domingo, 23 de maio de 2010

Três mulheres

Eram três mulheres de ar cansado que tomavam chope no fim da tarde, alheias ao burburinho da Barata Ribeiro na hora do rush. As mesas do botequim estavam todas ocupadas, como sempre no fim da tarde, e o barulho incomodava, como de hábito. Diante da zoada que elas mesmas produzem, as pessoas costumam falar cada vez mais alto para serem ouvidas e acabam quase gritando.

As três mulheres usavam roupas coloridas, falavam alto, às vezes ao mesmo tempo, como as mulheres costumam fazer quando estão em grupo e conversam entre si. Frases soltas podiam ser ouvidas de longe e quem estivesse sentado na mesa ao lado podia escutá-las, mesmo que não pretendesse ouvir o que diziam.

Elas não eram jóvens mas não aparentavam sentir-se velhas. Penso que falavam de amor e do tempo passado, pois uma delas de vez em quando repetia, como se desejasse informar ou convencer as outras, eu já fui amada, eu já fui muito amada.

Os motores aceleravam quando o sinal abria para o verde, aumentando o barulho e a poluição do ar, como acontece todas as tardes em Copacabana.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Looping


Pelas estatísticas da FAB, quase 30 por cento dos acidentes aéreos ocorrem durante o treinamento de pilotos, por culpa dos aprendizes ou da inabilidade dos instrutores.

A história verdadeira e mais surpreendente que já ouvi é a de um desses acidentes. Quando conheci Gilberto, já formado em engenharia, ele confirmou: o que tinham me contado realmente acontecera. Ele havia mesmo caido de um avião, durante treinamento quando era cadete da Aeronáutica.

Estava em vôo solo, o que significa já ter alguma experiência como piloto. Disposto a executar algumas piruetas para exibir técnica e performance, deu-se mal no primeiro loop. Havia esquecido de atar o cinto de segurança e despencou no vácuo. A FAB perdeu um avião e um piloto que escapou da morte sem qualquer ferimento e resolveu estudar engenharia.

domingo, 16 de maio de 2010

No Araguaia


Conhecí aquele inglês alí na divisa de Mato Grosso, Tocantins e Goiás, trabalhando como gerente de uma pousada flutuante no Rio Araguaia. Costumavamos nos hospedar neste botel, de onde saíamos para pescar em canoas com motores de popa, num horário que ia das quatro às dez da manhã, quando o sol se tornava insuportavelmente quente. Taylor, que se dizia de uma pequena cidade perto de Manchester, era nosso anfitrião e guia pelos pesqueiros do Araguaia.

Era ele quem nos despertava, às 3 e meia da madrugada, de modo a que pudessemos estar em plena atividade por volta das quatro. Nada comia pela manhã, tomava apenas um copo de água e, a partir das oito, abria a primeira lata de cerveja e continuava a beber durante todo o restante do dia. Aquele copo que ele dizia ser de água, descobri mais tarde, na realidade era uma farta dose de gin. Nunca o vi embriagado, embora tropeçasse nas palavras, por conta da sua dificuldade com o português.

Da mesma maneira como apareceu nas margens do rio em busca de trabalho, também desapareceu. Quando chegamos no meio do ano, depois das grandes águas, o novo gerente do botel disse que Taylor certo dia pediu as contas, tomou uma última dose de gin, pegou carona num batelão de transporte de gado e sumiu para sempre.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sao Francisco


Dizem que Ouro Preto é uma cidade onde a humanidade construiu o que tinha de melhor e de pior. Crimes, traição e ganância estão presentes na sua história. E os fantasmas rondam a cidade, dizem as lendas – ninguém passeia sozinho na sua névoa, pois uma sombra do passado o acompanha por onde for.

Cada freguesia tem sua igreja, construida nos tempos da abundância do ouro e da transbordante religiosidade do povo. Algumas são de grande beleza, como esta que fotografei no meio da noite enevoada. A igreja de São Francisco de Assis começou a ser construida em 1766, é tida como a obra-prima do Aleijadinho, que foi seu arquiteto e escultor.

