quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Bunda


O amigo afirma que bundas são como rostos, uma é sempre diferente da outra. Não existem duas iguais no mundo, até mesmo entre as gêmeas existem diferenças sutis. E, como fazem os rostos, têm expressão própria no corpo da mulher quando se movimentam no ritmo do andar. Podem transmitir alegria e até mesmo certa tristeza na forma de se mover ao dançar frenética ou caminhar desoladamente.

Podem ser finas, magras ou calipígias. As mulheres brancas costumam apresentar o formato de pera, as negras uma forma de maçã e entre esses tipos as variações são infinitas e nunca se repetem.

Drummond talvez tenha sido quem melhor entendeu essas nuances:

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda .

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Samba, tango e o Lloyd



Das dez linhas internacionais do Lloyd Brasileiro, companhia de navegação que existiu de 1890 até 1997, a mais importante era a que ligava Rio-Santos-Montevidéu-Buenos Aires. Transportava carga e passageiros mas fazia no paralelo outro tipo de comércio - o de levar e trazer palavras entre as línguas faladas na beira dos cáis daquelas cidades.

Bacana, afanar, engrupir, farra, gavião (gavión), mina, michê, otario, paco, pinta, punga, calote, barulho (barullo), rolo, tamanco (tamango), pedregulho (pedregullo), cafúa, lobizón (lobisomem), fulo, catinga, tira, achacador, bobo (relógio), burro, campana, despelotado, embolar, engaiolado, engrupir, entregar (delatar), esbornia, escrachado, fachada (cara), fulera, gagá, gigolô, guri, labia, macanudo, malandro, mamado, mancada, masoca, pirar (ir-se), são algumas das centenas de palavras que existem tanto na gíria brasileira quanto no lunfardo do Rio da Prata.

A língua dos marinheiros, prostitutas, gigolôs e malandros dos três países foi enriquecida nessa troca. E ganhou mais força de expressão quando saiu do bas-fond e passou para o vocabulário do samba e do tango, ritmos também marginais que, com o tempo, foram legitimados como expressões culturais e acabaram por penetrar nos salões da melhor sociedade.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Condenados


Em Lagos, fiquei hospedado no Eko Hotel, na Ilha Vitória. É um hotel de padrão americano, com a diferença de que só tinha água de madrugada. Puxei o pesado colchão da cama king size, coloquei-o na porta do banheiro e abri o chuveiro e a torneira da pia. Assim, por volta das duas da madrugada, podia acordar ouvindo o barulho da chegada da água lançada pelos canos enferrujados. E tomar um banho.

No sábado, o jornal anunciou a execução de quatro condenados à morte por roubo. A sentença por fuzilamento foi cumprida numa praia do outro lado da ilha. Alguns hóspedes foram assistir. Preferi ficar sozinho no bar. Não conseguia – não consegui até hoje - tirar da cabeça o olhar dos condenados quando passaram pela porta do hotel em cima de um caminhão, algemados, em direção àquela praia.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Genocídio


O ano se inicia com um verão chuvoso. O que me lembra a observação de Eric Hobsbawm, que diz ter sido o Século XVIII um período luminoso, seguido pelo úmido e sombrio Século XIX. Parece que em cada século existe um câmbio, pois o Século XX foi solar e portanto neste em que vivemos certamente haveria o predomínio das águas.

Embora luminoso, foi no século passado que ocorreram os sucessivos massacres da primeira e segunda guerras mundiais, os abatedouros humanos. Nele foi cunhada a palavra genocídio.

Esta palavra sinistra serviu para designar o assassinato em massa de armênios, judeus e ciganos. E deu nome aos genocídios praticados na Sérvia, no Tibet, no Camboja, em Ruanda e na Bósnia, sem esquecer a destruição de Guernica e o massacre dos curdos no Iraque.

Foi o século que assistiu à falência da humanidade.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Medianeras


Medianeras, paredes cegas dos edifícios construidos no cáos urbano, são a marca da arquitetura criada pela especulação imobiliária. Um amontoado de prédios desiguais sem qualquer respeito à estética que reflete também a ética dos lançamentos imobiliários. Em sua propaganda, eles procuram vender enfatizando o meio ambiente, o conforto e a paisagem, exatamente o que destroem.

