quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O poder do Estado


O governo anuncia aumento de impostos sobre o fumo e a bebida com o fim de angariar dinheiro e inibir esses hábitos.
As proibições cercam o homem civilizado. Foram-lhe cassados os direitos de fumar, beber ou comer de acordo com seus desejos.

As regras limitam sua existência. Educar significa repressão e lhe são exigidos diferentes comportamentos de acordo com o ambiente em que se encontra.

O Estado existe para a prática da dominação. Tem o poder de obrigar as pessoas a fazer ou deixar de fazer alguma coisa mesmo contra a própria vontade. Foi criado pela força e não por um contrato social, como queria Rousseau.

domingo, 4 de setembro de 2011

Encontro


De roupas sujas, barba de uns três dias e olhos arregalados, Marquinhos passou por mim na Barata Ribeiro. Parava de vez em quando, abria as pernas, levantava os braços e dava um grito. Bem diferente da semana passada, quando o vi de roupa limpa, sóbrio e compenetrado.

Ele desaparece de vez em quando, provavelmente internado. Quando volta, aparenta certa calma até que volta a xingar os passantes naquela algaravia que constitui sua linguagem. E torna a dirigir o trânsito e esculhambar os motoristas.

Em seus altos e baixos, na angústia expressa em sua face e nos seus gestos, Marquinhos parece nos ensinar como a vida não tem lógica e como é confusa a cidade em que vivemos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Escultores



Os turistas param, tiram fotos e se admiram com as formas femininas tão bem reproduzidas. Alguns deixam dinheiro e é assim que vivem os escultores da areia, artistas da praia que dela se sustentam.

Há poucos anos, em nome da ordem, um secretário da prefeitura destruiu com chutes essas frágeis esculturas. Mas as críticas que recebeu inibiu outros choques e os artistas refizeram suas obras.

Michelangelo esculpiu em mármore e suas estátuas são eternas. Os escultores da areia de Copacabana precisam continuamente refazer as suas. À noite, elas são destruidas pelo vandalismo e o simples prazer dos bêbados que percorrem drogados a madrugada. E os artistas recomeçam na manhã seguinte. Fazem um monte de areia, recolhem água do mar para umedecê-la e tornam a esculpir sua visão da cidade, das mulheres e do mundo.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Um jazigo


Em um pequeno cemitério de animais foi enterrado o amigo Leitão. É um lugar calmo, mais tranquilo do que o cemitério dos humanos. Lá não existem as multidões do Dia de Finados nem os cortejos que acompanham o enterro dos poderosos.

Para seu jazigo, que Fernanda escolheu e organizou, fiz uma tradução livre do poema de Lord Byron na morte do seu cão Boatswain:

Aqui estão os restos de quem
tinha beleza sem vaidade,
força sem insolência,
coragem sem ferocidade
e todas as virtudes dos humanos
sem os seus defeitos.


Há um ditado galego que diz “quem a seu cão abandona, nem da própria mãe merece ter reverência”.

sábado, 6 de agosto de 2011

Uma cidade


A noite começava na Rua da Aurora, separada da Rua do Sol pelo Capibaribe, em cujas margens esperávamos o nascer do dia. O pouco dinheiro era bastante. A madrugada era uma festa e nós vivíamos na madrugada.

Havia os bares e seus habitantes, o calor da tarde e a brisa, o chope do Bar Savoy. O mar era distante, existiam apenas os dois rios que fazem o desenho de uma cidade das águas. E tinha os sobrados e os bares da ilha onde ficava o porto e onde a boemia celebrava a vida em um bairro que parecia deserto.