Outro mestre do barroco mineiro, Manoel da Costa Ataíde, pintou o teto, representando a assunção de Maria. Os seus santos, santas e anjos trazem nos seus rostos traços dos povos africanos escravizados.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Outono


Apesar da eventual ocorrência de frentes frias que trazem chuva, maio é um dos meses que oferecem ao Rio o tempo mais agradável e temperaturas amenas. Junto com setembro, mostra que outono e primavera são as mais amáveis estações do ano. Elas fazem uma cidade mais tranquila, protegida das canículas do verão e da fria umidade do inverno.

Copacabana prepara-se para hibernar, pois vive do agito do verão carregado de turistas e de banhistas que desfilam seminús pelas calçadas. Agora, no outono, sua verdadeira população sái às ruas. Já não precisa se proteger do calor que torna mais difícil a vida dos mais velhos, enquanto os jóvens sonham com temperaturas que tragam de volta os dias de praia. Pois é na praia que eles vivem a maior parte de suas vidas, onde socializam, acasalam e assistem ao início e ao fim de um novo verão, que traz sempre uma novidade e alguma nova surpresa.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O espetáculo e o medo


Nas duas vertentes adotadas pelo cinema – arte ou indústria – os filmes americanos cada vez mais exibem a escolha das suas platéias pelo espetáculo massificado. Distante da reflexão que toda obra de arte provoca, convidando seu público a uma participação criativa, a indústria americana optou por oferecer ao mercado de um lado a pirotecnia tecnológica e de outro o terror como diversão.

A carência de roteiros criativos é compensada pelos pesados investimentos na produção de blockbusters ingênuos: Avatar, Homem de Ferro e outros super-heróis dos quadrinhos convocados por Hollywood. Uma onda escapista de filmes de animação começa também a invadir o mercado.

A produção B especializou-se na exploração dos pesadelos infantis da classe média americana, criando um gênero que aos poucos se transforma numa cultura do medo. Na falta de emoções sutís, a indústria investe o que é possível na criação de impactos violentos, na exibição de crimes horrorosos e nas ameaças do terror sobrenatural, em fórmulas testadas e repetidas para lotar os cinemas e vender milhões de cópias.

Penso que existe oportunidade para um novo cinema nos Estados Unidos, capaz de criar novas platéias, saturadas de tanto sangue e tanto medo.

domingo, 2 de maio de 2010

As paixões


Existem pelo menos três temas que fazem despertar paixões impossíveis de controlar: futebol, política e religião. Quando faz parte de uma torcida, de um partido político ou de uma das revelações da divindade, o indivíduo abre mão da sua identidade e passa a ser o átomo de um corpo do qual é a menor partícula. O pensamento lógico se retrái para dar lugar à paixão, que é irracional.

Existem, claro, outros tipos de paixão além daquelas. A paixão amorosa é uma delas, quando o amor abandona o altruismo e passa a ser uma doentia necessidade de posse e dominação. O sujeito apaixonado vive a obsessão de um pensamento fixo, um tipo de esquizofrenia que o aliena e o escraviza dentro do círculo da insanidade.

Os tipos mais comuns de paixão situam-se, porém, nas torcidas esportivas e os excessos que conduzem multidões a batalhas campais com mortos e feridos. Na luta pelo poder político, quando o confronto de opiniões contraditórias podem levar à guerra e à destruição. E na crença fanatizada na palavra que teria sido pronunciada por Deus, outra fonte de loucura que conduz à violência cega.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

In illo tempore


Estropiados depois de um dia de marcha a cavalo, nádegas feridas, costumavamos dizer entre nós “imagina se um dia vamos lembrar disso e dizermos bons tempos aqueles”. Nosso corpo tinha o cheiro do suor das montarias, um cheiro tão forte que penetrava nas unhas e demorava meses para sumir.

Os oficiais faziam questão de parecerem o que eram na verdade: oficiais de cavalaria. E se comportavam na velha tradição da mais antiga das armas dos exércitos. Eram duros, grossos, cuspiam palavrões, exigiam que fizessemos as proezas que eles faziam nos obstáculos dos exercícios exteriores. Com a diferença de que eles montavam cavalos árabes ou ingleses e nós os pangarés mal treinados da cavalhada militar.

Os exercícios em picadeiro serviam para divertir os alunos das outras armas. Eles também tapavam o nariz quando passavamos, por causa do nosso cheiro. Noventa por cento da nossa turma levavam quedas espetaculares no movimento de terra-cavalo, que consistia em passar a perna direita por cima da sela, com o cavalo a galope, saltar no chão e no mesmo impulso tornar a montar. Só não caia quem não tinha coragem de saltar. E o quartel inteiro gargalhava.

