sábado, 24 de abril de 2010

Uma surpresa


A industria põe na rua tal quantidade de produtos das suas fábricas que foi preciso desenvolver técnicas para garantir que esses bens fossem vendidos na proporção em que iam sendo produzidos. Para isso foram criadas e desenvolvidas as técnicas que os americanos chamam de marketing, palavra que adotamos porque não encontramos outra melhor para definir este processo de produto, embalagem, preço, distribuição, publicidade e vendas.

Com a ajuda da pesquisa, as técnicas de marketing chegaram a conhecer profundamente o consumidor: suas preferências, hábitos, emoções, seus pensamentos profundos. A tal ponto que vender um produto transformou-se em equações matemáticas: para entrar num determinado mercado, uma empresa deveria aplicar um volume de dinheiro correspondente aos seus objetivos, comprando dessa forma participação nesse mercado. Era assim que as coisas eram.

De repente, com a pulverização dos meios de comunicação trazida pela internet, vem a surpresa que a McKinsey & Co., uma das maiores na área da consultoria, detectou em seus estudos: dois terços da economia do mundo sofre a influência direta das recomendações pessoais. Ou seja: o boca-a-boca, direto ou eletrônico, funciona melhor do que a mídia tradicional.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Carlos Pena Filho


Carlos Pena Filho morreu com trinta anos de idade, deixou quatro livros, o último deles com sua obra completa: Livro Geral. Quando reuniu tudo o que havia escrito num derradeiro volume, será que teve a intuição da morte, dali a pouco?

Conheci-o no Bar Savoy, uma instituição do Recife que hoje não existe mais, desapareceu junto com a deterioração do centro da cidade. Eu tinha dezoito anos, dez a menos do que ele. Adorava a boemia do Recife, pensava que ali era o meu lugar. Sobre o Savoy, ele escreveu o refrão no poema Chopp:

São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.


Dos poetas de Recife, ele foi um dos maiores entre tantos que marcaram presença na melhor poesia: João Cabral de Mello Neto, Joaquim Cardoso, Mauro Mota, Ascenso Ferreira e o próprio Manuel Bandeira.

Leia neste link alguns dos seus belos poemas: http://www.interpoetica.com/carlos_pena_filho.htm

sábado, 17 de abril de 2010

A cidade do futuro


Há cinquenta anos, quando Brasília foi inaugurada, a imprensa mundial lhe dedicou grandes matérias, pois era a capital de um país construida moderna, exibindo uma arquitetura surpreendente. Vista contra a paisagem do imenso planalto, a linha do horizonte recortava os edifícios e projetava uma grande beleza principalmente ao por do sol.

Sua construção conquistou o interior de um país colonizado no litoral e os governos militares que vieram depois lhe dedicaram grande prestígio, pois era um centro de poder longe do povo, a salvo, portanto, de manifestações de desagrado.

Há quem diga que Brasília é a maior cidade do interior de Goiás. Mas foi saudada como a cidade do futuro e o futuro é hoje. Estariam depositadas neste futuro as esperanças de cinquenta anos atrás?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Rodízio e quilo


Parece que tanto os restaurantes de comida a quilo quanto as churrascarias em rodízio foram invenções brasileiras. Representam uma solução de marketing que leva em conta a fome sem medidas da clientela pois, ao invés do comerciante, quem determina o preço ou o tamanho do prato é o freguês.

Dessas duas fórmulas bem sucedidas de vender comida, o rodízio, invenção dos gaúchos, já existe até na Russia e faz o regalo dos americanos, que esbugalham os olhos e enchem a barriga nas bem sucedidas churrascarias de Miami e Nova Iorque. A carne é um produto caro, nesses países. Quanto ao quilo a preço fixo, penso que ainda não conseguiu sucesso no exterior porque os empresários do ramo de restaurantes temem perder dinheiro nesse negócio. Em Paris, cidade orgulhosa das suas casas de pasto, anunciado como “à volonté”, faz sucesso o buffet a preço fixo. É o que há de mais parecido.

