terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Janeiro

O sol tem nascido coberto por nuvens avermelhadas. Por volta das oito já se encontra a pino e se vê gente coberta de suor nas ruas. Ao meio dia, neste horário de verão, há uma expressão de angústia impaciente nos rostos de quem foi obrigado a sair de casa. Há também os que amam as altas temperaturas e vão com alegria se enturmar na praia cheia.

Os turistas suados, com a pele em tonalidades de vermelho e resquícios de branco, caminham em pequenos grupos na direção da Avenida Atlântica. São como andorinhas em todos os verões mas nesses últimos dias refletem um certo sofrimento de quem procura respirar e só o faz pela metade.


As pessoas reclamam, afirmam que nunca fez tanto calor na cidade. Esqueceram do verão passado e de todos os verões que castigaram, exauriram, desidrataram. As mulheres andam seminuas, os homens tiram a camisa e, de bermudas, andam meio curvados pelas calçadas quentes. Marquinhos, o maluco da vizinhança, passou apressado vestido em seu velho paletó, uma camisa suja e um cachecol de lã no pescoço. Cantava uma marchinha de carnaval cuja letra começa com “alá-la-ô-ôoô-ôoô...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A vida

O instinto vital e o de sobrevivência estão na origem do valor que atribuímos à vida. Pois não há nada senão a vida. Sentimos desde muito cedo que este é o valor supremo, por isso damos tanta importância à saúde do corpo e da mente. É o que  garante a possibilidade de ser. O contrário seria o nada absoluto.

Temos a intuição do ser porque a nossa ligação com a vida nos dá a compreensão do que somos, do que nos cerca, da fruição do prazer e da experiência da dor. Os suicidas, em sua rejeição do ato de existir, revelam tristeza tão profunda, tanto sofrimento da alma que são capazes de preferir o nada, algo que temos dificuldade em compreender. O que seria o nada?


O choque que experimentamos diante da violência extrema é a medida do valor que damos à vida. A morte dos inocentes, a decapitação, o estrangulamento, a crucificação de que temos notícia significam o horror porque são a negação de tudo. Não há possibilidade de nenhum valor se afirmar perante a obscenidade do homicídio.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Um velho e sua planta

Num pequeno apartamento do prédio em frente, mora um velho. Vive sozinho, como tantos velhos em Copacabana. Sai pouco de casa e às vezes cruzo com ele na rua carregando uma sacola de supermercado. Acho que é seu único motivo de caminhar pelas difíceis calçadas do bairro.

Prefere ficar em seu pequeno espaço dotado de uma varanda que é também muito pequena. Com ele vive uma planta exuberante de pequenas folhas verdes que brilham no bater do sol. De onde estou não consigo identifica-la. Talvez seja uma pitangueira, árvore que cresce e se dá bem nas proximidades do mar. Ela está num vaso de barro que ocupa metade da varanda. Todas as manhãs o velho cuida da planta, dá-lhe água, verifica as folhas e retira as que estão secas. Olha para ela, contemplativo, grande parte do dia.


Na noite do Ano Novo, quando a loucura toma conta do bairro, o velho estava de pé, pois não adiantaria tentar dormir diante da proximidade dos fogos da meia-noite. O calor era intenso, na temperatura em que estamos vivendo por esses dias. Na varanda, o velho sorria distraidamente e parecia dizer alguma coisa enquanto aspergia água nas folhas da sua planta, que de longe parece uma pitangueira.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

As palavras, as cores e os sons

Quando Drummond escreveu “penetra surdamente no reino das palavras”, acrescentando que lá estão os poemas que esperam ser escritos, reconhecia na palavra o repositório de toda a poesia humana,  não apenas aquela que ainda aguarda o poeta. Pois é na linguagem que se encontram todos os poemas e também o pensamento acumulado pela vivência das gerações humanas.

É assim também na pintura, pois o matiz das cores guarda o potencial da expressão artística ainda à espera da criação. Em todos os sons cuja vibração chega ao ouvido humano encontra-se também a música que espera o compositor. Na matéria, no espaço e no sonho está a fonte de todas as expressões da arte, até daquelas que ainda não existem e vão existir no futuro.


A arte expressa, assim, um tipo de conhecimento cuja descoberta se dá  percorrendo a trilha das emoções. É a maneira de o homem ser capaz de sentir o que a inteligência não alcança: o concerto do universo, o entendimento do mundo, o cosmos, o infinito, tangenciados pela magia das palavras, das cores e dos sons.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Entreato

Há distantes, longos anos,
quando nos encontramos numa rua do Recife,
viela de paralelepípedos irregulares,
estávamos lendo Folhas de Relva,
dissemos que a tradução de um poema
mantinha a vida um pouco mais serena.

Dezoito anos de vida nos pesavam,
naquela estreita rua do Recife.
As prostitutas jovens nos amavam,
a elas pretendíamos
dedicar poemas que transcenderiam
as suas e as nossas existências.

Éramos poetas, buscávamos palavras,
tínhamos ódio dos adjetivos,
tentamos dizer que a mudez é um poema,
o silêncio calmo, o mergulho uma serpente.
O mundo era um teatro, a nós cabia
representar o belo, se existisse.  

Refizemos palavras, entendemos que o sentido
das coisas é mutável; o ser, apenas existir
e permanecer no âmago da chuva
é receber no rosto a tempestade.
Compreendemos a força dos sentidos
que o amor traz consigo em suas voltas.

Nada nos confundia, no Recife,
pois aprendêramos a amar as despedidas.
Os poetas que líamos, Dylan, Whitman,
Calderón, Pessoa, Valery e Augusto dos Anjos,
todos nos dizendo que a paixão nos perseguia,
a memória não existia.

Quem soube do amor, naquele tempo?
Odiávamos os adjetivos, o poema
seria silente e seco, duro como um grito
solto na madrugada, arrebentado
pela fome dos aflitos.
Estávamos cansados, mirando a madrugada.

Cansados como hoje,
na manhã deste novo ano
quando senti que tua morte interrompeu
o que deveria ser e não foi,
não mais será porque jamais te disse:
o poema é um fruto podre da existência.