À noite, não nos deitávamos. Caíamos na cama, num sono tão profundo que era impossível sonhar.

Bons tempos aqueles.

sábado, 24 de abril de 2010

Uma surpresa


A industria põe na rua tal quantidade de produtos das suas fábricas que foi preciso desenvolver técnicas para garantir que esses bens fossem vendidos na proporção em que iam sendo produzidos. Para isso foram criadas e desenvolvidas as técnicas que os americanos chamam de marketing, palavra que adotamos porque não encontramos outra melhor para definir este processo de produto, embalagem, preço, distribuição, publicidade e vendas.

Com a ajuda da pesquisa, as técnicas de marketing chegaram a conhecer profundamente o consumidor: suas preferências, hábitos, emoções, seus pensamentos profundos. A tal ponto que vender um produto transformou-se em equações matemáticas: para entrar num determinado mercado, uma empresa deveria aplicar um volume de dinheiro correspondente aos seus objetivos, comprando dessa forma participação nesse mercado. Era assim que as coisas eram.

De repente, com a pulverização dos meios de comunicação trazida pela internet, vem a surpresa que a McKinsey & Co., uma das maiores na área da consultoria, detectou em seus estudos: dois terços da economia do mundo sofre a influência direta das recomendações pessoais. Ou seja: o boca-a-boca, direto ou eletrônico, funciona melhor do que a mídia tradicional.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Carlos Pena Filho


Carlos Pena Filho morreu com trinta anos de idade, deixou quatro livros, o último deles com sua obra completa: Livro Geral. Quando reuniu tudo o que havia escrito num derradeiro volume, será que teve a intuição da morte, dali a pouco?

Conheci-o no Bar Savoy, uma instituição do Recife que hoje não existe mais, desapareceu junto com a deterioração do centro da cidade. Eu tinha dezoito anos, dez a menos do que ele. Adorava a boemia do Recife, pensava que ali era o meu lugar. Sobre o Savoy, ele escreveu o refrão no poema Chopp:

São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.


Dos poetas de Recife, ele foi um dos maiores entre tantos que marcaram presença na melhor poesia: João Cabral de Mello Neto, Joaquim Cardoso, Mauro Mota, Ascenso Ferreira e o próprio Manuel Bandeira.

Leia neste link alguns dos seus belos poemas: http://www.interpoetica.com/carlos_pena_filho.htm

sábado, 17 de abril de 2010

A cidade do futuro


Há cinquenta anos, quando Brasília foi inaugurada, a imprensa mundial lhe dedicou grandes matérias, pois era a capital de um país construida moderna, exibindo uma arquitetura surpreendente. Vista contra a paisagem do imenso planalto, a linha do horizonte recortava os edifícios e projetava uma grande beleza principalmente ao por do sol.

Sua construção conquistou o interior de um país colonizado no litoral e os governos militares que vieram depois lhe dedicaram grande prestígio, pois era um centro de poder longe do povo, a salvo, portanto, de manifestações de desagrado.

Há quem diga que Brasília é a maior cidade do interior de Goiás. Mas foi saudada como a cidade do futuro e o futuro é hoje. Estariam depositadas neste futuro as esperanças de cinquenta anos atrás?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Rodízio e quilo


Parece que tanto os restaurantes de comida a quilo quanto as churrascarias em rodízio foram invenções brasileiras. Representam uma solução de marketing que leva em conta a fome sem medidas da clientela pois, ao invés do comerciante, quem determina o preço ou o tamanho do prato é o freguês.

Dessas duas fórmulas bem sucedidas de vender comida, o rodízio, invenção dos gaúchos, já existe até na Russia e faz o regalo dos americanos, que esbugalham os olhos e enchem a barriga nas bem sucedidas churrascarias de Miami e Nova Iorque. A carne é um produto caro, nesses países. Quanto ao quilo a preço fixo, penso que ainda não conseguiu sucesso no exterior porque os empresários do ramo de restaurantes temem perder dinheiro nesse negócio. Em Paris, cidade orgulhosa das suas casas de pasto, anunciado como “à volonté”, faz sucesso o buffet a preço fixo. É o que há de mais parecido.

