quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A partida



A partida


Na terra onde cactos, palmas
e malacacheta brotaram seus espinhos,
foi construído um muro de silêncio
cercado pelo medo e o arrepio
das noites cheias de pressentimento.

Foram anos que formaram décadas,
vertigem de tempo e do refluxo
do ódio derramado pelas ruas,
nas cidades visitadas pela sombra
anunciando a dor dos torturados.

Visitamos com fome estas cidades,
vadeamos com sede os seus rios,
ouvimos o gemido e a gritaria
pelas suas largas avenidas,
vimos o sangue sobre a alvenaria.

Além das cercas de arame, o querosene
usado nas feridas do rebanho
provocava o ar e o cheiro
de um tempo tecido em pesadelo
e na humilhação dos oprimidos.

Um tempo descrito nos contornos
da escuridão dos cegos,
na contemplação dos velhos,
no andar dos aleijados
e no murmurar dos condenados.

Havia um sinal marcando o rumo
da nossa leva de emigrantes,
que não sabia para onde ir.
O orgasmo doía nas entranhas
e também o ato de existir.


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