Já em Copacabana, há um restaurante a quilo e uma farmácia em cada esquina. Não existe muita relação entre esses dois negócios, mas ambos são do agrado dos velhinhos do bairro, que garantem a saúde pagando apenas pelo que comem, sem maior desperdício. E dão sempre uma passada na farmácia.

domingo, 11 de abril de 2010

Depois da chuva


A atmosfera lavada abre um céu limpo e azul depois da trágica semana de abril. A amena temperatura substituindo os dias de forte calor inaugura finalmente o outono no Rio mas esta é no momento uma cidade triste. Impossível dar boas vindas com alegria a um céu azul e limpo depois da notícia de tantos mortos.

Uma cidade construida sobre pântanos e mar, crescendo sobre aterros, soterrando rios, avançando sobre os lagos. As enchentes de hoje são o movimento das águas na procura do seu espaço antigo sobre a terra improvisada.

Um amigo me diz que o Morro do Bumba, em Niterói, é uma metáfora perversa de como construimos a nossa sociedade. Uma vila sobre o lixo, construção precária tentando viver sobre detritos que se decompõem e se preparam para destruí-la.

O mar cresce, invade as praias. O limpo céu azul tomou o lugar das núvens negras que trouxeram consigo a destruição.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O melhor livro do mundo


Sua figura curva sobre o cavalo magro ainda hoje é lembrada e a história dos seus feitos continua sendo lida e cultuada. Louco, de porte desengonçado e uma bacia de barbeiro sobre a cabeça servindo-lhe de elmo, completando a velha armadura feita de lata velha, o Quixote continua a povoar o imaginário das gentes.

A compulsão de corrigir as injustiças do mundo aliada ao delírio insano da demência nos encanta porque o mito do herói nos acompanha desde muito cedo. Impossível viver sem a esperança de que todo mal seja combatido e toda injustiça compensada, apesar da dualidade do mundo e da vida.

A história do Quixote contada por Cervantes foi indicada como o melhor livro de todos os tempos, por uma comissão de críticos literários de inúmeros países. Talvez por ter descrito tão bem como são difusas as coisas do mundo, dando razão a Erasmo, que escreveu em seu Elogio da Loucura, em 1509:

"Todas as coisas humanas têm dois aspectos... para dizer a verdade todo este mundo não é senão uma sombra e uma aparência; mas esta grande e interminável comédia não pode representar-se de um outro modo. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos nos assegurar de nenhuma verdade."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Livros e e-books


O comércio eletrônico no Brasil cresceu 30 por cento no ano passado e nesta conta não foi incluída a venda de passagens aéreas. Os jornais continuam em queda, a televisão perde audiência e o crescimento dos e-books, nos Estados Unidos, foi de 261 por cento em 2009, na comparação com o ano anterior.

Para uns, o crescimento do livro eletrônico é assustador, pois ameaça a existência do livro. Como seria a humanidade sem livros? É a pergunta que se fazem os bibliófilos, os que amam as estantes carregadas de volumes, por onde passeiam, sonham, consultam e sentem-se felizes.

Hoje, são apenas 3 por cento do mercado de livros os leitores de e-books. Mas o crescimento é enorme e surpreende até os especialistas, que discutem e buscam novas formas de comercialização. Os autores se indagam como irão escrever no futuro, quando o livro poderá não existir mais, ou ter sua importância relativizada.

O livro, como plataforma para leitura, substituiu o papiro, copiado por centenas de escravos que, em Roma, tornavam possível difundir a obra de Virgílio, Horacio ou Ovídeo. Gutemberg trouxe uma revolução que substituiu o papiro. Estaríamos diante de outra, que substituirá o livro?

No dia do Natal de 2009, a venda de e-books na amazon.com superou pela primeira vez a venda de livros.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

As dúvidas do embaixador


Um diplomata que passou mais de vinte anos fora do país disse na volta que ainda não se reacostumara com duas manias dos brasileiros. Para protestar contra o atraso do trem, os brasileiros quebram o trem; e não havia como entender o hábito dos homens de coçar em público a genitália.
Também o impressionava o culto da Índia e do hinduismo por um segmento da classe intelectualizada, num misticismo alternativo que busca entender o mundo e a si mesmo com a importação de uma religião exótica. Quando voltou da Índia e passou pelo complexo da maré, disse ele, viu como aquelas construções eram melhores do que as casas da classe média de Deli. Pensou que o hinduísmo poderia ter tomado, naquelas favelas, o lugar das seitas evangélicas dominantes.
O embaixador morreu sem entender por que o homem brasileiro usa gravata no clima tropical do país, por que quebram os trens para protestar e por que não cultivavam o hábito lavar a genitália.