Já em Copacabana, há um restaurante a quilo e uma farmácia em cada esquina. Não existe muita relação entre esses dois negócios, mas ambos são do agrado dos velhinhos do bairro, que garantem a saúde pagando apenas pelo que comem, sem maior desperdício. E dão sempre uma passada na farmácia.

domingo, 11 de abril de 2010

Depois da chuva


A atmosfera lavada abre um céu limpo e azul depois da trágica semana de abril. A amena temperatura substituindo os dias de forte calor inaugura finalmente o outono no Rio mas esta é no momento uma cidade triste. Impossível dar boas vindas com alegria a um céu azul e limpo depois da notícia de tantos mortos.

Uma cidade construida sobre pântanos e mar, crescendo sobre aterros, soterrando rios, avançando sobre os lagos. As enchentes de hoje são o movimento das águas na procura do seu espaço antigo sobre a terra improvisada.

Um amigo me diz que o Morro do Bumba, em Niterói, é uma metáfora perversa de como construimos a nossa sociedade. Uma vila sobre o lixo, construção precária tentando viver sobre detritos que se decompõem e se preparam para destruí-la.

O mar cresce, invade as praias. O limpo céu azul tomou o lugar das núvens negras que trouxeram consigo a destruição.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O melhor livro do mundo


Sua figura curva sobre o cavalo magro ainda hoje é lembrada e a história dos seus feitos continua sendo lida e cultuada. Louco, de porte desengonçado e uma bacia de barbeiro sobre a cabeça servindo-lhe de elmo, completando a velha armadura feita de lata velha, o Quixote continua a povoar o imaginário das gentes.

A compulsão de corrigir as injustiças do mundo aliada ao delírio insano da demência nos encanta porque o mito do herói nos acompanha desde muito cedo. Impossível viver sem a esperança de que todo mal seja combatido e toda injustiça compensada, apesar da dualidade do mundo e da vida.

A história do Quixote contada por Cervantes foi indicada como o melhor livro de todos os tempos, por uma comissão de críticos literários de inúmeros países. Talvez por ter descrito tão bem como são difusas as coisas do mundo, dando razão a Erasmo, que escreveu em seu Elogio da Loucura, em 1509:

"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Livros e e-books


O comércio eletrônico no Brasil cresceu 30 por cento no ano passado e nesta conta não foi incluída a venda de passagens aéreas. Os jornais continuam em queda, a televisão perde audiência e o crescimento dos e-books, nos Estados Unidos, foi de 261 por cento em 2009, na comparação com o ano anterior.

Para uns, o crescimento do livro eletrônico é assustador, pois ameaça a existência do livro. Como seria a humanidade sem livros? É a pergunta que se fazem os bibliófilos, os que amam as estantes carregadas de volumes, por onde passeiam, sonham, consultam e sentem-se felizes.

Hoje, são apenas 3 por cento do mercado de livros os leitores de e-books. Mas o crescimento é enorme e surpreende até os especialistas, que discutem e buscam novas formas de comercialização. Os autores se indagam como irão escrever no futuro, quando o livro poderá não existir mais, ou ter sua importância relativizada.

O livro, como plataforma para leitura, substituiu o papiro, copiado por centenas de escravos que, em Roma, tornavam possível difundir a obra de Virgílio, Horacio ou Ovídeo. Gutemberg trouxe uma revolução que substituiu o papiro. Estaríamos diante de outra, que substituirá o livro?

No dia do Natal de 2009, a venda de e-books na amazon.com superou pela primeira vez a venda de livros.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As dúvidas do embaixador


Um diplomata que passou mais de vinte anos fora do país disse na volta que ainda não se reacostumara com duas manias dos brasileiros. Para protestar contra o atraso do trem, os brasileiros quebram o trem; e não havia como entender o hábito dos homens de coçar em público a genitália.
Também o impressionava o culto da Índia e do hinduismo por um segmento da classe intelectualizada, num misticismo alternativo que busca entender o mundo e a si mesmo com a importação de uma religião exótica. Quando voltou da Índia e passou pelo complexo da maré, disse ele, viu como aquelas construções eram melhores do que as casas da classe média de Deli. Pensou que o hinduísmo poderia ter tomado, naquelas favelas, o lugar das seitas evangélicas dominantes.
O embaixador morreu sem entender por que o homem brasileiro usa gravata no clima tropical do país, por que quebram os trens para protestar e por que não cultivavam o hábito lavar a genitália.

terça-feira, 30 de março de 2010

O homem que bebia cerveja


Conheci gente que resolveu se matar bebendo. Uma forma de suicídio sem dor e talvez com algum prazer, apesar da destruição do fígado. Eram pessoas ternas, sentimentais, risonhas e de humor ligeiramente cáustico que não conseguia esconder o desencanto. Marcelinho Cachaça, Murilo, Gelon, Doka, Abílio, todos eles mergulharam sem desespero na escuridão, de onde jamais sairam.

