terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Natal

Um acesso de pranto cerca a vida
no momento em que a criança nasce
para o sacrifício dos dias.

O sono do qual acorda
leito de palha, pasto de animais -
despertará também neste Natal.

Não para a festa de guirlandas,
das vitrines de alabastro
e neve de algodão.

É uma criança de face
e expressão perdidas,
lembradas apenas nos escritos.

Na memória dos feridos,
no pesadelo dos mudos
e no olhar dos perseguidos.

Esperança. Palavra repetida,
proclamada nos ritos,
nas igrejas e comícios.

Pouco proferida no dezembro
do calendário dos anos: mil
novecentos e oitenta e cinco.

Uma vez ainda no Natal,
tão próximo da morte e da Paixão,
a memória e o tempo se confundem.

Mas encontram-se nas ruas,
no asfalto das cidades,
na chama das velas de eletricidade.

Entenderemos o pranto do recém-nascido,
perscrutaremos o olhar de espanto e medo
com esta palavra traduzindo tudo.



(in O Último Número)
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