terça-feira, 8 de março de 2016

Andar


Andar por andar – somente. Quase noite, o verso de Cecília se repete em minha memória enquanto ando pelas ruas de Copacabana. Um velho amparado numa bengala olha para o espaço à sua frente. Como se estivesse sozinho na multidão que se desloca ao longo do espaço entre a parede e o meio-fio. As lojas abertas e iluminadas procuram transmitir alegria a quem passa com um otimismo planejado para vender mercadorias. As calçadas são fluxos humanos infindáveis.

Os garis varrem os limites da rua. Eles são invisíveis, despercebidos como os velhos que transitam quase rentes ao bloco dos edifícios. Uma mulher negra, magra, com o ventre inchado pela gravidez, corre apressada levando uma criança nos braços e outra pela mão como se estivesse assustada, olha seguidamente para trás. Uma sirene da polícia superpõe o seu som irritante ao barulho dos motores.

Os homens e mulheres que distribuem folhetos de propaganda insistem com os passantes. Poucos são os que concordam em recebê-los. Mais adiante um deles, muito sujo, muito magro, veste um cartaz onde se destaca em letras maiores “Compro ouro”. Está separado do grupo que exibe vários desses cartazes. E os versos de Cecília se repetem: “Andar... – enquanto consente Deus que seja a noite andada”.
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