quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O destino

Desde o primórdio dos tempos que o homem especula sobre o próprio futuro. Consultas a oráculos e pitonisas, investigação das nuvens, dos astros e das entranhas de pássaros aplacavam ou faziam crescer a sua angústia diante do destino. A ignorância sobre o que vai lhes acontecer ainda provoca ansiedade às pessoas e elas tentam decifrar o mistério do desconhecido.

Homens poderosos, guerreiros do porte de Alexandre Magno, líderes como Julio Cesar e Otávio, todos procuraram perscrutar o futuro. Felizes quanto às boas novas, amedrontados diante de perigos anunciados, confiavam cegamente nos adivinhos. Até hoje os donos do poder e do dinheiro cedem ao medo diante das brumas do que virá. São terreno fértil para a exploração de videntes e profetas.


Aristóteles, entre os filósofos da antiga Grécia, foi um dos que duvidaram da ação dos deuses sobre a sorte dos homens e estudou o herói das tragédias. A responsabilidade pelo que pode acontecer no futuro, disse, encontra-se nas ações humanas e resumia esse conceito afirmando que o destino do homem é o seu caráter.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Universos

Quando olhamos para a representação gráfica do universo, sentimos nossa insignificância e fragilidade. E também a desimportância do nosso pequeno planeta diante da enorme constelação de galáxias e da comprovada existência de outros universos diferentes e distantes deste em que vivemos.

Somos uma partícula de poeira, milagre inexplicável, acidente fortuito numa constelação infinita de possibilidades nunca resolvidas. Não entendemos por quê existimos e a idéia de Deus não é suficiente para explicar o milagre da sobrevivência no cosmos, no caos e no enorme concerto interplanetário.


A inexplicável existência de diferentes universos, sistemas distantes que nossa imaginação não consegue realizar aprofunda nosso isolamento. Somos uma espécie de macacos evoluidos num ambiente infinito que não conseguimos compreender. Olhamos para o céu e perguntamos se existirá algo parecido com a vida em outros mundos e esta pergunta torna maior ainda a nossa solidão.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Ética


Fizeram uma pesquisa na Inglaterra entre ateus para saber de onde vêm seus valores morais. A maioria respondeu que vinham dos pais, outros mencionaram os livros. Mas não se falou de algo que perpassa todos as crenças humanas, junto ou acima das religiões, das ideologias e todo tipo de fé, a grande aspiração da humanidade por melhorar sua breve existência.
O homem tem a intuição de que não será possível compreender o mundo sem consciência ética. Platão formulou a tese de Sócrates “o belo é o bom” e depois acrescentou que o bem produz o belo. Não seria necessária, pois, a intervenção divina para dizer ao homem o que ele deve considerar certo ou errado, nem as leis nem os costumes seriam condicionantes da melhor conduta humana.
O bicho humano, animal feroz e predador, traz consigo a extraordinária angústia de superação. Conhece suas limitações, suas inclinações para a perversão mas não é isto o que deseja ser. Inventou a divindade como ente supremo e modelo para si mesmo, sabendo que jamais poderá atingir a perfeição. Esta é a sua condenação, exposta dramaticamente por Lúcifer, o anjo portador da luz que ousou desafiar Deus e mergulhou na escuridão.

sábado, 29 de novembro de 2014

Fim de ano

Copacabana prepara-se para comemorar o fim de mais um ano. Com seus contrastes, tumulto, a soma dos seus crimes e mau comportamento. O verão também se aproxima, o sol ainda não caprichou na força dos seus raios mas já se vê pelas ruas o branco dos turistas estrangeiros que nesta época aparecem em busca de calor.

O bairro alegre prepara-se para a saudação espetacular do ano novo com milhões de pessoas pela praia e o detonar das girandas de fogos. As religiões africanas arrumam suas flores e seus barquinhos de Iemanjá. O bairro triste se tranca nos pequenos apartamentos em que se abrigam os velhos que buscam a tranquilidade inexistente.


Já se enchem os botequins, bandos de jovens juntam-se em rituais de acasalamento e meninos favelados preparam seus arrastões e suas táticas para fugir dos policiais. Como faz todos os anos, Copacabana se prepara para o tempo maior da sua vocação de festa, tumultos, miséria, alegria e caos.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

o século

O século 20 foi muito curto. Durou apenas setenta e três anos. Começou em 1918, com o fim da Primeira Guerra, que enterrou o romantismo da “belle époque” e os valores do século anterior. Terminou com o desmanche da União Soviética, em 1991. Deu lugar a um tempo sem a ameaça de conflitos mundiais porem a paz continuou a ser um sonho de nefelibatas.

Os anos 1900 criaram e deram sentido à palavra genocídio e viram a tecnologia promover destruições em massa. Foram os anos em que floresceram o nazi-fascismo e os crimes praticados pelos regimes comunistas que se corromperam. Foi a época sombria em que nascemos, os da minha geração que ainda estamos vivos.


O século atual não será menos infeliz, apesar das conquistas da ciência avançando mais rápida que a humanidade. Os fundamentalismos de toda espécie, os conflitos entre culturas, povos e civilizações, crueldade e ódio, êxodo e fome estão se afirmando como a marca do século 21, que está apenas começando.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A caça

Entre tantas culpas que talvez me levem ao inferno, uma que de vez em quando me assalta é a do dia em que matei uma pequena ave que pastava na floresta às margens do Araguaia: uma galinhola, como a chamam na região, um inhambu, como a chamavam os da minha terra. Uma violência contra uma ave tranquila.

Armado para a caçada, fiz o disparo fatal. E mais tarde a comemos, nós os da expedição de pesca transformados por uma breve manhã em caçadores. Pensei na cena em que ela foi morta – distraída e tranquila no meio da verde vegetação da margem do rio. Mas o arrependimento não foi bastante para inibir o prazer de saciar a fome com a sua carne.


Pois para isto fomos feitos, animais que sobrevivemos desde o amanhecer da existência com a morte de outros seres vivos. Domesticamos aves e bichos para devorá-los, dividimos sua carne em pedaços que não possuem sequer a memória dos seus corpos. E amamos pensar que somos diferentes dos outros predadores ferozes dessa estranha natureza que habitamos.