domingo, 13 de julho de 2014

Reencontro

A última vez em que o vi ele estava sóbrio e dava para perceber que fazia esforço para não beber. Estava morando sozinho num apartamento pequeno mas tinha esperança de que a mulher o aceitasse de volta “por causa das crianças”, me disse. Pensei para mim mesmo que as crianças já não eram hoje mais crianças. Almoçamos num botequim da Rua da Bahia e não conversamos muito mais sobre nós mesmos.

Fomos contemporâneos na universidade e depois colegas de trabalho numa agência de publicidade. Sua visão do mundo bem-humorada o fazia encontrar sempre algo divertido para dizer sobre as situações que enfrentava. Mas daquela vez me deixou a impressão de que as coisas não iam bem na sua vida. Não nos víamos há algum tempo, reparei nos seus dentes estragados, nos seus silêncios.


Falou algo sobre os anos que passavam rápido, nas dificuldades de sobrevivência, na falta de dinheiro que costuma acompanhar o final da vida das pessoas. Depois eu viajei de volta e não tive mais notícias dele, até que me disseram que seu corpo fora encontrado no pequeno apartamento em que morava sozinho. Precisaram arrombar a porta, estava morto há alguns dias.
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