quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O amor



Depois de mais uma separação das muitas mulheres que amou, Doka me disse que não precisava dela para ser infeliz. O que não disse foi o que eu já tinha visto mais de uma vez, a profunda tristeza que lhe provocava o fim de cada romance. Ninguém se une a outra pessoa para uma ligação provisória, o amor traz sempre consigo e em suas voltas a aspiração do infinito.

Toda paixão é para sempre, dizia Doka, ninguém se apaixona imaginando o amor com data de vencimento. Mas algo existia que acabava por liquidar os amores eternos e o sentimento profundo voltava ao chão das coisas banais, às vezes se transformava em mágoa e ressentimento.

Divagando, bebendo e expressando seus pensamentos, Doka parecia falar para si mesmo. Acompanhei algumas das suas paixões definitivas. Eu sabia que provavelmente não iriam durar muito tempo, mas Doka se entregava inteira, apaixonada e profundamente. Até descobrir que não precisava de ninguém para ser infeliz.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Calor



A temperatura alta do verão carioca, a umidade do ar e o sol forte desses dias me fazem lembrar um texto de Borges que fala da humilhação do calor. Acho que é isso: o calor humilha as pessoas, a roupa se cola ao corpo e o suor desce pelo rosto. Você se sente como se carregasse bolas de ferro amarradas aos tornozelos. Todos reclamam do calor, uma mulher se abana de maneira nervosa e um camelô vende leques na calçada.

Uma amiga que nasceu e vive na Europa me disse um dia que a lembrança mais forte dos dias que passou no Rio, durante um mês de fevereiro, era a de uma gota de suor que lhe escorria, permanentemente, espinha abaixo. No calor europeu do mês de junho, não há suor. A baixa umidade do ar provoca um calor seco e sufocante.

O Rio é uma cidade que vive o verão. É quando ela mostra sua face verdadeira, regurgita, festeja e, literalmente, põe o bloco na rua em desfiles carnavalescos que começam desde janeiro. De abril a setembro, a cidade hiberna, esperando estes meses quentes de praias cheias, asfalto amolecido, bares com todas as mesas ocupadas, mulheres seminuas, samba e calor humilhante.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Saci



Na Cavalaria me designaram o cavalo 89. Não tinha nome, igual a todos os outros que eram conhecidos assim, por números. Dóceis, aprenderam a andar em fila, era difícil fazê-los se locomover fora dos alinhamentos organizados por um, por dois, por três ou por quatro, a depender da ordem que recebíamos gritada pelos oficiais.

Era um cavalo estúpido sem nome ou personalidade, como todos os outros. Acostumados à disciplina e às esporas, à violência dos cavaleiros que lhes impunham suas vontades. Obedeciam e seguiam aquele que estivesse imediatamente a sua frente. Eram animais escravizados e confinados em baias ou na ordem dos pelotões.

Havia apenas um que não se deixava dominar. E tinha um nome – Saci. Qualquer um de nós que recebesse a ordem de montá-lo sabia que era um castigo. Sofreríamos uma queda – às vezes violenta - que purgaria alguma falta cometida ou a simples antipatia do capitão. Era um cavalo orgulhoso, altivo, voluntarioso, nunca disciplinado. Todos sabíamos que Saci era um modelo, não para os outros cavalos, mas para nós mesmos. Na sua rebeldia ele nos mostrava que era possível desafiar os códigos e que isto sim era um gesto de liberdade.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Embriaguez

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No bar, observo os três homens bêbados e penso que desde a antiguidade a humanidade aprendeu a fermentar e depois a destilar frutos e plantas para alterar o modo de ver o mundo. As sociedades muito antigas descobriram como acelerar a fermentação mastigando os frutos. Depois cultivaram a vinha, num estágio mais avançado da civilização.

Os destilados apareceram com a tecnologia que acompanhou a industrialização. O resultado foi uma bebida concentrada e forte, com maior quantidade de álcool e capaz de embriagar rapidamente.

O homem é um animal estranho. Condenado à consciência, descobriu na química dos elementos uma maneira de alterá-la, mudar a percepção da realidade e fazê-la quem sabe parecer melhor. Uma forma de suportar uma vida fugaz e as angústias que o acompanham ligadas ao seu destino.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Natal


Um acesso de pranto cerca a vida
no momento em que a criança nasce
para o sacrifício dos dias.

O sono do qual acorda
leito de palha, pasto de animais -
despertará também neste Natal.

Não para a festa de guirlandas,
das vitrines de alabastro
e neve de algodão.

É uma criança de face
e expressão perdidas,
lembradas apenas nos escritos.

Na memória dos feridos,
no pesadelo dos mudos
e no olhar dos perseguidos.

Esperança. Palavra repetida,
proclamada nos ritos,
nas igrejas e comícios.

Pouco proferida no dezembro
do calendário dos anos:
dois mil e dezesseis.

Uma vez ainda no Natal,
tão próximo da morte e da Paixão,
a memória e o tempo se confundem.

Mas encontram-se nas ruas,
no asfalto das cidades,
na chama das velas de eletricidade.


Entenderemos o pranto do recém-nascido,
perscrutaremos o olhar de espanto e medo
com esta palavra traduzindo tudo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Uma sombra



Entre a folhagem e a galharia
seca desta terra, onde memória
e tempo se confundem, tua vida
se mascara e se encerra nos limites
de sua última fronteira.

