segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Os sonhos e a chuva



O velho ainda traz consigo alguns sonhos da infância. Não aqueles de futuro e de fantasias que se sonha acordado com olhos abertos. Mas sim os de voar contra o céu cinzento ou então cair num abismo sem fim, incapaz de agarrar-se em paredes ou em galhos inexistentes. Há também nesses sonhos a presença inesperada de homens e mulheres que morreram e foram seus amigos.

O sono transforma-se numa vida paralela. Há também indecisões, transformações de desejos, algo distinto das coisas da realidade, como se o sonhado fosse em si mesmo a concretude da vida sem impedir a existência de sonhos dentro dos próprios sonhos. Chuvas insanas, deitadas sobre terrenos que permanecem secos em estranhos desertos a formar grandes lagos salgados.

As lembranças também se juntam nos grandes lagos da memória, pensamentos loucos, delírios insensatos. Aproxima-se a chuva que o vento transforma em temporal com a violência de antigos sentimentos esquecidos, quem sabe. E algo muito próximo da tristeza, passo a passo, transforma o desejo do pranto na contemplação de coisas infinitas.











segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A luta



Há muito tempo eu disse à minha filha que, ao adotar o pensamento de esquerda,  ela havia escolhido o lado que sempre perde. Embora com vitórias importantes na melhoria da vida dos deserdados, a luta de classes tem privilegiado os ricos ao longo da triste História dos homens. E assim tem sido desde quando a desorganização social conduziu à exploração do homem pelo homem, como define a consagrada expressão de Marx.

O que eu não disse na ocasião é que as derrotas, as perseguições e as injustiças nunca fizeram a melhor parte da humanidade desistir da utopia. E depois de cada combate perdido – como a lenda de Sísifo - um novo ciclo recomeça, em condições muitas vezes mais duras ainda. Pensar os ferimentos, reunir os que continuam a acreditar no futuro e continuar a viagem, que não tem fim mas que justifica o ato de viver. Não há maior nobreza do que ficar ao lado dos vencidos.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Uma tarde



Um dia como os outros, o sol morno exibe-se no céu bem azul e existe alguma alegria no riso das raparigas que se espalha com o vento. O barulho dos automóveis disfarça o ladrar de cães ocultos em algum lugar atrás dos muros. Há também o choro irritado de uma criança transformando o dia.

O velho afasta-se da esquina enquanto a brisa levanta o pó confuso das memórias e de alguns momentos do presente inútil. Há música na distância, tambores de um samba sem ritmo, pimba, o soar de metais nos instrumentos que esgarçam todas as harmonias perdidas em algum lugar escuro das lembranças.

E aquele vento traz consigo lamento, dores e tormentos vividos como se fora o sangue de animais sacrificados. Uma pedra também sangrenta aflora dessas imagens doentias e o velho, abrigado pela sombra, silenciosamente pensa na morte e em todas as despedidas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Devir



Havia árvores sem folhas e nos seus galhos nus algumas aves procuravam por um abrigo inexistente. Era uma busca angustiada, pontuada de cantos roucos, piados dissonantes, voos curtos e sem destino. Onde animais tinham vivido era uma paisagem seca, áspera, feita de pedras e areia enegrecida. E não havia chuva, nem fontes, muito menos sombras.

Aquele era o território abandonado por tréguas inúteis, revelações cegas e perseguições. Um lugar sem tempo que agredia com sua face real e definitiva, pesadelo de algum monstro imaginário. As nuvens que outrora foram brancas surgiam sujas, enegrecidas de pó, desilusão de todos os desejos. Crianças muito feias e também sujas olhavam para elas, as nuvens.

Sobre as carcaças, restos de carniça atraiam urubus e outros pássaros estranhos, predadores de olhos assassinos. Ao fim do dia o sol continuava a queimar a terra e tudo o que ainda restara de outros tempos tão cruéis como o de agora. Sôfregos soluços, respiração entrecortada de gemidos dirigidos a um horizonte sombrio, imundo e cheio de ameaças.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Manhã



A manhã levantou-se nas franjas de um vento muito frio para esta época do ano e o grasnar das gaivotas acentuou o sentido da solidão do dia. Pouca gente nas ruas, o distante barulho de motores parecia o ressonar dos últimos dias de verão no Norte de Portugal. O velho dirigiu o olhar para a conhecida paisagem agora misturada em cores de azul e cinza.

O pensamento  voltou-se para o passar  das nuvens pesadas que lembravam mais um outono saudoso da primavera. Palavras soltas pareciam descrever o ritmo do tempo passando, a passar como o próprio vento que lhe emprestava sua moldura visível no farfalhar das folhas, no movimento das flores do jardim coberto pela neblina leve.

Vieram também sons desencontrados povoando a manhã, entre eles o que parecia ser o soluço de uma criança tímida. E veio também com eles a memória a perseguir o tempo, a lembrança de outros dias, quando as crianças corriam ao encontro dos ventos do verão chuvoso. E de quando se falava de esperas e esperanças. E também da imensidão da vida diante dos limites do mundo.