sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O sacrifício


O sentimento de que nada existe para sempre e tudo tem um fim, dependendo só da passagem do tempo, estimula a fantasia do infinito, da possibilidade de outras vidas e até de outras dimensões do eterno. A certeza da morte de tudo e a consciência da solidão do planeta num universo desconhecido plantaram a tristeza dos homens. A invenção da divindade, ao invés da libertação pela transcendência, criou a existência do pecado, da culpa e o fantasma da danação.

A dimensão trágica nos olhos de uma criança acossada pelo sofrimento desperta questões sobre a crueldade, a fatalidade e a existência de Deus. Ao afirmar que o mundo quebra indiferentemente os muito meigos, os muito bons e os muito bravos, Hemingway trazia para o plano individual uma síntese de toda a angustia humana e refletia sobre a inutilidade da virtude diante da tragédia do destino.Talvez o alcoolismo que o atormentava tivesse aí um dos seus fatores.


A tradição religiosa do ocidente crê na vida como uma consequência da morte. O sacrifício do filho mais amado de Deus foi a forma de purgar as imperfeições éticas de um mundo que continuou como era. Alguns chegam a dizer que pior. Talvez esta crença na salvação que só é possível com o oferecimento de uma vida em troca do perdão esteja na origem de todas as ilusões do mundo e seus sacrifícios inúteis. 
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