O filme do argentino Gustavo Taretto, que nada perderia se editado com alguns minutos a menos, reflete esta Buenos Aires sombria mas seu tema é o da solidão. Um cerco emocional depressivo que o isolamento da internet só faz aumentar com a sua ilusão virtual.

Taretto escreveu o argumento e dirigiu o filme. Revela-se um diretor de grandes possibilidades que muito ainda nos tem a dizer. Sua obra, com poucos títulos até agora, enquadra-se na moldura do novo cinema argentino, feito com bom gosto, sensibilidade e com respeito à inteligência do espectador.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um ano sombrio


Morte, destruição e tristeza são as marcas de um ano que começou com aquela tragédia na Região Serrana: mais de novecentos mortos e 400 desaparecidos. Gente que um dia antes estava a nosso lado. O dinheiro da ajuda perdido nas trevas da burocracia, parte dele roubado pelo prefeito de Teresópolis.

Doze crianças assassinadas numa escola de Realengo, o primeiro massacre desse tipo no Brasil; cinco pessoas mortas no acidente do bondinho de Santa Teresa, explosão de bueiros em ruas movimentadas. Um único cataclismo, no Japão, deixou mais de mil e trezentos mortos.

São apenas as primeiras lembranças que me ocorrem, ao pensar em 2011. O que me traz também à memória um quarteto que Vinícius teria escrito faz 43 anos:

Mil novecentos e sessenta e oito,
ano assim nunca se viu;
mil novecentos e sessenta e oito,
Vai pra puta que o pariu.

sábado, 17 de dezembro de 2011

À espera do verão


No botequim da esquina, os quatro velhinhos gays bebiam chope, hoje pela manhã. O sol que surgiu anunciando o verão trouxe consigo o desfile em direção da praia. Os velhinhos escaneavam a rua com ágeis olhares e examinavam com interesse os rapazes que vinham da estação do metrô.

Pareciam felizes, embora discutissem a decadência do bairro. O que se veste com maior apuro disse que Copacabana começou a se perder quando surgiu o primeiro café em pé. Não foi contestado pelos outros e acrescentou que, antes dessas aberrações de hoje, os cafés eram como os de Paris e como são até hoje os de Buenos Aires. As pessoas podiam sentar-se para um café e dali observar o mundo.

Depois baixaram a voz e, cochichando, desviaram o olhar para um jovem negro que atravessava a rua.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os velhos


Os prédios onde vivem parecem pombais. Eles olham das janelas para a rua, são como pombos abrigados em caixotes. Olham para fora na busca de ar, de mais espaço e de alguma paisagem para contemplar, mesmo que seja a da Barata Ribeiro, inundada de gás carbônico.

Estão sempre nas janelas mas também na filas do supermercado e do banco. Alguns sentam-se nos bares, olhando para a rua ou para lugar nenhum, com o ar distante de quem na verdade não está ali.

Os mais sociáveis se organizam em jogos de baralho, ocupam as mesas feitas de cimento nas praças quase desertas. Reunem-se para passar os dias, cada vez mais longos, de anos cada vez mais curtos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O mar


Se a paisagem da sua natureza não fosse tão bela, o Rio seria uma cidade desumana, como existem tantas no país. Opressivas, de ar pesado, trânsito louco, violência, miséria e cáos.

As cidades marítimas aparentam certa leveza e olhar o mar transporta o espírito para alem do horizonte, como se divagassemos em torno da nossa própria origem no universo das águas. Até mesmo um ligeiro contemplar proporciona pequena fuga de uma realidade às vezes sufocante.

Copacabana, no entanto, afasta de si o mar. Um paredão de quiosques, passarelas, arenas esportivas, palcos para shows barulhentos e construções enigmáticas bloqueia a praia. A cidade se afasta das águas. O carioca odeia o mar.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Luiz Carlos


Quando nos conhecemos éramos dois adolescentes interessados em literatura, amantes da poesia. O destino nos levou para caminhos diferentes mas de vez em quando vinham notícias de longe, de onde ele morava e trabalhava.

