sábado, 22 de março de 2014

Romance urbano

Abrigados da chuva que anuncia a chegada deste outono quente e úmido, o casal dormia debaixo da marquise do prédio. Ambos negros, meio sujos, abraçados. Ele com o braço esquerdo sobre os olhos, ela virada de lado apoiava a cabeça em seu peito e lançava o braço direito sobre o corpo do homem. Ainda havia movimento nas ruas, os automóveis aspergiam gás carbônico sobre a paisagem da Barata Ribeiro.

Meio escuro, o lugar tinha apenas a caixa de papelão desarmada e transformada em dura esteira para os dois amantes jogados à margem da calçada. Passavam por eles os que iam para os apartamentos dos enormes edifícios que compõem a paisagem deste bairro estranho, nesta cidade estranha, onde a solidariedade desaparece no tempo em que nunca existiu.


Era uma improvável cena de amor. Um casal jovem abraçado, dormindo à margem da calçada de uma cidade onde somem os rastros humanos.  Alguém reclamará da presença deles sujos, naquela calçada suja. Amanhã não estarão mais ali, terão ido à procura de outro lugar para dormir até serem mais uma vez expulsos. A cidade não permite amor entre miseráveis.

2 comentários:

Regina Coeli Carvalho disse...

Quantas vezes paro e observo pessoas dormindo ao léu. Várias perguntas me assaltam. Quem são? De onde vieram? Nutrem alguma esperança no futuro?
A sensibilidade do seu olhar em perceber afeto em dois seres misturados ao lixo da paisagem urbana me comoveu.

Otaviana Maroja jales disse...

caríssimo celso, muito boa sua crõnica do cotidiano realçando aspectos de uma cidade e porque não dizer de um mundo que se acinzentou e esqueceu que não somos apenas habitantes, contribuintes, eleitores mas acima de tudo pessoas cada vez mais esquecidas,invisíveis.belo texto abraços
Carlos Jales e Otaviana