terça-feira, 30 de março de 2010

O homem que bebia cerveja


Conheci gente que resolveu se matar bebendo. Uma forma de suicídio sem dor e talvez com algum prazer, apesar da destruição do fígado. Eram pessoas ternas, sentimentais, risonhas e de humor ligeiramente cáustico que não conseguia esconder o desencanto. Marcelinho Cachaça, Murilo, Gelon, Doka, Abílio, todos eles mergulharam sem desespero na escuridão, de onde jamais sairam.

A lembrança deles me vem por causa do homem gordo que bebia cerveja no botequim da Rua Inhangá. Chegava por volta das sete horas da manhã, quando o bar abria as portas, sentava-se e lá ficava grande parte do dia. Olhava os passantes com ar de ironia, os que iam à praia, os corredores, os atletas do calçadão de Copacabana.

Às vezes ele acompanhava o copo de cerveja de um cálice de bebida branca. Cachaça, vodka, um destilado qualquer para aumentar o teor da cerveja.

Há dias que não o vejo.

sábado, 27 de março de 2010

Opinião pública


Ela se apresenta em ondas, parecidas com aquelas que se formam quando se joga uma pedra na água. E, como o mar, tem correntes às vezes contraditórias. Os políticos a temem porque dependem dela tanto para ganhar quanto para perder votos. Os místicos lhe tributam adoração. A mídia a corteja, ambiciona manipulá-la. Ela é irracional, violenta, avassaladora.

Circula e age dentro e na dependência da massa que, como toda massa, não tem forma nem energia. Mas ultrapassa e transcende a massa, esmaga a individualidade, movimenta-se em busca de sentido e antecipa as grandes mudanças.

Todos a temem, ela não tem rosto e é cavalgada por lideranças que a manejam, por aproveitadores que a bajulam e pelos que lhe fazem promessas de salvação. Ela vai em qualquer direção, mas nem sempre naquela que lhe foi apontada.

A opinião pública é um estranho animal, às vezes devora seus domadores.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Outono


O outono começou trapaceando, pois o calor com sensação de 46 graus é temperatura digna das mais quentes regiões da África. As praias continuam lotadas como no auge do verão, os bares de Copacabana batem recordes na venda de chope e as mulheres se vestem tão nuas como se vestiam para o sol de dezembro.

Não deveria ser assim, pois no outono as folhas deveriam cair e a estação chegar com suas chuvas, mas isto só acontece nos países que se encontram acima do equador, onde agora é primavera. No século XVI, as linhas da amizade dividiram o planeta. Ao norte, a origem da civilização e ao sul o território selvagem, terra de ninguém, livre de culpas, onde não existiria pecado, segundo o Papa Paulo III.

É bom saber que não existe pecado. Mas as estações do ano, com suas mudanças e diferenças, fazem falta. A quase inexistência delas não nos deixam perceber a passagem do tempo. Por que, então, os anos têm passado tão rápidos?

segunda-feira, 22 de março de 2010

Índios

Os índios carajás e os tapirapés têm aldeias vizinhas nas proximidades de Santa Terezinha do Araguaia. São muito diferentes entre si, a começar pela lingua que falam. Os carajás se expressam em língua do tronco macro-jê e a dos tapirapés pertence ao tronco tupi. Todos falam português de forma arrevesada e os carajás estão muito mais próximos dos brancos do que os tapirapés.

Os carajás exibem sua decadência deambulando pelas ruas de Santa Terezinha, pela dentadura estragada, a aldeia desorganizada e suja e o vício de beber. Adoecem com facilidade. Pagam o preço de terem sido seduzidos e abduzidos pela civilização dos brancos e suas aparentes facilidades.

