quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Kurosawa


Revi ontem, mais uma vez, Sete Samurais, de 1954, com a mesma sensação de ver pela primeira vez. Akira Kurosawa tem a capacidade dos grandes artistas de enriquecer de tal forma o seu trabalho com detalhes sutís que só a observação continuada e atenta vai aos poucos revelando. As cenas do filme, desenhadas com meticuloso enquadramento e composição antes de serem filmadas, misturam-se a diálogos de alta qualidade literária e fina sensibilidade aos fatores da vida e do destino dos homens.

Kurosawa foi um artista raro e um cineasta que de um modo ou de outro influenciou todos os filmes ocidentais de alguma qualidade que vieram a ser produzidos na segunda metade do século passado. Tanto os épicos quanto as aventuras de samurais que produziu foram vistos e imitados em Hollywood com versões mais pobres.

Penso que ele não tem sido cultuado como deveria.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Viral versus TV


Já falei aqui sobre o assunto, mas volto a ele por observar que os conceitos fortes e memoráveis que marcaram a revolução criativa da propaganda são aos poucos substituidos pelos shows de produção tecnológica do chamado marketing viral. Os grandes anunciantes preferem investir na feitura de filmes pirotécnicos para exibição via internet. Eles enchem de tal forma os olhos dos internautas que estes não resistem em passar o comercial uns para os outros. formando extraordinária audiência.

A Procter & Gamble, gigante americano, diz que anunciou a marca Physique de xampu usando o viral e só gastou o dinheiro aplicado na feitura do filme. Pela forma tradicional, com anúncios na TV, seriam necessários alguns milhões de dólares. E a Honda reposicionou sua marca Accord com outro viral que, num show de efeitos tecnológicos, juntava todas as peças e construia um carro. Veja aqui o comercial.

O marketing viral é isso: filmes que divertem e surpreendem o homem sozinho diante do computador que, num gesto típico dos usuários da rede, passa adiante o que vê para todos os contatos da sua lista de endereços de email. Lucro para os anunciantes, prejuizo para a TV. E este é um movimento sem volta.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Baader-Meinhof


A dura política intervencionista americana nos anos 70 teve como contraponto inúmeras ações revolucionárias da extrema esquerda, em vários países. A maioria delas surgidas no movimento estudantil alvo de repressão violenta, como foi o caso de diversas siglas que atuaram no Brasil, dos tupamaros, no Uruguai, e dos montoneros, na Argentina.

Nenhum desses movimentos foi tão radical quanto a Facção Exército Vermelho (RAF, na sigla em alemão), mais conhecido como Baader-Meinhof, nomes dos seus dois principais líderes, cuja história serviu como tema do excelente filme de Uli Edel.

Em linguagem seca e sem concessões, Edel, a partir de um livro de Stefan Aust, foi fiel aos fatos e à agitação promovida na Alemanha pelos filhos da geração que construiu o nazismo, desta vez posicionados no outro extremo ideológico da política feita por seus pais.

O ódio como instrumento da política, o cinismo do Estado e os equívocos de uma juventude sectária estão dramáticamente unidos nesta história contada em um filme feito com honestidade e muita competência.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Salada verde

Sentado no restaurante, acompanho a corrida das crianças. As mães parecem cansadas e incapazes de reprimir a alegria infantil que corre por entre as mesas, esbarra nos garçons e grita de forma fina e estridente. Por que nossas crianças são tão mal educadas, pergunto para mim mesmo. E olho para um gordo que come uma salada de folhas verdes.

O gordo está triste, olhando as folhas verdes. Ele as corta, em pedaços pequenos, o alface, o brócoli e o agrião. Joga por cima uma boa quantidade de azeite, leva à boca uma garfada e me dá a impressão de que aumenta a sua tristeza. Dá-me uma certa vontade de consolá-lo dizendo-lhe que “o brócoli é um vegetal muito rico em Cálcio e Ferro, minerais importantes para a formação e manutenção de ossos e dentes e à integridade do sangue”, conforme li em algum lugar. Mas sei que isso não o consolaria.

Solidarizo-me intimamente com o gordo, com a sua tristeza olhando a salada verde e a sua impaciência ouvindo o alarido daquelas crianças de mães cansadas.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Ressurreição


Tolstoi escreveu Ressurreição, seu último romance, na virada do século XIX. O livro não é um dos mais citados desse escritor que, aos 82 anos, rico e famoso, fugiu da família e preferiu morrer como um miserável num vagão de terceira classe. Seu nome é imediatamente associado a Guerra e Paz e Anna Karenina, embora Ressurreição seja um desses livros que, apenas ele, justificaria toda a obra de um escritor.

O dilema de um homem que, na idade madura, procura redimir um erro cometido na juventude serve para Tolstoi exibir sua genialidade como artista mas também para nos provar que a estética não existe separada da ética e que, apesar de tudo, de todos os crimes cometidos e de todas as iniquidades, ainda pode haver grandeza no seres humanos. Um livro adequado ao nosso tempo sem esperanças.

Não resisto e transcrevo um dos primeiros parágrafos de Ressurreição:

«Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão… Porque até na cidade, a Primavera é Primavera.»

sábado, 10 de outubro de 2009

Kim Novak


Num dia qualquer dos primeiros anos da década dos setenta, almoçando no Nino, que foi um grande restaurante de Copacabana, ví Kim Novak correr para o banheiro engasgada por um forte molho de pimenta malagueta. Ela sentara-se na mesa em frente, na companhia de Jorginho Guinle. Todas as mulheres belas e famosas que passaram pelo Rio, enquanto ele era vivo, sairam em sua companhia. Como ele conseguia?

