sábado, 5 de novembro de 2016

O cão amarelo



À noite, o cão amarelo está sempre na companhia de um morador de rua velho e silencioso. Durante o dia costuma andar sozinho pelas ruas de Copacabana. No fim da tarde encontra-se com seu companheiro, o velho, e ambos se abrigam para dormir sobre caixas de papelão desmontadas, debaixo da marquise de um edifício de esquina na Rua Barata Ribeiro.

O velho tem uma carroça carregada de sacos, embalagens usadas, panos velhos, latas, caixas vazias. Ele e o cão vivem segundo um acordo nunca discutido em que um cuida do outro. O cão precisa da companhia de quem o proteja como se fosse seu dono e o mendigo precisa do cão para velar seu sono numa rua cheia de ameaças, onde moradores de rua já foram queimados durante a madrugada, enquanto dormiam.

O cão tem aparência bem tratada, pelo brilhante, e afasta-se do homem nas primeiras horas da manhã. Anda pelas calçadas com a determinação de quem vai a algum lugar. Desvia-se dos transeuntes, espera abrir o sinal para pedestres e atravessa a rua no seu andar ritmado e constante. De noite, eles tornam a se encontrar e juntos se recolhem a seu canto habitual, debaixo da marquise da loja de colchões.
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