quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Preta

Nenhum movimento escapa a seu olhar. Ela acompanha o voo dos insetos nos escaninhos da sala, segue os helicópteros que espalham barulho nos céus de Copacabana. E disfarça a sua presença, embora se divirta a me pregar sustos pulando inesperadamente no colo. Quando a procuro, nem sempre é possível encontra-la, pois sua cor negra ajuda na camuflagem.

O tempo todo me vigia. Se me dirijo à cozinha, o longo miado transmite um pedido meigo mas forte de comida. Não possui a agressividade da outra que morreu, caçadora dos pássaros que se arriscavam na varanda e cujos corpos me trazia como uma gentil demonstração da amizade de que nunca duvidei.

Esta prefere olhar embevecida o voo dos pássaros, ao invés de persegui-los. Acompanha silenciosamente encantada seus volteios, talvez imaginando o que fazer para poder voar como aqueles seres alados, misteriosos e distantes. Ou, mais provável, pensando numa forma inteligente e ardilosa de atrai-los, atacá-los e comê-los.
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