Quem teve a sorte de viver em Recife quando muito jovem, como aconteceu com Hemingway em relação a Paris, para onde for levará consigo uma festa em movimento. Pelo o resto da vida.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Homenagens


A moça deu as costas para a estátua de Drummond, no Posto Seis, e olhou-a por cima do ombro enquanto suas amigas fotografavam. Na pose que ela fazia, o poeta, discreto como foi em vida, olhava com interesse para as suas nádegas. Penso que foi uma bela homenagem a quem escreveu um dia num poema

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

Enquanto Drummond está sempre a ser fotografado na companhia das mulheres, a estátua de Caymmi não tem a mesma sorte, respirando o odor de peixe da colonia de pescadores. E o soldado ferido na esquina da Siqueira Campos, memória dos mortos da revolta de 1922, é o preferido dos pombos.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Nina


Ela possui um olhar meio vazio, como se olhasse e não visse. É bem velhinha, vestida com elegância numa roupa esportiva branca. O andar é curvado, como se o corpo tivesse encolhido na passagem do tempo mas caminha com alguma firmeza no calçadão de Copacabana.

Tem um cartão pendurado no pescoço com seu nome – Nina – e um endereço na Avenida Atlântica. Alguém da família teve a preocupação de escrever essas informações, provavelmente para obter ajuda no caso de Nina se perder na caminhada e não se lembrar onde mora.

A desorientação é um dos sintomas do Mal de Alzheimer, junto com a facilidade de se perder mesmo em ambientes conhecidos. Dizem os médicos que 3 por cento das pessoas entre 65 e 74 anos são acometidas pela doença. Após os 85, metade.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Ódio


Vicente me contou. Ao caminhar no calçadão, chocou-se violentamente com um homem que vinha em sentido contrário. Teve inexplicavel acesso de fúria e percebeu que o mesmo acontecia com o homem. Iam entrar em violenta luta corporal se não tivessem sido contidos e separados.

Voltou a caminhar e recordou um conflito da adolescência, quando se envolveu em luta insana e feroz com um desconhecido. Já não se lembra do motivo, mas que foram separados machucados e sangrando.

A memória veio como uma síncope. Era ele, o mesmo adolescente, agora também envelhecido, no calçadão de Copacabana. O acaso fez com que se chocassem e a mesma fúria refluira como se despertasse. Vicente, de natureza tranquila, diz que tem uma certeza: se voltarem a se encontrar, prosseguirão o confronto com o mesmo ódio que vai levá-los até o fim.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Copacabana no frio


Nesses dias de frio, em que nos esquecemos do intenso calor que nos castigou em janeiro, os casacos sairam do armário e Copacabana perde sua identidade. As mulheres, habitualmente quase despidas, desfilam em toalete paulista.

As velhinhas do bairro demonstram maior padecimento, como se o clima acentuasse as rugas do tempo vivido. No calçadão, os andarilhos usam mangas compridas e marcham em rítmo mais acelerado.

Gotejando suor, com os olhos esbugalhados, Marquinhos, o maluco da vizinhança, atravessou hoje quase correndo a pequena praça Manuel Campos da Paz. Vestia um terno de linho branco, todo amassado mas limpo. Usava também uma gravata vermelha fina e suja. O frio não lhe dizia respeito.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um cão chamado Leitão


Ele trouxe afeto e companhia a quem precisava. Pouco pedia em troca e nos olhava demoradamente. Parecia procurar saber em que pensávamos, o que nos preocupava ou entristecia.

Durante anos fizemos companhia um ao outro. Sabíamos nos entender e nos comunicar um com o outro pelo simples olhar e nossos momentos foram divertidos e bons. Com as atribulações da vida, sofreu grande solidão quando foi praticamente abandonado nas montanhas. Fernanda o acolheu e amou e agora é quem mais sofre com a sua morte.

Nos últimos anos, teve vida sossegada e feliz mas a velhice aproximou-se com seus estragos. Sabemos que a morte só existe porque existe a vida mas não nos acostumamos à resignação.Vale homenageá-lo com a lembrança de um amigo que nos ensinou como uma simples presença pode nos fazer felizes.

sábado, 2 de julho de 2011

O herói


Os gregos da antiguidade diziam que nada se deve temer, pois os heróis já enfrentaram todos os perigos antes de nós. O mito do herói sempre esteve presente em todas as civilizações e de Teseu a Luke Skywalker ele enfrentou todas as vicissitudes.

