quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Meu irmão


Sua agonia foi com a mesma coragem do menino com quem compartilhei a infância e foi meu amigo durante toda a vida. Comportou-se até o fim sem medo do confronto, afirmando sua humanidade perante o desconhecido.

Seu rosto de criança se revela na minha memória. Os cabelos de fogo, a face sardenta, o olhar inquieto e a curiosidade diante da vida. Seus embates e os meus cuidados de irmão mais velho. Ele me ensinou que a vida não é absoluta, pode ser desafiada e nisso reside a nossa vitória.


Agora o vejo partindo sem lamento, silencioso e grave. Suas palavras estão nos livros e nos textos que publicou mas o melhor se perdeu: o humor inteligente e ferino, o riso aberto e contagiante, o jeito de olhar com ironia para a tristeza da vida, o encanto da sua presença. Vejo, na névoa do tempo, o adeus da criança pequena que já compreendia o mundo. Descansa, meu menino, meu amigo, criança valente, pela última vez enfrentaste sem medo a escuridão.
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