Os tapirapés são arredios, raramente vão à cidade, cultivam as tradições tupis e vivem da caça e da pesca na pequena reserva que conseguiram delimitar. No princípio dos anos 90, fui mais uma vez ao Araguaia. Estive com os tapirapés em sua aldeia, organizada e limpa. O cacique José Miguel – seu nome em língua portuguesa – agradeceu por todos um livro que encontrei num sebo do Rio e lhe dei de presente. Era o estudo de um antropólogo da USP sobre aquela mesma aldeia, realizado na década de 30. Tinha fotos dos antepassados e a relação de seus nomes. Os tapirapés não gostam de exibir sentimentos porém os mais velhos não esconderam sua emoção.

sábado, 20 de março de 2010

Beleza

De vez em quando as vejo, as divas de outrora. Algumas guardam algo da beleza de antigamente, outras são hoje belas ruínas. Umas são muito tristes, outras conseguem viver o tempo presente e de alguma forma se recusam a continuar na ilusão de que coninuam belas, poderosas e desejadas.

A passagem dos anos é muito cruel para as mulheres bonitas que investiram toda a sua vida na esperança de que assim seriam para sempre. A fugacidade as surpreende na esquina da vida. Compreender e conseguir viver este encontro com o futuro é privilégio de poucas.

A mesma coisa ocorre também com os homens bonitos. Os galãs que arrasaram corações femininos não conseguem compreender por que não são mais olhados, admirados e desejados pelas mulheres com quem hoje cruzam nas ruas. E sentem-se perdidos na tempestade do tempo.

Esta reflexão me ocorre agora, depois de ver, na rua, uma das mulheres mais belas do meu tempo.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A Ilha do Medo


A atmosfera de pesadelo e de mistério perpassa o filme e lhe transfere o rítmo que captura e prende a atenção do espectador até o fim. O que é um bom filme? Aquele que diverte, transporta a vivência de quem o assiste ou o que faz pensar? A magia do cinema situa-se dentro desses limites e A Ilha do Medo (Shutter Island), apesar de algumas teorias discutíveis sobre a doença mental, chega muito perto, talvez seja mesmo um grande filme.

Martin Scorsese é um dos expoentes da geração de cineastas que revitalizou o cinema amaericano, da qual também fazem parte Francis Ford Coppola, Brian de Palma, George Lucas e Steven Spielberg. É cineasta em tempo integral: estudou na escola de cinema da Universidade de Nova Iorque, mantém uma fundação para a preservação dos filmes mudos, é fã do neo-realismo italiano e de Glauber Rocha. Quase teve de encerrar a carreira depois do escândalo causado por um dos seus melhores filmes, A última tentação de Cristo.

Em A Ilha do Medo, Scorsese volta na sua melhor forma e dirige Leonardo de Caprio numa excelente performance. Os atores americanos ficam bons na medida em que envelhecem, como acaba de também provar Jeff Bridges em Coração Louco (Crazy Heart).

segunda-feira, 15 de março de 2010

A Tríade

Os chineses desapareceram das ruas de Copacabana. Eles eram muitos – homens e mulheres jóvens – e vendiam bugigangas eletrônicas pelos bares e ruas. Poucos falavam algumas palavras em português mas todos sabiam dizer o preço das mercadorias, contar dinheiro e fazer o troco.

Eram imigrantes ilegais. Sob o rosto impassível dos orientais, não conseguiam disfarçar uma certa preocupação ao verem um policial. Eles sumiram depois que Law King Chong, que dizem ser o maior contrabandista do país, foi preso em São Paulo. Uma coincidência.

A entrada ilegal no Brasil é organizada pela Tríade, nome pelo qual é conhecida internacionalmente a máfia chinesa. Ela não é tão bem organizada quanto a italiana mas está presente em todas as comunidades chinesas extorquindo comerciantes. Sua principal atividade é o tráfico humano. Hong Kong é o centro das suas atividades.

sábado, 13 de março de 2010

Galinha mourisca

Sábado, dia propício à cozinha, eis aqui uma receita portuguesa da forma como se fazia no século XV, antes, portanto, da descoberta das novas terras por Pedro Álvares Cabral. Os mouros ainda influenciavam Portugal.

Tome uma galinha crua e faça-a em pedaços.

Em seguida prepara-se um refogado com duas colheres de manteiga e uma pequena fatia de toucinho. Deita-se dentro a galinha e deixa-a corar.

Cubra-se a galinha com água suficiente para cozê-la, pois não se há de deitar-lhe outra. Estando a galinha quase cozida, tome-se cebola verde, salsa, coentro e hortelã, pica-se tudo bem miudinho e deita-se na panela, com um pouco de caldo de limão.

