quinta-feira, 19 de abril de 2018

Cinco bêbados imortais



Os puros e sem vícios são às vezes cheios de amargura porque tentam mudar o mundo para faze-lo melhor, à sua imagem e semelhança. E fracassam. E não são tolerantes com as fraquezas e limitações próprias da humanidade. O comportamento humano os decepciona e angustia.

Os derrotados da virtude, ao contrário, mostram o que somos em nossos limites. Marcelinho Cachaça foi um dos cavalheiros mais nobres que conheci, assim como Dudu Garcia, Gelon Siqueira e Manuel Amaral. Alcoólatras desesperados, disfarçavam sua tristeza numa alegria divertida, no riso cristalino e na irônica sabedoria.

Dudu, a quem nenhuma mulher conseguia resistir. Gelon e a sua voz rouca que o violão acompanhava em canções belas e dolorosamente sofridas. Amaral era um fascinante contador de histórias que ninguém apostaria ser verdade ou ficção. Doka, outro dos bêbados sábios com quem convivi, certa vez me disse, citando quem não se lembrava, que embriagar-se anima nossa loucura e nos transporta a regiões supremas onde somos mestres do nosso próprio destino.




terça-feira, 10 de abril de 2018

A silhueta



A silhueta transpõe
os limites do muro:
é um desenho de sombras.

Os braços revolvem os traços
e ampliam imagens
impregnadas de chuva.

As portas se abrem
e as retinas de um velho se fecham
em solilóquio mudo.

A cidade desperta pelos ventos,
murmúrio
no vazio dos espaços.

Sem origem ou nome,
acompanha uma palavra,
inania verba, seus íntimos ruídos.

Ruas desaguam como rios
e canalizam os ventos, sopram
memórias em oceanos represados

no estuário das distâncias,
à margem das arquiteturas
num gesto construídas.

Um cão mistura-se à poeira,
gane, rasteja para as sombras,
perscruta o enigma, corre e some.

Na fronteira da noite, surge o dia,
a tarde ensolarada, e um gemido
libera o sentimento que o prendia.

Os sons reproduzem vidas primitivas,
existências afogadas,
mares antigos.

Testemunha de ausências,
êste é o mar que acompanha
o vento chegar a seu destino.

sábado, 31 de março de 2018

Visita


Homens e mulheres que foram meus amigos
penetram no meu sono.
Estão mais jovens do que eram
na hora de sua morte.

Têm o mesmo rosto de quando
havia futuro nos seus dias.

Esses mortos foram meus amigos.
Conheço-os pelo nome, conheci suas almas
e o ritmo dos seus passos.

Agora eles penetram silenciosamente no meu sono.
Trazem algum mistério
que desperta e me convida
para um sono maior e mais profundo.

quarta-feira, 21 de março de 2018

O anjo


                                    L'Ange du Lazaret, Marc Petit, Cahors

Sem perdão, o anjo decaído vaga do lado de fora dos portões do Paraiso. Do lado leste, onde pássaros estranhos, escuros, rondam os passos notívagos dos condenados. Em sua volta eles voam, grasnam, levantam as asas e misturam sua penas com a linha de um horizonte onde as sombras se levantam e cobrem as primeiras manchas tingidas da aurora.

O rumo das serpentes, a viração doentia de um vento úmido prenunciam enchentes, destruições e palavras sem sentido de sacerdotes cegos de fúria clamando arrependimento. Só restam traços da caminhada em fuga da vingança.

Anjo negro destituído de aura, feio, olhos ausentes, rosto encovado dos vampiros, exibindo sua angústia do lado de fora das igrejas, mendigando nada. Traz consigo só meditação sombria, eterna indagação sobre o destino das coisas intangíveis e a surpresa dos que foram desprezados às margens do Aqueronte.


quinta-feira, 8 de março de 2018

A tarde (II)


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A tarde matizada de chuva, envolvida pelo vento frio, compõe uma paisagem debruçada sobre o rio, bela e sóbria, enquanto assiste a chegada da noite. O velho contempla a rua enquanto caminha pela calçada estreita em direção ao parque onde os faisões ensaiam seus curtos voos. Olha, lembra dos invernos não tão frios de antigamente. Mas sente-se melhor, aqui, sentindo o vento quase gelado a lhe bater no rosto.

A madrugada de silêncio e insônia trouxera lembranças confusas que não sabia dizer se eram mesmo de vigília ou sonho. Todas as noites silenciosas e insones trazem consigo memórias ruins, fracassos vividos, pensa o velho, pois a vida jamais é construída sobre vitórias, a perda e a dor vão construindo o arcabouço da vida.

Há uma presença de cinza não só nas ruas, mas também nas nuvens e na própria chuva que gaivotas atravessam, ouve-se o grasnar como um grito misturado ao som da rolagem dos automóveis. Um cenário perfeito para a tristeza, pensa o velho, que no entanto não se sente triste. E entra no bar que fica bem na esquina da rua, antes do jardim onde despontam as primeiras flores da primavera.



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O nome do destino


O que foi vivido não se perde na escuridão do passado esquecido. Permanece nos limites entre a lembrança e o olvido, na solidão dos velhos, nas sombras de um futuro matizado de cores escuras. O improviso dirige os passos, o acaso é o verdadeiro nome do destino e a vida constrói assim o fim da sua história no mais íntimo da morte, resumo do que foi vivido.

Os intervalos do tempo pontuam o que possa fazer o homem. O pensamento olha para os abismos a imaginar paisagens feias, estradas sombrias da interminável viagem na direção do nada. A claridade das manhãs traz consigo o decair do dia e o mergulho profundo dentro da noite insondável.


Pois é assim que animais estranhos devoram nuvens, regem a direção dos ventos, limitam a esperança e o sonho de crianças despertas, famintas, que apenas desejam compreender a natureza dos sons a crescer em seu redor. Nada do que foi imaginado pelo pensamento.