quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A partida



Em um verso de uma das suas composições memoráveis, Luiz Gonzaga diz “quem deixa a terra natal em outro canto não para”. Ao desenterrar as raízes, o sentimento é o de não pertencer mais a lugar nenhum. O retirante despede-se das suas referências sentimentais e segue um rio de corrente agitada, margens inóspitas e portos desconhecidos.

O próprio lugar de onde um dia partiu não existirá mais. Como disse Drummond, será apenas um doloroso retrato na parede. Nada restará da paisagem da infância, apenas um ou outro ponto de lembrança numa paisagem esquecida. As cidades se perdem com o tempo, em seu lugar surgem cenários diferentes, estranhos, desconhecidos, sem memória.


O tempo é um redemoinho de lembranças cujas formas desapareceram dentro do próprio tempo e foram reconstruídas de emoções tardias. Pouco ficou gravado na alma da criança antiga, só inquietações e o desejo de partir novamente como ave de arribação. Os sonhos seguem na direção de destinos desconhecidos, onde talvez tenha sido semeada a esperança.
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