As mesas eram muito próximas e dava para ouvir tudo o que se dizia na do vizinho. Jorge bem que tentou dissuadí-la de colocar tanta pimenta no prato do picadinho, mas ela insistiu e disse que adorava chili, estava acostumada com a do México, onde costumava passar o verão. Kim parecia gostar de comer e jogou várias colheres cheias de pimenta em cima do picadinho guarnecido com purê de abóbora, arroz, farofa e caldo de feijão.

Eu conhecia bem aquele molho e fiquei na espreita da sua reação. Muito branca, depois da segunda garfada – na primeira nada aconteceu – ela começou a ficar muito vermelha. Em seguida arregalou os olhos, jogou o guardanapo em cima do prato e correu para o banheiro.
Seu acompanhante olhou para nossa mesa e abriu os braços, como quem dizia o que eu poderia fazer?

Ela voltou quase meia hora depois. E pediu um sorvete.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Fina iguaria

Na Idade Média européia, o pão era o alimento do povo. Apenas os nobres comiam carne, fornecida pelo esporte da caça, pois a nobreza dedicava seu tempo aos jogos, à caça e à guerra. Até hoje se utiliza a palavra pão, figurativamente, para definir o alimento de maneira geral, pois era só o que se comia, se não se fosse da família de um senhor feudal.

O homem moderno, no entanto, perdeu a lembrança dos animais de onde vem a carne posta em sua mesa. Vê apenas um bife comprado no supermercado e preparado no fogão a gás.

A tête de veau, que ilustra este post, é uma das receitas mais apreciadas pelo povo francês, mas que costuma assustar o turista quando lhe é apresentada à moda do interior do país: a cabeça da vitela cozida inteira. Já nos restaurantes parisienses, o prato é arrumado na forma da arte dos grandes chefs. Quase ninguém se lembra de que os miolos, a língua e todos os outros ricos pertences vieram da cabeça de um animal sacrificado à gula dos homens.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sexo no mercado

A porno shop fica entre a igreja e o supermercado, na esquina de Nossa Senhora de Copacabana com Hilário de Gouveia. Sua localização entre estes dois ícones deve simbolizar alguma coisa, algo como a afirmação do sexo, situado entre o alimento da alma e a nutrição do corpo, entre o sublime da mensagem divina e a necessidade de comer para a sobrevivência na terra.

Os clientes disfarçam para entrar nesta catedral da luxúria que é também supermercado da lascívia. Fingem que estão andando pela avenida e de repente pulam para dentro da loja. Os homens são os que mais se escondem, ao contrário das garotas curiosas que entram, aos risos, na procura de sensações proibidas.

O sexo transformou-se numa mercadoria responsável pelo faturamento de bilhões de dólares em todo o mundo, segmentado entre o fetichismo, o voyerismo e a velha, tradicional prostituição. Canais de tv, revistas, lojas, cinema, night-clubs e o show-business são os distribuidores desse produto tão desejado, alvo de histórica repressão e que, quanto mais reprimido, mais valorizado se torna.

domingo, 4 de outubro de 2009

Amor na tarde

Ela chegou apressada e parecia nervosa. O botequim estava cheio mas ela teve sorte de encontrar uma mesa bem no meio do burburinho. O garçon aproximou-se e afastou-se quando ela abanou a cabeça. Não queria nada. Ficou roendo as unhas.

Fazia quase frio, no fim de tarde de Copacabana. A Barata Ribeiro como sempre congestionada e o desfile do povo pela calçada, os que voltavam do trabalho, os que vinham da praia, alguns turistas curiosos tentando ler o cardápio escrito na porta, alguns mais audaciosos procuravam um lugar para sentar-se.

Ela devia ter talvez uns vinte anos, continuava roendo as unhas e olhava para um lado e para o outro, virava-se, estava esperando alguém. Ele chegou enquanto ela olhava para o lado contrário ao que ele veio. Ela tomou um susto e os dois riram, ele sentou-se numa cadeira bem próxima à dela.

Eles se abraçaram demoradamente. Então os dois se beijaram. As pessoas que estavam em volta pouco prestaram a atenção naquele beijo que durou, calculei, bem uns três minutos. Foi bem no fim da tarde, no princípio da noite.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Napoleão imperador

Estou lendo Napoléon, de Pierre Norma, de onde traduzi este trecho que descreve a coroação do imperador:

Napoleão veste as insígnias imperiais e cingiu a cabeça com uma coroa de louros elaborada em ouro. Assim que toma lugar na igreja, diante do altar, numa poltrona simples, a cerimônia começa. Pio VII faz a santa unção na fronte, braços e mãos do Imperador, benze a espada e com ela cinge-lhe a cintura, entrega-lhe o cetro e se aproxima para colocar-lhe a coroa de ouro maciço modelada pela de Carlos Magno. De súbito, Napoleão o afasta, toma a coroa e ele mesmo a coloca sobre a cabeça. Um frêmito de surpresa percorre a multidão. Josefina, por sua vez, desce do trono e se dirige ao altar, onde o Imperador a aguarda, seguida das damas palacianas e de todo o seu serviço de honra; seu manto é carregado pelas princesas Caroline (Madame Murat), Julie (Madame José Bonaparte), Elisa e Louise (Madame Luiz Bonaparte), que a detestam. Seu esposo pousa sobre sua fronte uma coroa encimada por um diadema feito em diamantes. A coroação termina, Napoleão e Josefina sobem ao trono. O papa aproxima-se e abençoa o novo imperador. Um formidável grito de “viva o Imperador!” parte de todas as vozes e faz tremer as abóbodas de Notre-Dame, os músicos tocam; lá fora, os sinos dobram, o canhão troveja.

Segue-se uma festa que vai durar três dias.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mendigos

Muitos mendigos desapareceram das ruas de Copacabana, talvez porque os turistas ainda não chegaram – eles preferem o verão – talvez em busca de outros bairros mais nobres e mais ricos. Mas ainda existem os que defendem o seu ponto e entre eles se destacam a mulher elegante, o da falsa dor de dente e o da falsa paralisia cerebral.