Voltamos a nos encontrar passados muitos anos, estavamos quase velhos. No bar, em Copacabana, ele disse que já estava se acostumando com a idéia da morte. Respondi com uma frase um pouco literária, a de que a vida não passa de uma preparação para a morte. E lembrei o verso de Unamuno: toda vida, ao final, é um fracasso.

Continuamos a beber, um pouco mais depois daquela conversa sobre a morte e o fracasso. Depois ele voltou para Natal, morreu poucos dias depois de um ataque do coração. Lula. O poeta Luiz Carlos Guimarães.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fim de tarde

Sentaram-se na última mesa da calçada do botequim. Haviam chegado apressadamente, um depois do outro, aparentando certa urgência e dispensaram o garçon que se aproximou. Não queriam nada. Ficaram olhando em direções diferentes. Ele acompanhava o trânsito da Barata Ribeiro, ela fingia procurar alguma coisa para o lado da Paula Freitas. Ela usava uma calça jeans bem justa e trazia uma sacola de papel com algumas roupas, ele calçava chinelos e vestia uma camiseta verde, desbotada. Estavam muito sérios e passaram a olhar para o chão, compenetrados. O garçon os fitava de longe, encostado no umbral da porta e fez um comentário qualquer com alguém que se encontrava no caixa. Os dois não trocaram qualquer palavra nem quando ela, uns 15 minutos depois, levantou-se, acenou para um taxi e embarcou. Ele chamou o garçon, pediu um chope e voltou a olhar, desta vez para o lado da Paula Freitas.

sábado, 5 de novembro de 2011

Trilheiros

As pinceladas de vermelho no horizonte emolduravam a paisagem nos primeiros minutos do dia. O céu limpo de núvens preparava-se para receber o sol. O vento que batia em nosso rosto já não era tão frio e prenunciava calor nas serras. O ronco das motos era o único barulho perturbando a tranquilidade daqueles campos onde não faltavam sequer algumas vacas no amplo e ondulado espaço verde. Desaceleramos para olhar um pouco o quadro em nossa volta, respirar o ar fresco e sentir um pouco mais a euforia que nos trazia uma intensa sensação de liberdade. Logo adiante, depois da curva, sairiamos da estrada para percorrer uma trilha estreita, acidentada, onde outras paisagens, surpreendentes, iriam se suceder no meio da antiga mata atlântica. Tornamos a acelerar porque era domingo, eramos jovens e havia uma manhã que nos desafiava.

domingo, 23 de outubro de 2011

Belinha

Ela foi uma gata de rua, arisca e ligeira, cliente das latas de lixo, caçadora de ratos. Adotada, acostumou-se ao apartamento mas não perdeu o instinto. Expulsou os pombos que ocupavam o terraço e permanece atenta ao cochilo dos pássaros de Copacabana. Ela é capaz de pegá-los em pleno vôo.

A lembrança da fome a persegue e se revela no apetite voraz e na adoração por comida. Embora tranquila, não suporta ser agarrada ou obrigada a ficar no colo. O gato foi o último animal que o homem domesticou e guarda muito do caráter dos felinos selvagens.

Carlindo Costa, fotógrafo, capturou seu olhar sereno mas atento, capaz de acompanhar qualquer movimento que se faça em sua volta. A posição de repouso em que se encontra mostra simpatia pela pessoa que a está encarando mas revela antes de tudo a confiança que tem em si mesma.

sábado, 15 de outubro de 2011

Protestos


Os protestos que ocupam as praças pelo mundo afora trazem uma novidade. Não se trata apenas do uso da internet, como querem os jornais, preocupados mais com o meio do que com a mensagem.

Pela primeira vez, a polícia e a repressão não sabem a quem culpar pelo que possam chamar desordem. Os comunistas perderam a força, as esquerdas se dividem, a União Soviética decepcionou como modelo e não existe mais.

