quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O primo tranquilo


Silencioso e calmo, um disfarçado sorriso nos lábios e o olhar tímido porem sincero, era meu primo e poucos anos depois seria médico. Enquanto nós, os outros, dedicávamos o tempo na noite e dela nos embriagávamos, ele permanecia fechado no quarto da pensão de Recife e estudava. Ria seu riso tímido quando ouvia as histórias da nossa boemia irresponsável. E se recusava a participar da vida que vivíamos.

A cidade era tranquila, naquele tempo. O Capibaribe percorria seu caminho até o mar e dividia em duas a paisagem que achávamos a mais bela do mundo. Nas suas margens, pela madrugada silenciosa, passeávamos nossa inquietação e dizíamos poemas que traduziam os segredos da noite em que mergulhávamos.


Quando terminou o curso mudou-se para sua cidade no interior, foi um bom médico, silencioso e sábio. Tive dele poucas notícias e nunca consegui entender a angústia que o levou ao suicídio. Em sua forma calma de viver, escondeu o conflito interior que acabou por mata-lo. Há um mistério nos suicidas que os sobreviventes nunca haverão de compreender.

sábado, 9 de setembro de 2017

Visita


Uma brisa suave lembrava o sopro de coisas mortas em repouso, como lembrança da vida que ali tinha existido antigamente. De tão leve, era incapaz de levantar a poeira finíssima que quase cobria os móveis e os objetos de uma casa que um dia fora banhada de ventania. Depois, na calma que viera, nada se movia, apenas o pó suspenso pelo ar das frestas obscuras.

Nessas paragens quietas, insetos lembravam gotas d’água, viam-se nuvens construindo um céu de chumbo e a pouca luz montava a moldura de retratos improváveis. A sombra esmaecia restos sem brilho, breve claridade fria como o vento de um país gelado.

Lá, nessas paragens estranhas, uma criança crescia e olhava em sua volta, procurava enxergar além desse horizonte de chumbo e descansava a cabeça numa pedra escurecida. Como se fosse apenas um reflexo, uma réstia dessa luz perdida que se pode encontrar em paredes desenhadas pelo tempo.

sábado, 26 de agosto de 2017

Dylan



Retornando de um encontro com Dylan,

não percebi a chuva nem o vento que batiam

em todas as formas da cidade cinza.


Recordei suas palavras sobre a gênese das pirâmides,

as elucubrações sobre seu próprio corpo

e a sina dos que se drogam e se embriagam.

 
Mais tarde, trabalhando num computador,

mergulhei sobre a gênese das palavras,

o pensamento envolto em bruma, indecifrado.

 
Estamos num trajeto onde a chuva

obscurece o rumo e o vento é um chicote

a nos trazer de volta os elementos.
 

Recuso imaginar que tais caminhos

são caminhos sem retorno e sem saída.

Procuro em meu redor e mais além:

 
Velhas estradas, becos e atalhos

esquecidos e nunca imaginados

trazendo consigo assombrações.

 
Medos antigos tantas vezes visitados,

tantas vezes também compreendidos,

só compreendidos, nunca decifrados.

 
Estivemos tanta vezes juntos, eu e Dylan,

tantas vezes bêbados, incapazes,

tantas vezes assim emudecidos.


Pois mudos nos fizemos: era duro

falar sobre as coisas insensatas

tão próximas de nós constituídas.

 
Tantas vezes nos fizemos loucos

apenas para ver onde chegavam

a loucura, sua marca e fantasia.

 
O que vimos e fizemos, os cegos

nos diziam com seus cantos

que era impossível de compreender.

 
Eram cantos fanhosos, irritantes,

sobre fatos que os videntes

jamais teriam visto acontecer.

 
Nesta saga para nós tão suja,

tão confusa em nossas mentes,

tão cheia de percalços rudes.

 
Nesta saga de infâmia e de pobreza,

de miséria, engano e ódio,

de doença e de morte procurada.

 
Foi nesta saga que encontramos

o que nunca haveríamos de entender

sob manto de forma pressentida.

 
Neste enigma tão claro, silente

e calmo, sem filosofia, ausente

de qualquer sentido assimilado.

