do frio do Norte de Portugal. Em breve, ambas sentiram-se à vontade, adaptadas a um país diferente.

Acostumou-se ao canto dos novos pássaros e às árvores que não eram mais as palmeiras que lhe fizeram companhia desde quando era um filhote ingênuo. Tornou-se amiga de uma oliveira plantada no pequeno jardim e passou a perseguir os insetos estranhos que habitam a nova paisagem. Ainda não lhe foi possível caçar uma das gaivotas do Rio Douro mas também não desistiu. Algum dia vai conseguir, pois a vida é assim - desafiante, trazendo consigo a permanente surpresa das emoções até então desconhecidas e que lhe dão significado e sentido.


sábado, 15 de abril de 2017

Aniversário

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Quando nos conhecemos éramos muito jovens e cada um de nós pai de duas filhas. Egressos do jornalismo, trabalhávamos na mesma agência de publicidade, pois para quem era muito jovem, tinha família e precisava de dinheiro, a publicidade pagava melhor. Numa prolongada noite em um bar de Belo Horizonte selamos nossa amizade. Descobrimos que havíamos lido os mesmos livros, ouvido as mesmas músicas, gostávamos dos mesmos filmes e tínhamos a mesma visão do mundo.

Foi um encontro que durou mais de cinquenta anos. Perpassamos ideias, tivemos vitórias e fracassos,  vivemos num país em que muitos amigos morreram na prisão sob tortura, algumas vezes nos separamos e tornamos a nos encontrar. Continuávamos a conversa interrompida. Ele, cristão. Eu, não tinha Deus como referência porque não recebi a graça da fé. Mas ambos acreditávamos na luta pela justiça social, na paz e no destino superior do homem.

Sua morte me fez pensar na passagem do tempo, no tempo cujo significado é a vida presente. O futuro é sempre o lugar em que estamos e o passado é feito de momentos mortos. Do passado restarão apenas a intensidade de alguns instantes vividos, o amor pela vida e uma antiga e boa amizade. Hoje, dia 15, era seu aniversário.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Anna



Sua alegria deixava no entanto transparecer a tristeza que seus gestos largos, o riso aberto e a forma franca de falar não conseguiam esconder. Talvez nesses momentos ela se achasse mesmo feliz, pois assim representava, incapaz de uma palavra que pudesse desmentir aquela euforia diante dos acontecimentos  da vida.

Assim ela era. Ou como os outros a viam. É mesmo difícil perceber quando há uma sombra no fundo do olhar enquanto a boca e o riso procuram acompanhar gestos largos mas aflitos. Sua voz era sempre alta, às vezes parecia expressar timidez, em outras transmitia o ligeiro tremor que perpassa as almas em desespero.

A maior lembrança da sua presença não me vem da felicidade em que todos acreditavam mas sim da melancolia, da desesperança que seus olhos transmitiam discretamente, sufocando o riso. Num dia muito claro, de muito sol sobre as praias do Rio de Janeiro, quando ela se matou, todos os que a conheciam se disseram chocados, surpreendidos pelo inesperado. Mas seu olhar sempre anunciara aquilo.

terça-feira, 28 de março de 2017

Os mortos



Convivemos com nossos mortos. Lembrá-los é uma maneira de mantê-los vivos na nossa vida. A memória deles nos ajuda a evitar a despedida que sabemos eterna. Enquanto envelhecemos aumenta a quantidade dos amigos e dos mais próximos, amantes e conhecidos que partiram antes de nós. Teu pai morreu, teu avô também, em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, nos lembra Drummond em seu poema de passagem de ano.

A dor da lembrança e dos instantes perdidos estará sempre conosco enquanto vamos a ficar cada vez mais sozinhos. A solidão da vida presente na lembrança dos nossos mortos. Eles vão nos acompanhar para sempre. De repente um rosto, uma gesto, uma palavra vai nos trazer a imagem de alguém que um dia nos acompanhou num breve espaço da nossa existência.

Aprendemos a lidar com a morte pela dificuldade de entender o amor e seu desejo de ser eterno enquanto sabemos pouco, muito pouco sobre a vida. Nada esperamos de paragens desconhecidas, de seus traços e da ausência que transporta consigo apenas a dor e seus contornos indefinidos.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Trevas



As trevas são habitação do medo, às vezes se constroem no íntimo dos homens e obscurecem a visão das coisas do mundo. Existem porque são antípodas da luz, de paisagens primaveris, do odor da chuva sobre um campo ressecado, inútil. No vasto azul escondem-se nuvens macias, brancas, onde não existem temor ou ameaças sombrias.