Ela não chega a ser propriamente elegante mas, a julgar pelas roupas, dificilmente seria identificada como pedinte. Está sempre sem dinheiro para a passagem e na sua abordagem, com expressão preocupada no rosto, pede dinheiro para completar o preço da viagem de ônibus até Nova Iguaçu. Sempre nas imediações da Praça Serzedelo Correa, sua tática tornou-se conhecida nas redondezas e já não faz tanto efeito. Estaria na hora de procurar outro ponto.

No sinal de trânsito da Avenida Atlântica, com o rosto denotando enorme sofrimento, ele põe a mão no queixo e, com a ajuda da outra, balbucia um pedido. De vez em quando, para descansar o braço, troca de mão e de lado do queixo. Já o vi sorrindo e conversando, antes de incorporar a dor de dente e começar a performance.

O outro imita com perfeição um portador de paralisia cerebral. Movimentos desordenados, andar de pernas bambas e voz engrolada, sorridente e simpático. Já testemunhei seu desembaraço, ereto e elegante, desfilando num bloco de carnaval na Barata Ribeiro, abraçado a uma bonita mulata.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Luar sobre Copacabana


Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.

Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos ,
habitação do medo , onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento .

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Yukio Mishima


Essas chuvas na primavera me trazem à lembrança o romance de Yukio Mishima – Neves de Primavera – que tem como pano de fundo um Japão ameaçado pelas influências ocidentais, perdendo suas referências culturais e sendo invadido pelo consumismo e a superficialidade.

O romance se passa na era Miji da história japonesa, que vai de 1867 a 1912 e retrata uma bela história de amor e amizade num país que perde suas referências culturais.

A elegância e a sutileza do estilo de Mishima, todo o seu conteúdo poético nos mostra como eram diferentes as formas de ver o mundo entre o Oriente e o Ocidente. Mishima, que chegou a fundar um movimento de caráter político para manter as tradições japonesas, escreveu mais de 40 livros entre romances, ensaios, poemas e peças para o teatro kabuki. Suicidou-se em 1970, cumprindo o ritual do harakiri.

Tinha acabado de escrever o último volume da série que chamou O Mar da Fertilidade, da qual Neves da Primavera foi o primeiro. Seguiram-se Cavalos em Fuga, O Templo da Aurora e, por último, A Queda do Anjo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cachaça


Marginalizada historicamente pela aristocracia, a burguesia e a melhor sociedade, a cachaça teve algum momento de glória depois que inventaram a caipirinha. Mas sofreu de imediato a concorrência do rum e, depois, da vodka, que sempre dispuseram de poderosos recursos de marketing. Voltou a ser a bebida da escumalha, dos pés-rapados, dos matutos do interior e do lumpen urbano, que sempre a tomaram pura.

Há alguns anos, com os programas de qualidade do Ministério da Agricultura, o aparecimento de associações de produtores e o cuidado geral na fabricação, ela começou uma trajetória de ascensão social e hoje já tem até lugar na pauta de exportações.

Estima-se que, se forem considerados os alambiques clandestinos, a produção de cachaça no Brasil, calculada em hectolitros, é maior que a de cerveja.

Duas regiões se destacam como produtoras de grandes cachaças: o Norte de Minas, principalmente a micro-região de Salinas, com sua terra rica em salitre, e o Nordeste, com sua cana caiana.

A burguesia e a melhor sociedade, com relutância, começam a aceitar a cachaça e também a identificar e valorizar seu terroir.

domingo, 20 de setembro de 2009

Domingo na praia


As minorias escolhem a praia para protestar contra a discriminação de que são vítimas e a Prefeitura para promover shows e demonstrar boa vontade com a população. Carros de som circulam em abertos decibéis, vendedores de picolé gritam e a garotada faz zig-zag nos skates.

Os quatro quilômetros do calçadão de Copacabana transformam-se num casbah onde tudo se vende, tudo se expõe e o barulho incomoda. Na ciclovia, bicicletas correm, ameaçam pedestres invasores do seu espaço, uma criança cái e chora. As competições de corredores de rua ocupam a pista fechada para o lazer e quem precisa de alguma forma aparecer estende uma faixa com um protesto qualquer.

As mulheres desfilam rebolando nádegas imensas, os quiosques espalham cheiro de gordura e um trio elétrico amplifica a voz de um péssimo cantor.

A praia, aos domingos, é um lugar desagradável. E ainda não começou a campanha política.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma geração privilegiada


O amigo me dizia que a nossa é uma geração privilegiada Quando tivemos nossa iniciação, haviam há pouco descoberto a penicilina e ficamos livres da sífilis e dos gonococos. Em plena juventude, a pílula libertou as mulheres e fomos beneficiários da revolução sexual dos anos sessenta, contemporâneos de Woodstock, dos Beatles e dos Rolling Stones.

Muitos de nós se perderam na escuridão das drogas, outros procuraram mudar o mundo. Muitos se tornaram velhos reacionários, vociferando contra tudo o que é novo.

Mas a prova de que a nossa geração teve muita sorte, dizia o amigo, é que no momento da vida em que os nossos antepassados se retiravam para uma vida de forçada castidade, foi descoberto o Viagra.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O terror como modelo


Os suicídios em série dos empregados da France Telecom revelam bem o caráter perverso do estilo de administração adotado pelas grandes empresas. O mito da eficiência e da produtividade, baseado na exploração em tempo integral do pessoal e cultivado pelos gerentes, começa a fazer as suas vítimas.

As empresas mundializadas orgulham-se de dizer que contam com milhares de empregados full-time. Isto significa que o contrato de trabalho, hoje, não respeita horários. O empregado está à disposição da empresa 24 horas por dia, sete dias por semana. O poder que sobre ele é exercido estimula o surgimento de chefes medíocres mas com atribuições de julgar, premiar, transferir, punir e destruir carreiras profissionais.