Acabe de cozinhar a galinha muito bem.

Tome então fatias de pão e disponha-as no fundo de uma terrina, e derrame sobre elas a galinha.

Cubra com gemas escalfadas e polvilhe com canela.

quinta-feira, 11 de março de 2010

As pílulas da liberdade


Conversando com o amigo, ele diz que as mulheres e os velhos hoje são livres mas nem sempre o foram. Devem sua liberdade atual a duas pequenas pílulas: a anti-concepcional e o Viagra. Ele se referia, claro, à liberdade sexual, pois foi através daqueles comprimidos que as mulheres se libertaram da virgindade tardia e os velhos da castidade a que estavam condenados na última fase da vida.

O símbolo da liberdade, portanto, deveria ser a cobra da farmácia e não a estátua que se encontra na entrada do porto de Nova Iorque. Esta tem conotações políticas e representa uma noção de liberdade que faz os Estados Unidos invadirem outros países, enforcarem o presidente e obrigarem o povo a ser livre.

A liberdade, como se vê, tem seu preço. O crescimento da aids na terceira idade tem preocupado as autoridades da saúde pública, embora em contrapartida cresça também a quantidade de velhinhos com ar de felicidade.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais um gôl argentino


O cinema argentino passa por um grande momento, não só pelo Oscar de melhor filme estrangeiro que O Segredo de seus olhos acaba de ganhar. A produção do país dispõe de excelentes atores, roteiristas e técnicos e com realizadores do porte de Juan José Campanella, o inspirado diretor que antes já surpreendera as platéias com O Filho da Noiva e Lua de Papel.

O Segredo de seus olhos é uma obra baseada num roteiro complexo, de grande riqueza em seus detalhes e na sutileza da sua linguagem. Passa em revista profundos sentimentos humanos, em um pano de fundo da recente história argentina, tão trágica como a nossa e como a de outros países nossos vizinhos.

É um cinema de qualidade. Uma narrativa em que se misturam paixão, mistério, amizade, riso e amor sem esperanças. Mereceu o Oscar. O prêmio talvez sirva também para mostrar a Hollywood que o uso do talento e da sensibilidade podem resultar num filme melhor e mais barato do que as produções grandiosas e sem imaginação.

sexta-feira, 5 de março de 2010

As brancas


Doka, velho boêmio, aconselhava a tomar cuidado com as brancas. Referia-se a gin, vodka, tequila, todas as aguardentes que à distância se parecem com água. Elas são perigosas, dizia, pois a embriaguês que provocam se confundem muitas vezes com a pura e simples loucura.

Doka foi dono de um bar que sofreu intervenção da família, pois ele era também o seu maior cliente e estava falindo a casa. Posto fora do balcão, foi obrigado a pagar pelo que bebia.

Quando se inscreveu nos AA, dizia que sua força de vontade prevalecera. Era capaz de sentir desprezo por qualquer bebida, só o cheiro de cachaça o comovia, a ponto de sonhar todas as noites com um cálice cheio dela, transparente e branca, cujo odor lhe penetrava e perturbava o sono.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A pracinha do jogo


A pracinha tem o nome de Manoel Campos da Paz, sanitarista que fez campanhas contra a febre amarela, quadro do Partido Comunista, pelo qual foi eleito vereador no Rio de Janeiro. Um médico ilustre, humanista que merece a homenagem. A praça tem um ar tranquilo, algumas mesas de cimento e uma forte vocação para o jogo.

Talvez tenha começado com os motoristas de kombis de aluguel que lá faziam ponto. O baralho ajudava a enfrentar o tédio na espera de clientes e aos poucos a pracinha com o nome do bom médico foi se transformando numa área de jogo que se ampliou pela vizinhança.

Um ponto de jogo-do-bicho e uma inocente loja de venda de jogos eletrônicos, onde as crianças trocam figurinhas, convivem com as mesas ocupadas pelo baralho. Há um botequim frequentado pelos amantes do jogo de damas e, de vez em quando, a polícia perturba a tranquilidade da pracinha e intervém para interromper um veloz jogo de cartas onde o dinheiro troca de mãos com incrível rapidez.