quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Augusto


“Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! 
O amor da Humanidade é uma mentira. 
É. E é por isso que na minha lira 
De amores fúteis poucas vezes falo.”

Quando Augusto dos Anjos escreveu estes versos, o mundo da literatura estava nas mãos dos poetas simbolistas e dos parnasianos, liderados por Olavo Bilac, eleito então o príncipe dos poetas. A inspiração da poesia pertencia às estrelas ou aos salões da alta sociedade. “Eu e outras poesias”, de Augusto, publicado em 1912, foi ignorado e sobre ele recaiu o silêncio.

Recebeu avaliações negativas dos críticos que lhe dedicaram um mínimo de atenção e dos outros poetas que só entendiam o poema como canto de amor e de amizade. Quando disse que o amor é uma mentira, Augusto quebrou os vitrais da catedral onde a poesia era definida como “o sorriso da sociedade”.

Augusto dos Anjos e sua poesia sairam do esquecimento pela consagração do povo e não pelo “establishment” literário. Foram as pessoas comuns, impressionadas com o poder das palavras, recriadas por um poeta diferente de todos os outros, que o consagraram e que ainda hoje se espantam com versos como estes:

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”



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