É o reinado do estresse e da insegurança, o terror como modelo de gestão de pessoas.

A ilustração é um quadro chamado Le Suicide, de Edouard Manet.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Romeo Dallaire


O General canadense que, em 1994, comandou as tropas da ONU numa missão em Ruanda, voltou para casa levando consigo um colapso emocional e a descrença na capacidade das Nações Unidas como força de paz. Romeo Dallaire (www.romeodallaire.com) assistiu, incapacitado de qualquer ação para impedí-lo, ao genocídio que massacrou 800 mil ruandenses em poucos dias, numa guerra étnica que até hoje mantém o país em permanente crise.

Depois dessa experiência, em que se viu abandonado pela própria ONU e pelos grandes países, que nada fizeram para evitar o massacre, o General Dallaire tentou por duas vezes o suicídio e conseguiu, com muita dor, se recuperar emocionalmente. É hoje um ativista da paz e candidatou-se, com sucesso, ao Senado do Canadá.

Seu livro – Shake hands with the devil – já rendeu dois filmes. É o testemunho da sua indignação e de um tempo que assistiu à falência da humanidade.

sábado, 12 de setembro de 2009

A Prado Junior


Durante muito tempo, pensei que fosse uma rua. Mas a Prado Junior é uma avenida, de longa tradição na boemia de Copacabana. Lá funcionaram o Beco da Fome e o Cinema 1 e seu nome esteve sempre ligado às moças que fazem a vida e à própria vida marginal.

Pelo menos três grandes catedrais do sexo – Barbarella, La Cicciolina e Frank’s Bar – estão nas suas proximidades. Foi lá que surgiram as primeiras boates do Rio, como Tabaris e Plaza, de fama esquecida e que se perderam no tempo.

Prado Júnior, que a ela emprestou seu nome, foi prefeito do Rio quando a cidade se chamava Distrito Federal, durante o governo Washington Luiz. Era um paulista meio aventureiro e simpático.

Nos bares da esquina da praia, reunem-se estranhos tipos de turistas, vindos dos mais diversos e distantes paises. Sempre que passo em frente, tenho a impressão de que grande parte de todos os crimes praticados no mundo são planejados alí.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Comércio na Lapa


Ele vende uma rodela de abacaxi a 0,50 e cada um rende dez rodelas, portanto cada abacaxi representa o valor de R$5,00. Como vende cerca de 50 abacaxis por dia, garante o faturamento diário de R$250, que duplica nos dias de calor, quando os clientes fazem fila.

Este é um dos pequenos negócios que movimentam a Lapa e, à noite, junto com os vendedores de bebida, churrasquinhos, acarajés, empadas e toda sorte de comida abastecem a multidão e fazem a festa do bairro. Sem contar as centenas de bares e botequins caros e baratos que transformaram a Lapa no sucesso de público que é hoje, depois de quase morrer à míngua por décadas.

Esta é a segunda existência desse bairro que foi o centro da boemia do Rio nas décadas de 20, 30 e 40 e que entrou em decadencia, quase morto, para ressurgir das cinzas e virar centro turístico internacional, lugar de paquera jóvem, corredor cultural e grande mercado para empreendedores informais, como o vendedor de rodelas de abacaxi.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Dutra


Considerada a principal estrada do país, porque liga as duas cidades mais importantes e atravessa a região mais rica, a Via Dutra encontra-se em razoáveis condições de tráfego mas não se livra dos engarrrafamentos. Principalmente nos feriadões.

A começar da saída do Rio, logo na saída da Linha Vermelha. O afunilamento paralisa o trânsito e o viajante pode acrescentar uma hora a mais no seu trajeto. A estrada está sempre a sofrer obras que, se de um lado demonstram cuidados de manutenção, de outro provocam longas filas e outros testes de paciência.

E há o tédio das estradas. A rodovia é sempre algo maçante, invariavelmente chato. E os engenheiros rodoviários do Brasil bem que poderiam aprender algo com o planejamento das estradas no chamado primeiro mundo.

domingo, 6 de setembro de 2009

A mata


No contraforte da Serra do Mar, onde estou, faz o frio de um inverno europeu. O verde das montanhas lembra a Provence e a estrada de Parati encontra-se intransitável. A estreita via foi inicialmente o caminho dos índios tamoios em direção ao mar, aproveitado depois pelos portugueses, por onde exportavam o ouro das Minas Gerais para a metrópole portuguesa.

Há um esforço da indústria do turismo para criar o mito de uma estrada real cruzando Minas, o Estado do Rio, passando por São Paulo. O trajeto de Guaratinguetá até a fronteira do Rio é de razoável qualidade mas deste ponto até Parati transforma-se num caminho esburacado, intrrompido e perigoso na época das chuvas. Mas é de grande beleza. A mata atlântica é uma presença exuberante. Pode estar ameaçada, se um projeto turístico mal orientado trouxer lixo, vândalos e trânsito pesado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Anúncio do verão


Chegou setembro e a cidade começa a exibir os seus mais belos dias, de ceu sem núvens e temperaturas amenas. Deve chover no fim-de-semana da pátria mas a primavera se anuncia com seu sol. O Rio é uma cidade que hiberna, fica silenciosa e sonolenta de abril até setembro para ressuscitar na primavera e regurgitar no verão.

Copacabana já dá sinais de vida. Os turistas estão na praia, nas calçadas e nos botequins do bairro. Ainda estão brancos, pois o verão ainda não chegou, mas alguns começam a exibir a fina pele branca com tonalidades de vermelho e roxo.

