terça-feira, 28 de junho de 2016

Paisagens



Numa manhã de frio de um inverno distante, olhou o mar, sentiu na boca o gosto do vento carregado de sal e imaginou paisagens de coxias que não terminavam. Prolongavam-se até os confins do horizonte, como se vê no fundo de algumas pinturas de artistas florentinos do Renascimento. Pequenos morros arredondados, um após o outro, cobertos por uma relva verde, meio descolorida.

Na divagação do pensamento, era assim que via um mundo onde a quietude acenava para os que viviam à sombra da fumaça dos escapamentos. Ou para os prisioneiros imobilizados entre paredes de cimento nos lugares onde o sol era incapaz de iluminar mas existiam sombras sem explicação. Nem som, nem música ou zumbido dos insetos vespertinos perturbavam o silêncio absoluto.

Nuvens de chumbo cruzavam lentamente o céu em que o azul esquecido confundia os olhares fixos dos condenados. Nada existiria sem cansaço. Sequer o sopro de alguma memória esquecida no tempo ilimitado dos delírios. Apenas o silêncio, o vento de sal, as paisagens que não significavam nada, as ondulações de lembranças sem sentido.
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