Os que protestam no coração do capitalismo chamam a atenção para a falência desse outro modelo. Mostram também como são destituidas de sentido as pequenas marchas no Brasil contra a corrupção. Num discurso em Wall Street, o inquieto filósofo Slavoj Žižek apontou com precisão que o problema não é a corrupção, mas o sistema.

domingo, 9 de outubro de 2011

Mendigos


Muito magro, o torso quase da espessura da perna atrofiada, ele pede dinheiro na Barata Ribeiro apoiado numa muleta e num pequeno bastão. Um outro estende a mão na esquina da República do Peru, muito sujo, portador de uma doença revelada pela extrema palidez em todo o seu corpo.

Na porta do metrô, uma mulher se dirige a quem passa para pedir que lhe paguem o valor da passagem e no sinal de trânsito um outro aborda os motoristas sentado numa velha cadeira de rodas. Um outro divide com ele a rua. Paralisado cerebral, percorre os corredores do trânsito congestionado num andar dançante, quase cômico.

Eles são muitos, de vez em quando desaparecem, talvez recolhidos pelos serviços sociais da Prefeitura. Mas sempre retornam para avivar no bairro a consciência da miséria humana e talvez despertar a má consciência nos que bebem nos bares ou passam em direção à praia.

domingo, 2 de outubro de 2011

Beija-flores


Descortinando a flor entre o som de buzinas, a fumaça dos escapamentos e a poeira do dia de Copacabana, eles costumam aparecer sem aviso. Há quem disponha bebedouros nas janelas, uma mistura de água e açúcar que, dizem os cientistas, acaba por exterminar a espécie pela descalcificação da casca dos ovos.

São tipos diferentes, de corpo e plumagem diversa, alguns mais agressivos, outros mais pacientes. A rapidez do vôo e a beleza dos movimentos pouco revelam da luta feroz que travam entre si pela mesma flor.

Quando parecem descansar, estão na verdade vigiando o território conquistado contra a ameaça de invasores. Mas é por um momento muito breve, como este da bela foto obtida por Marco Paganini num jardim da California.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Primavera


Esta sucessão de dias em que se alternam calor e um certo frio marca o início da nossa primavera. Não é tão bela e tão intensa quanto a do Hemisferio norte, que desabrocha as flores em março, mas nos dá em setembro este céu claro e atmosfera limpa.

A cidade se prepara para o verão. Este ano, considerando as amostras e as previsões, teremos de novo um calor abissínio, com a volta da epidemia de dengue, sem contar as gripes típicas da estação.

Copacabana hibernava mas já dá sinais de que começa a despertar. Daqui a pouco chegam os turistas, de pele muito alva, como pássaros brancos anunciando o verão. Terá início uma festa que só vai terminar bem depois do carnaval.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Papagaios


Eles devem morar no Morro de São João, aqui em frente, lá no alto, depois da Ladeira do Leme. É um pequeno bando, de oito a dez, que de manhã bem cedo sobrevoa a muralha dos edifícios de Copacabana e segue em desorganizada esquadrilha no rumo da praia.

São quase inteiramente verdes, com tons de amarelo e azul na cabeça e passam fazendo barulho com seu canto estridente em seu típico vôo desajeitado.

Sempre me perguntei o que um bando de papagaios vai fazer na direção do mar. Mas sei que eles vivem cerca de 40 anos e costumam unir-se em casais que duram por toda a vida. Às vezes voam tão juntos que, de longe, dão a impressão de serem apenas um.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Um gentleman


Lembrança de Eduardo, de cuja morte soubemos, eu e outros amigos. Procuramos muito descobrir por onde andava, depois que sumiu, até que nos chegou a notícia. Uma morte discreta, íntima, como ele sempre viveu.

Já falei aqui sobre Eduardo, o homem mais elegante que conheci. E de suas oito namoradas, que manteve durante muitos anos sem que uma soubesse da outra. Quando o segredo acabou por ser revelado entre elas, mesmo assim continuaram a lhe fazer companhia nos fins de semana, ora uma, ora outra. Dava-lhe algum trabalho administrar esse amor com tantas faces, pois às sextas-feiras, no fim da tarde, começavam os telefonemas.

Cavalheiro perfeito de um tempo passado, figura romântica de charme envolvente, as mulheres não o conseguiam odiar.