domingo, 18 de outubro de 2015

A Nona


Trazer de volta momentos vividos é uma das notáveis emoções que a música desperta. Sensações desorganizadas de lembranças e reflexões guiadas pelo sentimento que o momento conduz. Da mais alta montanha ao vale mais profundo, como nos sugere o início da Sinfonia nº 1 de Brahms. Quando a compôs, ele quis homenagear Beethoven, que venerava e que morrera seis anos depois de seu nascimento. O maestro Von Bülow, alemão como os outros dois, dizia que a primeira sinfonia de Brahms era também a décima de Beethoven, que só compôs nove sinfonias.

É sobre a Nona Sinfonia que eu gostaria de falar. Sobre as imagens despertadas na memória e seus recantos inconscientes onde jazem as mais estranhas emoções. Nos primeiros acordes há uma praia deserta com dunas brancas no fim da tarde iniciando a noite, quando quatro jovens quase bêbados, saturados da magia do mundo, calavam-se, entregavam-se à música e olhavam para o mar escuro e calmo. Não havia pensamentos sombrios em Arraial do Cabo, Praia Grande, anos 70.


O poema de Schiller que Beethoven usou para o último movimento da Nona traz consigo a lembrança de momentos felizes. Quais momentos? Embora sem conseguir defini-los com clareza, há no entanto a consciência de que nascemos para desafiar destinos incertos e afirmar perante eles a nossa própria humanidade. Schiller chamou seu poema de À Alegria e Beethoven mandou cantar a Ode à Alegria, como passou a ser chamado, por um coral de vozes masculinas e femininas, pela primeira vez na história das sinfonias. Como a nos dizer que a voz humana é um dos mais belos instrumentos da música.
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