A lembrança deles me vem por causa do homem gordo que bebia cerveja no botequim da Rua Inhangá. Chegava por volta das sete horas da manhã, quando o bar abria as portas, sentava-se e lá ficava grande parte do dia. Olhava os passantes com ar de ironia, os que iam à praia, os corredores, os atletas do calçadão de Copacabana.

Às vezes ele acompanhava o copo de cerveja de um cálice de bebida branca. Cachaça, vodka, um destilado qualquer para aumentar o teor da cerveja.

Há dias que não o vejo.

sábado, 27 de março de 2010

Opinião pública


Ela se apresenta em ondas, parecidas com aquelas que se formam quando se joga uma pedra na água. E, como o mar, tem correntes às vezes contraditórias. Os políticos a temem porque dependem dela tanto para ganhar quanto para perder votos. Os místicos lhe tributam adoração. A mídia a corteja, ambiciona manipulá-la. Ela é irracional, violenta, avassaladora.

Circula e age dentro e na dependência da massa que, como toda massa, não tem forma nem energia. Mas ultrapassa e transcende a massa, esmaga a individualidade, movimenta-se em busca de sentido e antecipa as grandes mudanças.

Todos a temem, ela não tem rosto e é cavalgada por lideranças que a manejam, por aproveitadores que a bajulam e pelos que lhe fazem promessas de salvação. Ela vai em qualquer direção, mas nem sempre naquela que lhe foi apontada.

A opinião pública é um estranho animal, às vezes devora seus domadores.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Outono


O outono começou trapaceando, pois o calor com sensação de 46 graus é temperatura digna das mais quentes regiões da África. As praias continuam lotadas como no auge do verão, os bares de Copacabana batem recordes na venda de chope e as mulheres se vestem tão nuas como se vestiam para o sol de dezembro.

Não deveria ser assim, pois no outono as folhas deveriam cair e a estação chegar com suas chuvas, mas isto só acontece nos países que se encontram acima do equador, onde agora é primavera. No século XVI, as linhas da amizade dividiram o planeta. Ao norte, a origem da civilização e ao sul o território selvagem, terra de ninguém, livre de culpas, onde não existiria pecado, segundo o Papa Paulo III.

É bom saber que não existe pecado. Mas as estações do ano, com suas mudanças e diferenças, fazem falta. A quase inexistência delas não nos deixam perceber a passagem do tempo. Por que, então, os anos têm passado tão rápidos?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Índios

Os índios carajás e os tapirapés têm aldeias vizinhas nas proximidades de Santa Terezinha do Araguaia. São muito diferentes entre si, a começar pela lingua que falam. Os carajás se expressam em língua do tronco macro-jê e a dos tapirapés pertence ao tronco tupi. Todos falam português de forma arrevesada e os carajás estão muito mais próximos dos brancos do que os tapirapés.

Os carajás exibem sua decadência deambulando pelas ruas de Santa Terezinha, pela dentadura estragada, a aldeia desorganizada e suja e o vício de beber. Adoecem com facilidade. Pagam o preço de terem sido seduzidos e abduzidos pela civilização dos brancos e suas aparentes facilidades.

Os tapirapés são arredios, raramente vão à cidade, cultivam as tradições tupis e vivem da caça e da pesca na pequena reserva que conseguiram delimitar. No princípio dos anos 90, fui mais uma vez ao Araguaia. Estive com os tapirapés em sua aldeia, organizada e limpa. O cacique José Miguel – seu nome em língua portuguesa – agradeceu por todos um livro que encontrei num sebo do Rio e lhe dei de presente. Era o estudo de um antropólogo da USP sobre aquela mesma aldeia, realizado na década de 30. Tinha fotos dos antepassados e a relação de seus nomes. Os tapirapés não gostam de exibir sentimentos porém os mais velhos não esconderam sua emoção.