Não existem várias histórias diferentes vividas pelos heróis, mas apenas a única história de um só herói que se repete e nas quais o narrador coloca muito de si mesmo.

Joseph Campbell estudou toda a mitologia do herói para nos dizer que a única história, mil vezes repetida, é a da personagem que se lança na aventura, enfrenta inimigos, experimenta enormes provações e volta para casa depois de transcender a existência comum. A história é sempre a mesma. O que muda é a maneira de contar.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O cão



O cão pertence a um mendigo mas costuma andar sozinho pelas ruas de Copacabana. Encontra-se com o dono já tarde da noite, quando ambos se abrigam embaixo da marquise de um edifício comercial da Barata Ribeiro.

O mendigo tem uma carroça carregada de sacos, embalagens usadas, panos velhos, latas, caixas vazias. Ele e o cão vivem segundo um acordo em que um protege o outro. O cão precisa de um dono e o mendigo precisa do cão para dormir tranquilo debaixo da marquise.

De aparência bem tratada, o pelo amarelado e brilhante, o cão se afasta durante o dia. Anda pela calçada com a determinação de quem vai a algum lugar. Desvia-se dos transeuntes, espera abrir o sinal para pedestres e só então atravessa a rua.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Corporações


À maneira dos cães, os homens possuem o instinto da matilha e se reunem para agir, sobreviver e lutar contra as ameaças. Desde as origens se juntou em tribos e as corporações são hoje a melhor expressão desse primitivo instinto.

As empresas procuram unir suas equipes sob o estímulo emocional dos sacerdotes da área de Recursos Humanos. No Japão, algumas companhias fazem seus empregados cantarem o hino da fábrica antes do trabalho e nos EUA as convenções anuais se assemelham a um culto religioso.

Como numa guerra de matilhas, as corporações, cada vez maiores, lançam seus produtos contra os concorrentes e bradam gritos de guerra na conquista de consumidores. Arreganham os dentes e lutam pela vitória.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Inverno


Numa visita que fez ao Rio no mês de junho, uma jornalista americana disse que a cidade hiberna para despertar no verão. As ruas ficam como que vazias durante os meses de inverno e o carioca veste casacos de lã quando bate menos de 20 graus. No hemisfério Norte, esta é uma marca de calor.

Desaparecem os engarrafamentos e a viagem de Copacabana ao centro dura menos de quinze minutos. O mar se agiganta em ressacas acompanhadas de chuva. À noite, as ruas vazias lembram antigos fantasmas, a solidão nas grandes metrópoles, abandono e ameaças sombrias.

Em breve chegará setembro num outono de sol ameno e céu muito azul, prenunciando o verão, quando chegam as meninas muito brancas que em dois dias estarão rosadas e começarão a trocar a pele. O Rio vive e regurgita é mesmo no verão e no calor. O inverno o acalma e o faz dormir.

domingo, 5 de junho de 2011

Políticos


Aos cinquenta e três anos de idade, o ator Alec Baldwin olhou para si mesmo, rememorou seu passado profissional e perscrutou o futuro. Concluiu que sua carreira não ia mesmo deslanchar e anunciou que vai entrar na política. Depois do sucesso de Ronald Reagan, que chegou à presidência, a política tem sido uma alternativa para os atores americanos.

Ao analisar o sucesso de outros artistas, Tiririca também percebeu que tinha chances e foi eleito deputado por uma massa de votos que o consagrou. Depois de aparecer num programa de grande audiência na classe média, o professor Jean Wyllys igualou-se aos artistas e se beneficiou da grande votação de Chico Alencar, seu companheiro de partido. Também se elegeu deputado.

