domingo, 8 de maio de 2016

Regresso




O homem é velho e pinta os cabelos que usa compridos e penteados com cuidado para esconder a calvície. Veste-se com roupas já bem usadas e mostra alguma vaidade também na combinação das tonalidades, na camisa cuidadosamente enfiada nas calças e nos sapatos de duas cores. Perguntou-me onde ficava a agência da Caixa mais próxima e seguiu na direção indicada.

Voltou algum tempo depois e sentou-se na mesa do lado. Disse que havia morado vinte anos no prédio em frente e que estudou na Sorbonne. Depois me deu as costas e continuou bebendo cerveja, olhando distraidamente o prédio onde disse que havia morado. Quando fui embora ele continuava lá, com a cerveja pela metade. Não pareceu ter percebido o meu gesto de despedida.

Tem aparecido ali todos os dias, veste a mesma roupa com os sapatos de duas cores. Bebe pouco, uma cerveja só, esperando a hora do almoço. Seu olhar se fixa no prédio em frente. Não responde ao meu cumprimento, é como se não estivesse sentado no botequim mas na sala ou no quarto de um apartamento qualquer do prédio onde ele disse que havia morado por vinte anos.
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