sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ateu



Doka costumava dizer que o sofrimento de uma criança é a prova da inexistência de Deus. Ele usava outros argumentos, comparando diferentes religiões para concluir com a sua tese que negava qualquer tipo de divindade. Penso que procurava, dessa forma, confrontar a religiosidade mística da sua própria família.

Citava Sartre num comentário sobre “Os Irmãos Karamazov”, ao dizer que se Deus não existe tudo é permitido mas acrescentava que esta é também a causa do desespero humano. Suas digressões teológicas terminavam quando dizia que discutir os dogmas de qualquer religião só é compreensível para quem admite a transcendência.

A crença religiosa, segundo Doka, tem origem na dimensão finita da humanidade, na sua solidão e sentimento de abandono. Imaginar a presença divina consolaria toda a impotência do homem diante do desconhecido. Antes do dia em que deixou de aparecer nos lugares que frequentava e desapareceu para sempre, Doka dizia que negar a existência de Deus é aceitar conscientemente o destino trágico da vida.
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