 
Desconhecemos tudo e tanta coisa

existe em petição de se saber

se vale a pena, simplesmente, ver.

 

Dylan mostrou-me algumas casas

de ópio. O silencio e o fumo

desenhavam suas formas na parede.

 
Ali nos assentamos e choramos

o pranto calmo dos desiludidos

em meio a fumaça, incenso, nostalgia.

 

Não percebemos a chuva que batia

nas paredes da cidade cinza.

Eu e Dylan, ambos tontos, em agonia.

 
E nos embriagamos. Bêbados nos vimos

tão próximos da dor e dela alimentando

os cães e os passarinhos.

 
Nunca imaginamos, nós, embriagados,

a alma imunda e dolorida,

que tanto nos iludiríamos.

 
Estivemos cuspindo todo o tempo

 nas águas sujas de um rio

em que iríamos mergulhar.


Com tanta espera, enfim, nos dedicamos

a tecer o rumo das estrelas

e imaginar a direção dos ventos.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Gaivota



O grasnar intenso da gaivota atravessa as cores de uma aurora vermelha acentuada de pincéis dourados. As águas do velho rio têm a cor de chumbo emoldurando o tempo dos edifícios nas duas margens que se defrontam. São duas cidades, uma de frente para a outra mas parecem e são apenas uma só, engrandecidas quando somam seus habitantes e a própria história que se perde no tempo.

São meses de verão, estes de agora. O calor é mais ameno, diferente daquele vivido em dezembro e no tempo do carnaval do Rio de Janeiro. Aqui se vive temperaturas opostas e o frio de dezembro faz lembrar a diferença dos trópicos. Nestes dias de agora, a presença do sol, o céu sem nuvens e a magia de uma cidade também atrai o povo de outras partes do mundo para a festa da vida.


O expatriado recorda outras paisagens que se confundem com esta agora vivida. Todas elas se juntam e se transformam numa viagem a cumprir suas etapas, investigando seus tempos, a explorar seus voos e mergulhar em seus abismos. Assim como estas gaivotas ribeirinhas grasnando no amanhecer desta cidade tão antiga como os confusos pensamentos humanos e tão bela como as cores dos seus labirintos.

sábado, 29 de julho de 2017

Sombras


A passagem do tempo lega a quem sobrevive a vivência da solidão. A morte dos contemporâneos deixa-nos cada vez mais sozinhos. Olhar a vida na procura de decifrá-la nos coloca diante do maior dos enigmas. Se não conseguíamos compreendê-lo quando tínhamos vinte anos, com o passar do tempo adensam-se as trevas que confundem a percepção.

O passado transforma-se no morto que é preciso enterrar para ter vida. O peso das lembranças mistura-se à incompreensão do mistério e o homem se vê diante das paisagens incendiadas no fogo da memória. A cada dia transformam-se em cantos cobertos de cinzas na planície de um território estranho, desconhecido.


Mergulha na infância, velho. Lá não existirão lembranças e as vagas sombras se locomovem como nuvens que vão trazer as chuvas de inverno. Sons de palavras misturam-se à música do vento e ao sussurrar das folhas em canaviais. Um dia o verde imenso se transformará em revelações e virá quem sabe o entendimento do que hoje é mistério, apenas.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Tempo


Tempos antigos, imaginados mortos, insistem na memória. Poeira de épocas passadas a insistir no presente, instantes redivivos que teimam em permanecer. A vida é apenas o decorrer de momentos imprevisíveis, dirigidos pelo acaso, ventos no redemoinho de pequenos acontecimentos.

Caminhar no poente levaria à noite, às madrugadas frias do constante inverno onde, disse Fitzgerald, na noite escura da alma são sempre três horas da manhã. Tempo em que geadas trazidas pelo vento se depositam na escuridão das sombras pesadas de lembranças abandonadas.


Levantar-se, andar à procura da rosa da montanha. A chuva se aproxima em fluxos repentinos, inunda as trilhas, traz cores intensas aos crepúsculos em tons de luzes encarnadas. Talvez sejam auroras já perdidas. Lembram a intensidade dos rios no interior de terras imaginárias. Mesmo na memória das crianças o tempo insiste em confundir a calma de manhãs vividas.