segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Devir



Havia árvores sem folhas e nos seus galhos nus algumas aves procuravam por um abrigo inexistente. Era uma busca angustiada, pontuada de cantos roucos, piados dissonantes, voos curtos e sem destino. Onde animais tinham vivido era uma paisagem seca, áspera, feita de pedras e areia enegrecida. E não havia chuva, nem fontes, muito menos sombras.

Aquele era o território abandonado por tréguas inúteis, revelações cegas e perseguições. Um lugar sem tempo que agredia com sua face real e definitiva, pesadelo de algum monstro imaginário. As nuvens que outrora foram brancas surgiam sujas, enegrecidas de pó, desilusão de todos os desejos. Crianças muito feias e também sujas olhavam para elas, as nuvens.

Sobre as carcaças, restos de carniça atraiam urubus e outros pássaros estranhos, predadores de olhos assassinos. Ao fim do dia o sol continuava a queimar a terra e tudo o que ainda restara de outros tempos tão cruéis como o de agora. Sôfregos soluços, respiração entrecortada de gemidos dirigidos a um horizonte sombrio, imundo e cheio de ameaças.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Manhã



A manhã levantou-se nas franjas de um vento muito frio para esta época do ano e o grasnar das gaivotas acentuou o sentido da solidão do dia. Pouca gente nas ruas, o distante barulho de motores parecia o ressonar dos últimos dias de verão no Norte de Portugal. O velho dirigiu o olhar para a conhecida paisagem agora misturada em cores de azul e cinza.

O pensamento  voltou-se para o passar  das nuvens pesadas que lembravam mais um outono saudoso da primavera. Palavras soltas pareciam descrever o ritmo do tempo passando, a passar como o próprio vento que lhe emprestava sua moldura visível no farfalhar das folhas, no movimento das flores do jardim coberto pela neblina leve.

Vieram também sons desencontrados povoando a manhã, entre eles o que parecia ser o soluço de uma criança tímida. E veio também com eles a memória a perseguir o tempo, a lembrança de outros dias, quando as crianças corriam ao encontro dos ventos do verão chuvoso. E de quando se falava de esperas e esperanças. E também da imensidão da vida diante dos limites do mundo.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A ti, Emmanuel




Como acontece a todos os poetas,
chega a hora de escrever o último poema.
E eu o dedico a ti, Emmanuel,
a quem foi negada a faculdade humana de morrer.

A ti, cuja palavra nos dirige à vala comum das despedidas
chamada por ti revelação.
Primata, inventor dos medos, sutil transfigurado,
serpente viva na doença dos culpados.

Li teus livros. Apóstata curioso, adventista inútil,
fui a teu encontro à noite, nos vitrais.
Procurei-te no chão das naves,
no pórtico das salas onde as inundações deixaram
marca sem memória.

Engoli soluços ajoelhado nas pedras, nas calçadas
em que andarilhos se perderam nas trilhas disfarçadas.
Acreditei no mito das almas condenadas.

Morri no momento impossível
em que as aves soturnas começam a enxergar o amanhecer
e um vento inesperado sopra nas sombras do verão.

Desci passo a passo degraus de catedrais
observado por gárgulas medonhas.
Andei no fio dos horrores,
no escuro dos quartos
onde prostitutas cegas perscrutavam o amanhecer.
Persegui roteiros como sou, noctâmbulo perdido nas manhãs.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Os loucos





Os loucos olham sem surpresa para o mundo. Seus olhos miram profundamente para dentro de si mesmos e não para o mundo exterior que lhes parece ilógico e absurdo. Mergulhar no fundo da loucura faz descobrir a essência do que não conhecemos, embora seja lá onde se encontra a vida que foge quando dela nos aproximamos.

Existimos como se fossemos o sonho de um gigante adormecido. Deus. A vida seria uma ficção porque nela tudo se transforma, adormece e muda. Só os loucos têm a certeza de que certas paisagens que se revelam são sinais de outra vida, paralela a esta que vivemos, contornada por dimensões desconhecidas. E onde  habita a morte, que só existe porque existe a vida.

Andar sob a claridade e nela avistar a escuridão que toda luz traz consigo. O pensamento estanca diante de uma parede opaca impossível de atravessar mesmo na fantasia de um sonho. A realidade intercepta a possibilidade de viver além das fantasias delirantes da memória e da ilusão do presente.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

O mergulho




A escuridão sem pontos de fuga, ventanias que acompanham todas as doenças da alma. O momento da vida em que vivências degeneram em sofrimento, batidas descompassadas de tambores idiotas a chamar para festins inexistentes. A busca da embriaguez perseguida pela lucidez que teima em não te abandonar. Chegou a hora. Partir na direção do caos.

Entender o âmago do sofrimento, iluminar a noite de sombras, mãe dos pesadelos. Freud. E segues para o mergulho. Uma criança perdida naquela escuridão sem fuga, demônios, tragédias sem sentido seguem o tempo no qual desabam sentimentos e as primeiras lágrimas da vida começam a brotar no ventre da mãe, no nevoeiro, orvalho que se transforma em granito.

Muito tempo depois o velho vira-se para o passado. Procura recordar o mergulho, entender onde e quando foi que as amarras se soltaram mas tem medo do sofrimento. Volta a cabeça, cospe, bebe e uma vez mais pretenderá enxergar os horizontes.



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Um artista




Anthony Quinn, ator de tantos filmes em Hollywood, nasceu em Chihuahua, no México, em 1915, e morreu em Boston, em 2001. Embora naturalizado americano, não cortou os laços com a sua terra. Parece ser esta uma das angústias que perseguem os artistas. Eles sentem-se estéreis quando esquecem o lugar onde nasceram.

Pouco antes de morrer, deixou registrada a forma como imaginava seus funerais. Queria que fossem na forma tradicional dos índios do seu país. Eles não enterravam nem cremavam seus mortos.

Pediu para ser levado em procissão por seus treze filhos ao alto de uma montanha e lá fosse deixado para servir de pasto às aves de rapina. Elas comeriam seu corpo que, depois de digerido pelos pássaros, seriam espalhados pelos mais longínquos territórios do seu país. Foi uma bela declaração de amor à pátria feito por alguém que em breve ia morrer.