Sua agonia foi com a mesma coragem do menino com quem compartilhei
a infância e foi meu amigo durante toda a vida. Comportou-se até o fim sem medo
do confronto, afirmando sua humanidade perante o desconhecido.
Seu rosto de criança se revela na minha memória. Os cabelos
de fogo, a face sardenta, o olhar inquieto e a curiosidade diante da vida. Seus
embates e os meus cuidados de irmão mais velho. Ele me ensinou que a vida não é
absoluta, pode ser desafiada e nisso reside a nossa vitória.
Agora o vejo partindo sem lamento, silencioso e grave. Suas
palavras estão nos livros e nos textos que publicou mas o melhor se perdeu: o
humor inteligente e ferino, o riso aberto e contagiante, o jeito de olhar com
ironia para a tristeza da vida, o encanto da sua presença. Vejo, na névoa do
tempo, o adeus da criança pequena que já compreendia o mundo. Descansa, meu
menino, meu amigo, criança valente, pela última vez enfrentaste sem medo a
escuridão.









