segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Velhice


Hoje, sou mais velho do que meu pai. E penso que também mais velho do que meu avô. Quando criança, sempre os olhei como personagens de um mundo diferente do meu, o mundo dos adultos e, mais do que  isso, o mundo dos velhos. Depois eles morreram e hoje cheguei a uma idade que eles não alcançaram. Sou mais velho do que eles, meu pai e meu avô.

O momento em que tive a exata noção de que o tempo  passara e que estava me aproximando da velhice eu vinha pela calçada da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, e uma bela moça que caminhava em sentido contrário me olhava com atenção. Pensei “acho que estou agradando” e, quando nos encontramos de frente um para o outro, ela perguntou “o senhor não é o pai da Fernanda? “ Trocamos algumas palavras amáveis e continuamos nosso caminho mas uma nova consciência me assaltava, a de que eu talvez não fosse mais o jóvem que atraia os olhares pela aparência que tinha, o jeito de me comportar e a maneira dos gestos.

Eu tinha pouco mais de quarenta anos.


(Trecho de depoimento escrito para “Os Novos Velhos”, de Léa Maria Aarão Reis)
Postar um comentário