Devemos nos preparar para o verão. O calor deste ano promete chegar aos píncaros de dezembro para janeiro e já nos esquecemos das selvagens temperaturas do verão passado. O Rio, mais uma vez, se tornará uma cidade louca.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A viagem


Viajar de metrô dá sono. A qualquer hora do dia, tem sempre alguém dormindo, mesmo numa viagem de Copacabana à Estação Carioca, que dura 15 minutos. Algo acontece no terreno onírico dos viajantes e alguns não precisam mais do que um assento desconfortável, entre dois outros passageiros, para relaxar e dormir.

Há quem durma em pé, segurando uma barra de sustentação, e quem durma de olhos abertos, olhando para o infinito, como um morto. Há um susto com um certo alarido na Estação Botafogo, para os que dormem. O embarque lá é numeroso e as pessoas entram desabaladamente, na disputa por um assento vago.

Já ví quem, dormindo, perdeu a estação de destino e teve de continuar até a próxima para retornar, depois de acordar sobressaltado. Foi o caso desse rapaz cuja foto tirei com o celular e cujo sono demonstrava seu espírito leve e despreocupado, ausente de culpas, que lhe proporcionava profunda paz. Até o momento em que despertou e, de um pulo, perceber que ficara para trás a Estação da Glória, seu destino.

sábado, 29 de agosto de 2009

Bacalhau de Caldeirada

Em 1997, a Editora Nova Fronteira publicou Cozinha do arco da velha, com textos de Odylo Costa, filho, Carlos Chagas Filho, Pedro Costa e Pedro Nava. Um belo livro. As receitas eram assinadas por Íris Lobo Chagas e Nazareth Costa.

Para hoje, a receita é o Bacalhau de Caldeirada, de Nazareth Costa. Aproveite o dia de sábado.

2 quilos de bacalhau
3 cebolas grandes
3 pimentões
3 tomates
2 quilos de batata
1 1/2 xícara de azeite

Colocar o bacalhau de molho de um dia para o outro. Arrumar na panela, em camadas alternadas, bacalhau, tomate, cebola, batata, pimentão, até encher. Regar com azeite e tampar. Levar a fogo brando até cozinhar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Beleza


Com humor e ironia, Vinicius disse que beleza é fundamental, as feias que lhe perdoassem. A beleza é um atributo que realmente diferencia as mulheres e que muitas vezes marca sua trajetória pela vida, mas pode também ser a condição de uma existência complicada e muitas vezes trágica. Beleza e juventude estão ligadas e a juventude é muito curta. Um rápido raio de sol sobre uma praia estranha, como disse Conrad.

Envelhecer, para uma mulher muito bonita, é algo como a negação do próprio ato da existência. A decadência física que acompanha a perda da juventude passa a ser razão de desajustes, crises emocionais e solidão. Para muitas mulheres muito belas, a beleza é como uma maldição.

Acontece também com os homens que foram muito bonitos. Nem todos se comportam como Alain Delon e permanecem imaturos, agem feito crianças mimadas, perplexos diante da vida quando a invisibilidade da velhice deixa de atrair o olhar das mulheres.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Está faltando um


Sentado numa mesa de calçada, com um copo na frente e um cigarro na mão, eu o via sempre pelos botequins da Barata Ribeiro. Cabelo cortado muito curto e penteado em direção à testa para esconder a calvície. Velho, pálido quase amarelo, andava com bastante destreza na companhia da bengala que acompanhava seus passos curtos.

Era sem dúvida um boêmio das antigas, em fim de carreira. Sentava-se sempre só ou na companhia de outros três companheiros da mesma faixa de idade. Fumava, conversava e observava as mulheres. Mas a aparência denunciava que estava muito doente.

Faz semanas que não o vejo.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pescaria


Em Arraial do Cabo, pescavamos pargos em pargueiras de doze anzóis que vinham completas. Um pargo em cada anzol. Os cardumes eram enormes, os pescadores da vila capturavam-nos em grandes redes puxadas até a praia: tainhas, olhetes, vermelhos, piruás.

No Rio Araguaia, pescávamos tucunarés arremessando a linha com caniço e molinete. Cada lance significava um peixe. Em alguns lugares mais fundos, de água parada, era preciso recolher a linha rápidamente porque as piranhas disputavam os tucunarés. Muitas vezes só conseguíamos embarcar a cabeça porque o corpo inteiro havia sido devorado no trajeto até a canoa.

Não existem mais peixes nos locais em que pescávamos. Será que fomos nós que pescamos todos os peixes que lá viviam? Creio que foram outros os predadores, os que foram buscar os peixes fora de época, capturando-os com redes finas, destruindo as ovas e matando os alevinos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Olhando o povo


Os americanos deram o nome de people watching a este esporte praticado por desocupados de todo tipo, principalmente turistas. Consiste em sentar numa mesa de calçada de um bar numa cidade qualquer e ficar observando as pessoas que passam pela frente. Penso que o primeiro objetivo é beber e, em segundo lugar, observar a diversidade dos tipos humanos.

Não é necessário viajar para longe. Basta sentar no botequim da esquina e ficar olhando quem passa. Aqui em Copacabana existem alguns locais onde se pode praticar esta prazerosa inatividade, como o Real Chope, por exemplo, na esquina de Barata Ribeiro com Paula Freitas. No fim da tarde, há um desfile de gente variada e exótica, bela ou feia, mas na maioria interessante.

Há um ciclista que passa em velocidade, por volta das seis e meia, com um gato agarrado nas costas. O bicho parece bem à vontade, olhando a paisagem dos automóveis em sua volta, apenas crava as unhas nos ombros do dono para não cair. Um outro passeia a pé com um papagaio tranquilo e mudo. E é vária a riqueza humana de Copacabana: velhinhas animadas, vendedores, garotas da praia, profissionais de alguma coisa qualquer, travestis, todo tipo de marginal, pregadores, policiais e mendigos, músicos de rua, prostitutas e almas na procura da salvação.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Santa Rosa


Tomás Santa Rosa morreu em 1956, aos 47 anos de idade. Pouca gente fala dele, atualmente. Mas é um dos grandes artistas brasileiros, responsável por uma revolução no teatro, cujos cenários, antes dele, eram feitos com móveis emprestados pelo comércio. Ele inaugurou no país a profissão de cenógrafo.

