sábado, 22 de março de 2014

Romance urbano

Abrigados da chuva que anuncia a chegada deste outono quente e úmido, o casal dormia debaixo da marquise do prédio. Ambos negros, meio sujos, abraçados. Ele com o braço esquerdo sobre os olhos, ela virada de lado apoiava a cabeça em seu peito e lançava o braço direito sobre o corpo do homem. Ainda havia movimento nas ruas, os automóveis aspergiam gás carbônico sobre a paisagem da Barata Ribeiro.

Meio escuro, o lugar tinha apenas a caixa de papelão desarmada e transformada em dura esteira para os dois amantes jogados à margem da calçada. Passavam por eles os que iam para os apartamentos dos enormes edifícios que compõem a paisagem deste bairro estranho, nesta cidade estranha, onde a solidariedade desaparece no tempo em que nunca existiu.


Era uma improvável cena de amor. Um casal jovem abraçado, dormindo à margem da calçada de uma cidade onde somem os rastros humanos.  Alguém reclamará da presença deles sujos, naquela calçada suja. Amanhã não estarão mais ali, terão ido à procura de outro lugar para dormir até serem mais uma vez expulsos. A cidade não permite amor entre miseráveis.
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