Olaf Palmer, ex-Primeiro Ministro da Suécia, disse numa entrevista que, quando jóvem, havia sido um razoável ator e um dedicado boxeador. Mas compreendeu que tinha poucas chances nas duas atividades. Resolveu então tentar a política porque era a única carreira que lhe permitiria fazer uso das duas aptidões.

domingo, 29 de maio de 2011

Luis Sérgio


A notícia da sua morte, ontem, foi um choque como costumam ser os acontecimentos trágicos. Há alguns anos publiquei alguns dos seus fotopoemas em Uma coisa e outra, uma pequena amostra da sua obra, de lirismo envolvente e grande beleza.


Luis Sérgio dos Santos, médico de profissão e poeta na essência da sua alma generosa, foi traído pelo coração. Nos últimos meses, dedicava-se a organizar uma antologia de poetas contemporâneos, com o entusiasmo que era um traço do seu caráter.

Nunca nos conhecemos pessoalmente. O gosto pela literatura e a internet nos aproximaram em um relacionamento cordial. Sua obra permanece, seu trabalho dará frutos. Mas o melhor se perdeu.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Larões de Cemitérios


A conversa derivou para a morte, destino comum de todos os viventes e que levou Miguel de Unamuno a escrever “toda vida ao final é um fracasso”. E daí alguém lembrou a existência dos ladrões de cemitério.

Existem três tipos de roubos que são praticados contra os mortos. O mais comum é o roubo das flores, logo depois do enterro, quando a família e os amigos se retiram. O morto, deixado na solidão absoluta, não precisa de flores e elas ainda estão frescas e custam caro no mercado da morte.

Outro tipo é o roubo do caixão, um ítem de valor deixado para alguém que não precisa de mais nada e que pode ser revendido para acomodar outro morto. E finalmente o assalto ao próprio cadáver para a retirada das próteses dentárias de algum valor. O homem é o lobo do homem, os romanos diziam antigamente.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Arruda


Arruda faz parte do pequeno exército de seguranças de rua com a missão de garantir alguma tranquilidade nos botequins de Copacabana com mesas de calçada. Antes, no colete preto que eles usam como uniforme, estava escrito Segurança mas parece ter havido uma proibição da Secretaria de Segurança e a palavra foi substituida por Apoio.

O trabalho deles consiste em ostentar a vigilância do quarteirão e afastar mendigos e pequenos vendedores que assediam a freguesia. A maioria é de PMs aposentados que fazem uma melhoria de renda. Exibem o rosto fechado e um porte condizente com a importância conferida por um certo poder de polícia.

Não é bem o caso do Arruda, responsável por um quarteirão da Barata Ribeiro. Ele ri o tempo todo, cumprimenta os clientes, ajuda os velhos na travessia da rua e dá jeito de conseguir no botequim alguma comida para um ou outro mendigo. Diz que sabe reconhecer, olho no olho, quem está mentindo e quem passa fome de verdade.

sábado, 7 de maio de 2011

O Relato de Prócula


Uma instigante e nova interpretação da vida de Jesus, descoberta num documento produzido por Prócula, mulher de Poncio Pilatos, é o leit-motiv do último livro de WJ Solha, mas o seu interesse não reside apenas nessa revelação. Um painel amplo de temas entrelaçados conquista o leitor até o desfecho surpreendente, valorizado pelo virtuosismo de um escritor que domina a sua técnica e sabe contar uma história.

Cinéfilo declarado, Solha homenageia uma infinidade de clássicos da história do cinema e escreve também, com este romance, um roteiro quase pronto para o que pode se transformar num belo filme.

O escritor, embora paulista, vive há muitos anos na Paraiba. Com amor e sensibilidade, incorporou a cultura nordestina no que ela tem de criatividade, singularidade e riqueza. O Relato de Prócula prova também, como notou Clemente Rosas numa resenha do livro, que, vivendo longe do circúito sulista de auto-promoção e mais fácil penetração na grande mídia, WJ Solha é menos conhecido do que merece a qualidade da sua obra.