sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A caça

Entre tantas culpas que talvez me levem ao inferno, uma que de vez em quando me assalta é a do dia em que matei uma pequena ave que pastava na floresta às margens do Araguaia: uma galinhola, como a chamam na região, um inhambu, como a chamavam os da minha terra. Uma violência contra uma ave tranquila.

Armado para a caçada, fiz o disparo fatal. E mais tarde a comemos, nós os da expedição de pesca transformados por uma breve manhã em caçadores. Pensei na cena em que ela foi morta – distraída e tranquila no meio da verde vegetação da margem do rio. Mas o arrependimento não foi bastante para inibir o prazer de saciar a fome com a sua carne.


Pois para isto fomos feitos, animais que sobrevivemos desde o amanhecer da existência com a morte de outros seres vivos. Domesticamos aves e bichos para devorá-los, dividimos sua carne em pedaços que não possuem sequer a memória dos seus corpos. E amamos pensar que somos diferentes dos outros predadores ferozes dessa estranha natureza que habitamos.
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