Existem, sim, paragens desconhecidas onde talvez naveguem sentimentos, crenças na luminosidade da vida ao lado de enleios, relvas umedecidas por finos orvalhos noturnos. São estas as visões que desassombraram os videntes que fugiram do inferno em busca da poesia.

A noite mais uma vez se aproxima das cores do crepúsculo, as águas do rio cor de chumbo passam com pressa rumo ao mar onde irão confundir-se com tonalidades menos escuras. Não haverá que temer nem trevas nem as sombras invasoras do poente. Vagarosamente, o silêncio começa a dar sentido às coisas inúteis que são, elas sim, a imitação exata dos segredos que cercam tudo, até a vida, ela mesma.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Um nome



Quase não falo. Trago presos
o peso das palavras e a mudez
diante do que é transitório.

A vida vale pelos precipícios,
pela morte, por seus labirintos,
pelos seus formatos perecíveis.

Dor é a dor dos oprimidos
e não a dor dos corações partidos
e não a dor do soco do inimigo.

É mais a dor do fundo das feridas,
a cicatriz das almas humilhadas,
o olhar para trás dos fugitivos.

O silêncio em que se debruçam
as marcas da nossa fome
e o seu desejo calado.

As suas assombrações,
o seu delírio, a febre
enlouquecida das sezões.

Tudo junto na memória
das coisas construídas
à margem do pensamento.

E sei que esta melodia,
estes sons desencontrados,
repetem o mesmo tema:

homem, lembra o teu nome,
não esqueças o teu nome
não te esqueças do teu nome.

Pois a lembrança se parte
quebrando-se nas muralhas
de ódio e de esquecimento. 

Escreve-se no teu rosto,
na palma de tuas mãos,
por toda a tua lembrança.

Por que não se nasce sem nome?
Não se morre sem ter nome?
É esta a vida do homem.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

As brancas



Doka, velho boêmio, aconselhava a tomar cuidado com as brancas. Referia-se a gin, vodka, tequila, todas as aguardentes que à distância pareçam água. Elas são perigosas, dizia, porque a embriaguês que provocam muitas vezes se confunde com a loucura.

Doka foi dono de um bar que sofreu a intervenção da família, pois era também o seu maior cliente e estava falindo a casa. Posto fora do balcão, foi obrigado a pagar pelo que bebia.

Quando se inscreveu nos AA, dizia que sua força de vontade prevalecera. Era capaz de sentir desprezo por qualquer bebida, só o cheiro de cachaça o perturbava, a ponto de sonhar todas as noites com um cálice cheio dela, transparente e branca. O cheiro que sentia lhe penetrava e o fazia perder o sono.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O lado humano



Um governador e sua dama, o negociante que sentava entre os mais ricos do mundo, os políticos cheios de poder, os famosos, os belos e os festejados, sua queda e desonra não nos deixam esquecer do que somos feitos. Há uma substância invisível, estranha, obscura e má que traça linhas para o destino e reveste o coração dos homens.

A queda dos ídolos, a desgraça dos poderosos e a inútil fantasia da onipotência são testemunhos da condição humana. No seu tempo, Shakespeare gozava de enorme sucesso popular com suas peças que exibiam a fragilidade dos poderosos. Hamlet, Othelo, Macbeth, o Rei Lear, Ricardo III, eram todos aristocratas, distantes do povo, vivendo suas tragédias particulares.

Os grandes trágicos gregos mostravam também que nem os deuses estavam isentos das fraquezas e das quedas. Quando desmorona, o Olimpo dos dominadores deixa revelar que poder e dinheiro estão condicionados por mesquinhos sentimentos humanos. É quando o destino demonstra a miséria que existe na grande planície dos instintos sombrios.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ruas





Existem ruas vivas e ruas mortas. As de Brasília, como as da Barra da Tijuca, são ruas onde a vida não pulsa, onde se vê apenas o desfilar dos automóveis com seus passageiros isolados, prisioneiros entre vidros fechados e escurecidos de insulfim. São vias em que os sinais de trânsito, quando acendem os farois vermelhos, transformam-se em paradas ameaçadas por assaltantes que podem saltar das sombras e nos levar a bolsa e a vida.

Nas ruas mortas não existem bares, nelas as mulheres não desfilam diante de olhares perturbados pelo desejo nem se vê nas esquinas o encontro de pessoas que há tempo não se viam e de repente uma surpreende a outra.

