terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A moça ao lado



A moça na mesa ao lado comia muito e era muito gorda. E triste. Olhava para diante mas não parecia perceber os que passavam pela calçada em frente. Seu olhar perdido não se afastava de um ponto imaginário e ela apenas pensava, imersa, enquanto comia. E bebia refrigerante. Era também uma moça bonita, de olhos parados e pensamentos sombrios.

Este fim de outono tem trazido chuvas muito fortes e repentinas que inundam as ruas e afastam o povo que costuma encher as tardes de Copacabana. Dezembro tem surpreendido com frias temperaturas de um inverno tardio. O bairro volta a se encolher, como se ainda estivesse à espera dos últimos e movimentados meses do ano.


Os automóveis passavam aspergindo água nas calçadas vazias. Passageiros saltavam dos ônibus no ponto em frente e corriam a fugir da chuva, procuravam abrigo nas marquises, alguns maldiziam o tempo ruim. O fim de tarde criava em torno de si uma paisagem soturna. No botequim quase vazio a moça gorda e triste comia e olhava para alguma coisa que só ela avistava, perdida no infinito e na solidão.
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