quarta-feira, 11 de julho de 2018

A ti, Emmanuel




Como acontece a todos os poetas,
chega a hora de escrever o último poema.
E eu o dedico a ti, Emmanuel,
a quem foi negada a faculdade humana de morrer.

A ti, cuja palavra nos dirige à vala comum das despedidas
chamada por ti revelação.
Primata, inventor dos medos, sutil transfigurado,
serpente viva na doença dos culpados.

Li teus livros. Apóstata curioso, adventista inútil,
fui a teu encontro à noite, nos vitrais.
Procurei-te no chão das naves,
no pórtico das salas onde as inundações deixaram
marca sem memória.

Engoli soluços ajoelhado nas pedras, nas calçadas
em que andarilhos se perderam nas trilhas disfarçadas.
Acreditei no mito das almas condenadas.

Morri no momento impossível
em que as aves soturnas começam a enxergar o amanhecer
e um vento inesperado sopra nas sombras do verão.

Desci passo a passo degraus de catedrais
observado por gárgulas medonhas.
Andei no fio dos horrores,
no escuro dos quartos
onde prostitutas cegas perscrutavam o amanhecer.
Persegui roteiros como sou, noctâmbulo perdido nas manhãs.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Os loucos





Os loucos olham sem surpresa para o mundo. Seus olhos miram profundamente para dentro de si mesmos e não para o mundo exterior que lhes parece ilógico e absurdo. Mergulhar no fundo da loucura faz descobrir a essência do que não conhecemos, embora seja lá onde se encontra a vida que foge quando dela nos aproximamos.

Existimos como se fossemos o sonho de um gigante adormecido. Deus. A vida seria uma ficção porque nela tudo se transforma, adormece e muda. Só os loucos têm a certeza de que certas paisagens que se revelam são sinais de outra vida, paralela a esta que vivemos, contornada por dimensões desconhecidas. E onde  habita a morte, que só existe porque existe a vida.

Andar sob a claridade e nela avistar a escuridão que toda luz traz consigo. O pensamento estanca diante de uma parede opaca impossível de atravessar mesmo na fantasia de um sonho. A realidade intercepta a possibilidade de viver além das fantasias delirantes da memória e da ilusão do presente.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

O mergulho




A escuridão sem pontos de fuga, ventanias que acompanham todas as doenças da alma. O momento da vida em que vivências degeneram em sofrimento, batidas descompassadas de tambores idiotas a chamar para festins inexistentes. A busca da embriaguez perseguida pela lucidez que teima em não te abandonar. Chegou a hora. Partir na direção do caos.

Entender o âmago do sofrimento, iluminar a noite de sombras, mãe dos pesadelos. Freud. E segues para o mergulho. Uma criança perdida naquela escuridão sem fuga, demônios, tragédias sem sentido seguem o tempo no qual desabam sentimentos e as primeiras lágrimas da vida começam a brotar no ventre da mãe, no nevoeiro, orvalho que se transforma em granito.

Muito tempo depois o velho vira-se para o passado. Procura recordar o mergulho, entender onde e quando foi que as amarras se soltaram mas tem medo do sofrimento. Volta a cabeça, cospe, bebe e uma vez mais pretenderá enxergar os horizontes.



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Um artista




Anthony Quinn, ator de tantos filmes em Hollywood, nasceu em Chihuahua, no México, em 1915, e morreu em Boston, em 2001. Embora naturalizado americano, não cortou os laços com a sua terra. Parece ser esta uma das angústias que perseguem os artistas. Eles sentem-se estéreis quando esquecem o lugar onde nasceram.

Pouco antes de morrer, deixou registrada a forma como imaginava seus funerais. Queria que fossem na forma tradicional dos índios do seu país. Eles não enterravam nem cremavam seus mortos.

Pediu para ser levado em procissão por seus treze filhos ao alto de uma montanha e lá fosse deixado para servir de pasto às aves de rapina. Elas comeriam seu corpo que, depois de digerido pelos pássaros, seriam espalhados pelos mais longínquos territórios do seu país. Foi uma bela declaração de amor à pátria feito por alguém que em breve ia morrer.


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Desvãos



O sono demora e há sombras na parede do quarto. O olhar tomba na meia-escuridão e o pensamento explora regiões assombradas, ventos estivais, fantasmas adormecidos. Há também sons imaginários, paisagens desenhadas de angústia e um interminável cansaço que aos poucos distende o corpo e provoca o mergulho da noite.

Sonhos que se misturam ao que parece realidade mas que são apenas pequenos delírios, quedas no abismo, respirações suspensas, sustos. Convites à vigília que angustia crianças despertas em lágrimas. Elas investigam a perda da própria infância, imaginam o que resta de desilusões.

E há também o som confuso das águas, torrentes de espuma a inundar sombras e o que restou do fogo dos incêndios. Algo que nunca termina, tem o brilho de dores insondáveis, da eterna música que acompanha a vida, a morte e o gozo das coisas para sempre findas aos olhos do menino.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O velho e o tempo



Tempo frio e a chuva fina cobrem de cinzento as ruas da cidade. O velho se desloca pelas calçadas estreitas na direção do bar. As árvores verdejantes lembram que a primavera está presente em todas as plantas, em todos os jardins, na juventude em que a natureza, uma vez mais, desperta para outro ciclo do tempo. As meninas do colégio passam pela praça larga na direção de algum lugar onde a alegria continuará a transbordar dos sorrisos.

A memória persegue o velho que tenta olhar para o futuro. Existem amarras onde a vida se ancora e há sempre algum esforço para desatá-las e continuar a navegação. Pois o passado dificulta o renascer da vida. No entanto há brisa após a chuva, o vento desamarra a lembrança e existem as paisagens, a surpreendente descoberta dos segredos.

Uma passagem pelo serpentear do rio, como se fosse o espelho das curvas da existência, no acaso em que habitam todos os seres vivos, a beleza das coisas, a inútil compreensão do mundo e todos os calafrios. Por fim o bar quase vazio, a paz da meditação serenando os espíritos inquietos que nunca deixaram de acompanhar o velho desde sua mais antiga infância.