Existem ruas onde a vida se manifesta nas lojas, nos botequins e em todas as esquinas, onde as mesas de calçada permitem observar com tranquilidade o desfilar da comédia humana. A Barata Ribeiro e a rua do Catete são exemplos de ruas que vêm de outros séculos mas cuja antiguidade não lhes tirou a animação e a vida. Ao contrário, deu-lhes um estilo e algum orgulho de serem a prova de que houve uma forma diferente de viver uma cidade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O charme



Quando hoje vejo fumantes acuados nas portas dos edifícios onde são proibidos de entrar, quando me lembro dos trepidantes anúncios de cigarros na TV e das coloridas fotos nas páginas nobres das revistas, ainda me surpreende a rápida derrocada do hábito de fumar. Do símbolo de status e poder que exalava, do charme social que possuia, o cigarro foi reduzido em poucos anos a um vício mesquinho e doentio.

Quase todos os fumantes que ainda insistem nesse hábito pensam em deixá-lo mas sentem-se incapazes. A cada dia novas doenças são associadas ao fumo, além do câncer pulmonar sobre o qual parece não haver mais dúvidas. É o terror substituindo o charme.

Pergunto-me sobre o que restou dos quinhentos anos de prazer que o fumo trouxe à civilização, quando foi descoberto logo após a conquista do Novo Mundo. Apenas isso, o medo das doenças, a bronquite e o câncer?

domingo, 29 de janeiro de 2017

Amanhecer

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Às sete da manhã, nesta época do ano, ainda faz escuro no Norte de Portugal. O tempo é frio e chove, às vezes. Ouço o canto das gaivotas do Rio Douro e os pingos de chuva na vidraça da janela acentuam a indecisão da paisagem que ainda se mantem mergulhada na densidade da noite. A gata chamada Preta acompanha meus passos e segue o meu olhar que busca enxergar no espaço escuro ocupado por árvores e construções antigas.

As gaivotas são um dos símbolos do Porto. São aves marinhas mas povoam também o Rio Douro. Dele se alimentam, nele procriam e formam suas colônias. Seu canto estridente soa sempre como um alerta, são mansas e não temem a proximidade humana. Seguem os barcos, povoam as margens do rio.

Enquanto a manhã avança, a aurora começa a aparecer e minuto a minuto ocupa lentamente o espaço da noite. A claridade tímida se embaralha nas nuvens de cinza escuro e há um ritmo próprio do sol que começa a ocupar todos os espaços, ilumina o que ainda restava sombrio, desponta sua luz dourada e começa a mostrar a beleza intensa das águas, dos velhos edifícios e da torre que se pode ver de qualquer ponto de onde se olhe pelos cantos desta cidade.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Vivências


Quando sonhamos, dá-se o despertar da nossa vida inconsciente. Quando conseguimos nos lembrar do que sonhamos, nem sempre a lembrança é de conteúdo lógico, que possua um desenrolar capaz de ser contado, algo que tenha começo, meio e fim. São sensações, visões e emoções encadeadas que formam estranho painel refletindo essa misteriosa vida que existe por baixo da nossa vida consciente. Não há tempo nem espaço definidos, só vivências interiores, longas e extraordinárias, que podem ocorrer durante o cochilo que dura apenas um segundo, o tempo de um cabecear, mas onde se sucedem experiências que parecem prolongadas num tempo infinito.

Parece que sonhamos durante o sono mais leve, aquele que surge logo que adormecemos e que retorna pouco antes do despertar. Do sonho do sono profundo, nada fica em nossa memória consciente. Mas desconfio que muitas das nossas reações espontâneas, os rápidos reflexos que às vezes possuimos diante da vida, muitas das resoluções que nos ocorrem diante de problemas complicados, são todos construidos pelas vivências que sonhamos, em sua linguagem irracional e fora do mundo lógico.

Penso que se todos os nossos sonhos durante o sono profundo fossem lembrados, seríamos levados a confundir a realidade com o mundo onírico. Não é isto o que ocorre com os loucos?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O amor



Depois de mais uma separação das muitas mulheres que amou, Doka me disse que não precisava dela para ser infeliz. O que não disse foi o que eu já tinha visto mais de uma vez, a profunda tristeza que lhe provocava o fim de cada romance. Ninguém se une a outra pessoa para uma ligação provisória, o amor traz sempre consigo e em suas voltas a aspiração do infinito.

Toda paixão é para sempre, dizia Doka, ninguém se apaixona imaginando o amor com data de vencimento. Mas algo existia que acabava por liquidar os amores eternos e o sentimento profundo voltava ao chão das coisas banais, às vezes se transformava em mágoa e ressentimento.