No clarão do sol à tua frente,
na imensidão desolada
de tanto espaço visto e assinalado,
com todos os sinais da encruzilhada
que procuraste entender e nada mais.

É grande esta paisagem de números,
a sua multidão de flagelados
na derradeira sombra dessas árvores,
na fonte que aos poucos transformou-se
no suor de homens e animais.

Permanecem ainda os sinais de vida
naquelas cercanias do lugar
onde se estende um corpo
e uma mão acenou na direção
das almas condenadas.

Mas é só réstia de vida,
porque a vida é mais do que deitar,
aceitar o sonho e avistar
a chegada da sombra a um lugar.
Vida é mais do que lutar.

É mais que revolver o tempo
ou a imagem das plantas,
insetos perseguindo gotas d'água
nos meses carregados de lembrança.
É mais do que o gesto ou emoção.

É acidente interrompendo
o fluxo das forças, energia que dorme
no íntimo das pedras, na nuvens
carregadas de eletricidade,
pelos mares e florestas densas.

É o fundo do conflito, porque paz
não há de residir nos seres vivos.
É o exato momento em que a vida
se completa e nela própria
se confunde o ato de existir.

Pois ela se transmite como germe,
vírus de doença que se cura
quando o ciclo se fecha e se completa,
o contágio se funde, antecipando vida
para seguir mais uma vez a mesma trilha.




domingo, 11 de dezembro de 2016

Minorias


As variadas tribos de Copacabana validam a palavra diversidade, que anda na moda quando se fala de uma sociedade moderna que aceite de bom grado o direito das minorias. Pois minorias é o que não falta no bairro. A primeira delas é a dos velhos que habitam os prédios antigos e formam a primeira referência. Exibem sua pobreza e uma certa dignidade nos supermercados, nos bancos, nas festas e nas ruas distantes da praia. Eles vieram para cá nos anos cinquenta, antes que Ipanema e Leblon despontassem como áreas residenciais e muito antes da Barra, o enorme areal hoje ocupado pela classe emergente dos subúrbios.

Tem os boêmios que enchem os bares da noite e, entre as profissões noturnas, ainda se destacam as jovens prostitutas e prostitutos que fazem ponto na Avenida Atlântica. Um garçon me chamou a atenção para a raridade das velhas putas de antigamente porque as de hoje tomam drogas e morrem cedo.

Há o mundo, o submundo, os atletas, as favelas, os jogadores de cartas das praças públicas, os pequenos e os grandes ladrões, criminosos e policiais de todos os matizes. Todos vivendo juntos. Cento e cinquenta mil pessoas em 79 ruas, sem contar os turistas e os que vêm de outros bairros e enchem a praia no fim-de-semana.

Hoje, um dia quente, o bairro ferve não só com a Parada do Orgulho LGBT. Os bares lotam, as mulheres se despem em Copacabana, o mais cosmopolita e democrático e também o mais humanamente rico dos bairros da cidade.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A moça ao lado



A moça na mesa ao lado comia muito e era muito gorda. E triste. Olhava para diante mas não parecia perceber os que passavam pela calçada em frente. Seu olhar perdido não se afastava de um ponto imaginário e ela apenas pensava, imersa, enquanto comia. E bebia refrigerante. Era também uma moça bonita, de olhos parados e pensamentos sombrios.

Este fim de outono tem trazido chuvas muito fortes e repentinas que inundam as ruas e afastam o povo que costuma encher as tardes de Copacabana. Dezembro tem surpreendido com frias temperaturas de um inverno tardio. O bairro volta a se encolher, como se ainda estivesse à espera dos últimos e movimentados meses do ano.


Os automóveis passavam aspergindo água nas calçadas vazias. Passageiros saltavam dos ônibus no ponto em frente e corriam a fugir da chuva, procuravam abrigo nas marquises, alguns maldiziam o tempo ruim. O fim de tarde criava em torno de si uma paisagem soturna. No botequim quase vazio a moça gorda e triste comia e olhava para alguma coisa que só ela avistava, perdida no infinito e na solidão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Cidades


As cidades nascem, crescem e morrem como os seres vivos. Quem se lembra de Nínive? Sua memória existe apenas na História. Foi a mais importante entre todas, quinze séculos antes de Cristo. O Livro de Jonas a ela se refere como uma cidade excessivamente grande. Perdeu-se no tempo também Senaqueribe, seu construtor, que resplandeceu o mundo com sua glória. E de Tikal, quem se recorda? Orgulho dos reis maias, foi abandonada porque cresceu demais e virou uma cidade perdida entre as árvores da selva.

Há dois anos, Detroit declarou a própria falência. Foi uma das mais ricas cidades americanas. Quando passar o tempo dos automóveis, que fizeram sua riqueza, talvez cumpra o destino de Nínive. Ainda abriga mais de quatro milhões de habitantes. Mas está morrendo. Hoje, javalis pastam no centro da cidade de Chernobyl, que foi grande e representou o poder atômico da União Soviética.


Todas vibravam sua energia e expandiram seu poder pelo mundo. Não resistiram aos desastres que amadureceram sob os pés dos seus habitantes. Algumas foram soterradas, em seu lugar surgiram outras cidades diferentes, muitas vezes com outros povos e falando outras línguas. As grandes metrópoles alimentam o mito de que são eternas mas o tempo não reconhece eternidade no que as civilizações humanas construíram.