Em 1943, quando as cortinas se abriram no Municipal e o público recebeu o impacto do cenário em três diferentes planos de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, com direção de Ziembinsky, todo mundo sentiu que o teatro não voltaria a ser o mesmo.

Santa Rosa foi um artista de múltiplos talentos. Além do trabalho como cenógafo, deixou uma obra única como pintor e artista gráfico. Desenhou centenas de capas de livros para a Editora José Olympio, introduziu o layout entre nós e projetou gráficamente as revistas da Bloch.

Morreu na Índia, durante uma viagem. Drummond escreveu para ele o poema A um morto na Índia, onde diz que Santa Rosa recebeu, “em Nova Délhi, um convite de Deus: pintar o ceu”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Hemingway


Quando Hemingway suicidou-se, no verão de 1961, os mais próximos pensaram que tinha sido o desfecho inevitável para quem tivera a certeza, durante toda a vida, de que uma angústia profunda acompanha o homem do nascimento até a morte. Sua paixão pelos esportes viris, como a tourada e a caça, era uma forma de combate a essa angústia, como traduziu de maneira magistral a caricatura de David Levine que ilustra este post. O tiro final que deu em si mesmo significou a conquista do último troféu e também sua derrota.

Garcia Marquez, quando estudante em Paris, diz que certa vez descia o Boulevard Saint Michel quando o avistou do outro lado da rua. Não conseguiu conter sua admiração e gritou “mestre!” Da outra calçada, Hemingway fez um aceno em sua direção pois sabia que, no meio daquela multidão, o único mestre era ele.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Na natureza selvagem

A história de um garoto que abandona o que possúi, põe uma mochila nas costas e some no mundo em busca do Shangri-La, neste caso representado pelo Alaska, não seria novidade no cinema se não fosse por uma interpretação memorável do ator Emile Hirsch e da direção segura, em alguns momentos inspirada, de Sean Penn.

Os conflitos familiares do personagem de Na Natureza Bravia (Into the Wild) devem tê-lo feito entrar em surto esquizofrênico e trocar o próprio nome de Chris McCandless para Alexander Supertramp, enquanto empreende sua fuga da sociedade que aprendeu a desprezar. O filme, baseado num livro de John Krakauer, diz que Chris-Alexander existiu de verdade.

Este é o sétimo trabalho de Sean Penn como diretor. Ele se afirma a cada filme que dirige ou interpreta como um homem de cinema quase completo. Faltam-lhe ainda as habilidades de um Clint Eastwood que, além de dirigir e atuar, também é capaz de escrever a história, produzir, compor a trilha sonora e editar a obra que realiza.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O Poder

Acompanhando pelos jornais a batalha política que se trava em Brasília, pode-se ter exata compreensão do que seja a luta pelo poder. Em todos os países do mundo, em todo o tempo, o desejo de ser superior e estar acima de todos tem sido o que move os homens à encarniçada luta de vida ou morte que caracteriza a política. Com a diferença, talvez, de que no Senado romano os discursos eram melhor elaborados e os oradores mais talentosos.

Embora exista consenso de que políticos roubam, penso que para eles o supremo valor é o poder, e não o dinheiro. Um deles já disse que o poder é afrodisíaco. Lacan observou que, quando sobe ao poder, o indivíduo muda o seu psiquismo e passa a se sentir superior a todos os outros.

É por isso que os políticos acabam por se julgar acima do bem e do mal.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Diversidade


Ivo mudou-se para Copacabana faz alguns meses e se diz surpreso com a diversidade do bairro. Não só de tipos e hábitos humanos mas também de serviços e produtos que se oferecem ao público. Diz que em nenhum outro canto da cidade se pode encontrar uma oficina de conserto de pino de fivela, uma loja de próteses ou um cabaré especializado em strip-tease de homens para mulheres.

Outras singularidades do bairro são uma delegacia de polícia totalmente aberta, um shopping de antiquários e uma loja com oferta promocional de mola para chaveiro mosquetão. Nunca tinha ouvido falar desse tipo de chaveiro. Pesquisei na internet. O mosquetão é esse chaveiro da foto.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Velocidade


Acabo de receber uma multa por excesso de velocidade. Estava dirigindo a 70 por hora na Via Dutra, num trecho que só permitia 60, diz a notificação.

Nossas pistas são complicadas. Os limites de velocidade mudam de repente e chegam a variações surpreendentes, que passam de 110 a 50 numa viagem de curta duração, como do Rio a Petrópolis. No Aterro do Flamengo, que tem sete quilômetros de extensão, a velocidade permitida é de 90 kms./hora, que subitamente caem para 70 ou 60. É preciso andar atento.

As fábricas produzem carros velozes, capazes de atingir quase 300 kms./hora, as estradas adaptam-se a estes automóveis e as autoridades exercem o seu poder repressivo, aumentam a arrecadação com as multas impostas e deixam os motoristas perplexos e atarantados.

sábado, 1 de agosto de 2009

Rodrigo


Só hoje, lendo o jornal, soube da morte de Rodrigo Souza Leão, há um mês. Seu enorme e diversificado talento de poeta, romancista, crítico, pintor e músico tinha muito ainda a produzir. Sua morte deixa o país mais pobre.

Não conheci Rodrigo pessoalmente mas tivemos contato. Publiquei um excelente poema dele no meu site www.umacoisaeoutra.com.br e ele fez a resenha de um dos meus livros no Balacobaco.

