sábado, 26 de outubro de 2013

O ditador

No restaurante do Hotel Ouro Verde, em outra mesa, à minha frente, o general estava comendo. Um dos ex-ditadores. Sua companhia era um empresário poderoso, que eu conhecia por fotos de jornais. Conversavam. Eu encarava o general, por curiosidade e porque era a primeira vez em que eu me encontrava, face a face, com uma personagem tão importante da ditadura que colocara o Brasil de joelhos.

Foram anos sombrios de amigos presos, outros exilados, notícias de tortura, morte e desaparecimentos. Eu pensava nisso enquanto olhava o general e de repente ele me encarou de volta, franziu as sobrancelhas e desviou o olhar.


Algo acontecera ali, naquele instante. Percebi a preocupação no rosto do general, que a cada momento tornava a me olhar, me vigiar. E desviava os olhos. Ele estava com medo. Um desconhecido o observava num restaurante, com um tipo de curiosidade que ele julgava ameaçadora. E por isso teve medo. Chamei o garçon, paguei a conta e mergulhei no anonimato da rua. O medo é uma síndrome que pode atacar de repente o mais cruel e poderoso dos homens.
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