terça-feira, 18 de março de 2014

Doka

Doka, depois de muita bebida, foi censurado pelo filho e respondeu que o mundo não merece a lucidez. Ele queria dizer que, bêbado, era capaz de enfrentar os conflitos e o absurdo da realidade. E seria capaz de aceitá-la em seus abismos. Doka costumava falar da ilusão do amor e da dificuldade humana em compreender a falência das relações sentimentais.

Ele ia além na sua recusa à lucidez, pois era capaz de justificar o suicídio como forma válida de protesto diante do fracasso da humanidade. E concluía erguendo um brinde à estupidez dos homens.


Doka não morreu de doenças causadas pelo alcoolismo nem chegou ao suicídio como protesto, como fez Mishima, de maneira ritual e espetacular.  Ele simplesmente vestiu o terno branco que sempre usava, beijou a mulher, dirigiu uma piada ao filho, saiu de casa e desapareceu.
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