Era (é) um poeta de intensa criatividade e força. Seu livro de poemas O Caga-Regras é de 2009 e o romance Todos os cachorros são azuis concorre, também neste ano da sua morte, ao Premio Portugal Telecom.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Mistério para sempre


O BEA (Bureau d’Enquêtes et Analyse pour la securité de l’ aviation civile) da França concluiu com perplexidade seu relatório sobre o trágico vôo 447 da Air France: a tripulação era bem treinada, o avião não tinha problemas de manutenção, deixou o Rio com verificação técnica adequada, a rota nada tinha de anormal e apresentava as condições típicas do mês de junho. Mesmo assim, o avião caiu de bico em alta velocidade e, segundo o relatório, chocou-se com as águas em alta aceleração vertical.

Vamos continuar ignorando o que causou este acidente. Restará talvez para sempre o mistério sobre a morte dos 12 tripulantes e dos 216 passageiros que, depois do jantar, se acomodavam para a travessia do Atlântico na tranquila viagem numa rota que já fiz tantas vezes.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Deus e o Diabo em Copacabana


Numa loja da Barata Ribeiro onde funcionava uma pequena mercearia abriu uma igreja evangélica, faz cerca de um ano. Um pastor de voz poderosa e ameaçadora trouxe aos poucos alguns fiéis que entoavam hinos de redenção. Esses poucos adeptos iniciais foram se multiplicando e hoje a loja fica cheia durante o culto dos sábados.

O botequim ao lado reagiu fazendo uma reforma nas instalações, trocou mesas e cadeiras e contratou jovens garçonetes. E também multiplicou o número de clientes. Há um ano que assisto à competição entre o botequim e a igreja. Por enquanto, o botequim está na frente no que se refere ao número de fiéis.

O templo se chama Igreja da Multiforme Sabedoria de Deus e o botequim, simplesmente, Bar e Café União.

sábado, 25 de julho de 2009

O labskaus redescoberto

Em frente ao prédio onde funcionou o Ficha de Dona Maria Schaade, na rua Teófilo Otoni, o Faria incorporou a seu cardápio o labskaus, cuja receita original já postei aqui. A apresentação sofreu pequena mudança, com arrumação arredondada e dois ovos estrelados. Mas honra a memória do velho botequim que morreu junto com seus donos, pois a sobrevida que teve nas mãos de Bernardo, o garçon, não foi de muita glória.

Dos cinco à mesa, Nilo foi o único que escolheu um kasseler, os outros pedimos labskaus e não nos arrependemos. Zé, chegado de Belo Horizonte, trouxe cachaça artesanal de Sete Lagoas e os outros três eramos Maldonado, Humberto e eu, felizes porque redescobrimos o prato que, nos anos setenta, nos fartava. Faltou o chope que Gehardt tirava no velho Ficha.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Liberdade e moto

Durante algum tempo usufruí do prazer de pilotar uma moto, experimentar as sensações da velocidade na estrada e dos obstáculos em trilhas quase inexistentes, subindo e descendo montanhas. Duas rodas e um motor cuja potência permite velocidade e força transmitem grande impressão de liberdade e independência.

Um amigo me disse outro dia que a verdadeira liberdade é estar sozinho. Eu acrescentaria que a verdadeira sensação de liberdade é estar sozinho, pilotando uma moto em campos vazios.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Dinheiro do Zimbabwe

O cartaz de out-door feito pela agência TBWA/Hunt/Lascaris, da África do Sul, para o jornal The Zimbabwean, do Zimbabwe, antiga Rodésia, ganhou o Grand Prix do Festival de Publicidade de Cannes. O cartaz foi impresso sobre a desvalorizada moeda do país, que tem cédulas circulando no valor de cem bilhões de dólares numa economia em colapso. O papel em que o cartaz foi impresso vale mais do que o dinheiro que exibe.

O Zimbabwe deixou de ser colonia inglesa em 1980 e desde 1987 encontra-se sob a ditadura de Roberto Mugabe, que se mantem no poder emitindo dinheiro e sufocando a oposição e a imprensa.

A campanha teve enorme sucesso: na semana de lançamento, o site do jornal teve dois milhões de visitas, contra os cem mil habituais, as vendas aumentaram 276% e milhares de exemplares do The Zimbabwean – cujo slogan é “a voz dos que não têm voz”- cruzam diariamente a fronteira da África do Sul e espalham-se pelo Zimbabwe.

sábado, 18 de julho de 2009

Orelha e Rabo de Porco de Coentrada


Sábado, dia de cozinha. Minha sugestão para hoje é retirada do livro Cozinha Tradicional Portuguesa, da Editorial Verbo, de Portugal, respeitada a redação original.


Ingredientes:
Para 4 pessoas

• 1 orelha
• 1 rabo de porco
• 3 dentes de alho
• 1 molho de coentros
• sal
• 4 colheres de sopa de azeite
• 2 colheres de sopa de vinagre

Confecção:

Preparam-se a orelha e o rabo de porco e dá-se-lhes uma entaladela (cozedura) em água temperada com sal.
Não devem ficar cozidos mas macios, apenas o suficiente para se poder espetar um garfo.
Escorrem-se, grelham-se, e cortam-se em bocadinhos e temperam-se com os alhos e os coentros picados finamente, o azeite e o vinagre.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O medo


No poema a que deu o título Congresso Internacional do Medo, Drummond escreveu “cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
 Depois morreremos de medo 
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

Pois o medo é sentimento que acompanha até os herois corajosos, cujo atos destemidos na maior parte das vezes são impulsionados pelo medo e não pela coragem. A indústria dos filmes de terror explora o medo irracional das audiências, muitas são as pessoas que não viajam de avião e outras tantas ficam gélidas de medo até de sair à rua.

O diretor de uma agência de publicidade paulista, com medo da violência no Rio, fazia reuniões com sua equipe carioca no aeroporto Santos Dumont, de onde voltava imediatamente para São Paulo. Na internet, são muitas as mensagens de medo advertindo sobre virus e outras ameaças imaginárias.