Divagando, bebendo e expressando seus pensamentos, Doka parecia falar para si mesmo. Acompanhei algumas das suas paixões definitivas. Eu sabia que provavelmente não iriam durar muito tempo, mas Doka se entregava inteira, apaixonada e profundamente. Até descobrir que não precisava de ninguém para ser infeliz.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Calor



A temperatura alta do verão carioca, a umidade do ar e o sol forte desses dias me fazem lembrar um texto de Borges que fala da humilhação do calor. Acho que é isso: o calor humilha as pessoas, a roupa se cola ao corpo e o suor desce pelo rosto. Você se sente como se carregasse bolas de ferro amarradas aos tornozelos. Todos reclamam do calor, uma mulher se abana de maneira nervosa e um camelô vende leques na calçada.

Uma amiga que nasceu e vive na Europa me disse um dia que a lembrança mais forte dos dias que passou no Rio, durante um mês de fevereiro, era a de uma gota de suor que lhe escorria, permanentemente, espinha abaixo. No calor europeu do mês de junho, não há suor. A baixa umidade do ar provoca um calor seco e sufocante.

O Rio é uma cidade que vive o verão. É quando ela mostra sua face verdadeira, regurgita, festeja e, literalmente, põe o bloco na rua em desfiles carnavalescos que começam desde janeiro. De abril a setembro, a cidade hiberna, esperando estes meses quentes de praias cheias, asfalto amolecido, bares com todas as mesas ocupadas, mulheres seminuas, samba e calor humilhante.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Saci



Na Cavalaria me designaram o cavalo 89. Não tinha nome, igual a todos os outros que eram conhecidos assim, por números. Dóceis, aprenderam a andar em fila, era difícil fazê-los se locomover fora dos alinhamentos organizados por um, por dois, por três ou por quatro, a depender da ordem que recebíamos gritada pelos oficiais.

Era um cavalo estúpido sem nome ou personalidade, como todos os outros. Acostumados à disciplina e às esporas, à violência dos cavaleiros que lhes impunham suas vontades. Obedeciam e seguiam aquele que estivesse imediatamente a sua frente. Eram animais escravizados e confinados em baias ou na ordem dos pelotões.

Havia apenas um que não se deixava dominar. E tinha um nome – Saci. Qualquer um de nós que recebesse a ordem de montá-lo sabia que era um castigo. Sofreríamos uma queda – às vezes violenta - que purgaria alguma falta cometida ou a simples antipatia do capitão. Era um cavalo orgulhoso, altivo, voluntarioso, nunca disciplinado. Todos sabíamos que Saci era um modelo, não para os outros cavalos, mas para nós mesmos. Na sua rebeldia ele nos mostrava que era possível desafiar os códigos e que isto sim era um gesto de liberdade.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Embriaguez

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No bar, observo os três homens bêbados e penso que desde a antiguidade a humanidade aprendeu a fermentar e depois a destilar frutos e plantas para alterar o modo de ver o mundo. As sociedades muito antigas descobriram como acelerar a fermentação mastigando os frutos. Depois cultivaram a vinha, num estágio mais avançado da civilização.

Os destilados apareceram com a tecnologia que acompanhou a industrialização. O resultado foi uma bebida concentrada e forte, com maior quantidade de álcool e capaz de embriagar rapidamente.

O homem é um animal estranho. Condenado à consciência, descobriu na química dos elementos uma maneira de alterá-la, mudar a percepção da realidade e fazê-la quem sabe parecer melhor. Uma forma de suportar uma vida fugaz e as angústias que o acompanham ligadas ao seu destino.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Natal


Um acesso de pranto cerca a vida
no momento em que a criança nasce
para o sacrifício dos dias.

O sono do qual acorda
leito de palha, pasto de animais -
despertará também neste Natal.

Não para a festa de guirlandas,
das vitrines de alabastro
e neve de algodão.

É uma criança de face
e expressão perdidas,
lembradas apenas nos escritos.

Na memória dos feridos,
no pesadelo dos mudos
e no olhar dos perseguidos.

Esperança. Palavra repetida,
proclamada nos ritos,
nas igrejas e comícios.

Pouco proferida no dezembro
do calendário dos anos:
dois mil e dezesseis.

Uma vez ainda no Natal,
tão próximo da morte e da Paixão,
a memória e o tempo se confundem.

Mas encontram-se nas ruas,
no asfalto das cidades,
na chama das velas de eletricidade.


Entenderemos o pranto do recém-nascido,
perscrutaremos o olhar de espanto e medo
com esta palavra traduzindo tudo.