Meu amigo Lula certa vez me telefonou dizendo que acordara numa ressaca enorme e sentindo medo. Perguntei medo de que? E ele me explicou que de nada. Simplesmente medo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Cães


O cão foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem, para ajudá-lo a caçar. Nessa longa convivência, criaram-se laços de confiança mútua.

O cão é o único animal capaz de atacar outro maior do que ele próprio, pois sabe que atrás de si encontra-se o homem empunhando uma arma.

A cada dia, vejo mais moradores de rua e mendigos acompanhados de cães pela cidade, pois é nos animais que eles depositam a guarda de si mesmos contra o ataque noturno dos outros homens. São vira-latas bem tratados, de aparência melhor do que a de seus donos.

Já me chamou a atenção o mimetismo entre o cão e o seu dono, pois de tanto conviverem acabam se parecendo um com o outro.

domingo, 12 de julho de 2009

Pernil na mostarda


Ontem, deixei de postar a receita para o fim-de-semana. Mas como ainda é domingo, há tempo para fazer um prato rápido e infalível, como este pernil descrito no soneto.

Ingredientes: 1 pernil. Banha. Mostarda.

Este assado é tão fácil de fazer
que até quem nunca entrou numa cozinha,
quem não sabe fazer um ovo frito,
é capaz de passar por grande mestre.

O preparo da base é o seguinte:
fazer pequenos furos no pernil,
usando aquele garfo de dois dentes
ou apenas um garfo dos comuns.

Num tabuleiro untado deposite
a peça inteiramente recoberta
de uma espessa camada de mostarda.

Leve o pernil ao forno muito baixo,
marque uma hora para cada quilo
e mostre seu talento culinário.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Animais


A crueldade dos homens com os animais tem nos zoológicos sua maior expressão. O antropocentrismo faz a espécie humana esquecer sua natureza animal. O homem aspira a vida eterna pela crença na imortalidade da sua alma, que nega existir nos outros indivíduos que com ele compartilham o espaço do planeta em que vive. Acredita na superioridade da sua espécie, o que lhe daria o direito de subjugar todas as outras.

Uma fera das vastas planícies africanas aprisionada na jaula do zoológico da grande metrópole é um espetáculo de tristeza. Transforma-se, evita a procriação no cativeiro.

Mais tristes ainda são os animais de circo. Subjugados, humilhados, maltratados, destituidos de sua própria condição de vida.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O filho de Fábio

Leio a notícia de que a PM vai aumentar seus efetivos nas ruas e me lembro do filho de Fábio.

Fábio é um engraxate simpático que oferece seu serviço pelos bares de Copacabana. A pequena caixa que leva a tiracolo dispõe de todo o material necessário à boa execução do trabalho e ainda serve de suporte ao pé do cliente, num design improvisado e criativo.

Há um mês, o filho de Fábio jogava futebol com outros garotos da favela quando os soldados chegaram. Alguns correram para casa mas o filho de Fábio, que não tinha nada a temer, ficou onde estava. Levou um tiro na cara.

Era um bom garoto, diz Fábio. Nunca teve nada a ver com o crime. Tinha dezessete anos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Banheiros

A polícia ameaçou prender e cumpriu a promessa, pois está detendo quem urinar em público. Os jornais fazem campanha contra a esse hábito tão deseducado que empestea as ruas e tira do ar o odor do mar e das lojas de sucos, tão típico do Rio de Janeiro, e o substitúi pelo desagradável cheiro de ureia.

Não existem banheiros públicos na cidade e a quantidade de gente cujos rins insistem em funcionar sem escolher hora e local é muito grande. Desde Vespasiano, imperador romano, aquele do pecunia non olet – “dinheiro não tem cheiro” – que a administração pública preocupa-se com este assunto. Mas entre nós o problema não foi resolvido por quem deveria construir banheiros públicos e foi entregue à polícia.

Na foto, um antigo pissoir da cidade de Paris.

sábado, 4 de julho de 2009

Cunha

A pequena cidade de Cunha, entre Guaratinguetá, em São Paulo, e Parati, no Rio de Janeiro, manteve-se isolada durante séculos. É lembrada como cenário de uma das poucas batalhas da Revolução de 30 e pelo artesanato em barro que lá se produz.

É um lugar tranquilo, de vegetação abundante e bela cobrindo as montanhas com os restos da Mata Atlântica, muitas nascentes, muita água e muito frio nos meses de inverno. A menos de 3 horas de carro de São Paulo, sua tranquilidade está ameaçada de seguir o destino de outras pequenas cidades pequenas e tranquilas. Primeiro vem a invasão de turistas em horda, depois a especulação imobiliária e a consequência natural: boates, vida noturna, drogas e crime.

O homem é um bicho estranho. Para fugir do estresse das grandes metrópoles, procura as pequenas cidades do interior. E leva consigo as mazelas de que fugia.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Brasília


Em Brasília, ontem, fez um dia claro, de amena temperatura. O clima agradável contrastava com o ambiente político e as intrigas do Senado, os ipês roxos se destacavam na baixa vegetação do Planalto Central. O por de sol é sempre de grande beleza naquelas paragens mas Brasília é uma cidade que se perdeu do destino para o qual foi concebida.

Seus criadores imaginaram uma cidade compatível com o futuro e onde a vida seria agradável ao homem e livre das tensões das grandes metrópoles. Foi planejada num momento em que o país ainda não fabricava automóveis e não se imaginou os enormes engarrafamentos, hoje tão problemáticos, iguais aos de qualquer megalópole contemporânea.

Um cinturão de pobreza também cerca Brasília. Seu isolamento foi construido numa terra que produz permanente poeira vermelha, no interior de Goiás.