terça-feira, 19 de abril de 2011

La Tour d’Argent


Na mesa ao lado, os quatro velhinhos gays discutiam com o garçon e um deles liderava a indignação de todos contra o aumento no preço do prato. Eles costumam almoçar juntos, sem fidelidade a um único local mas estão sempre nos botequins da Barata Ribeiro, nos três blocos e meio entre Paula Freitas e Rodolfo Dantas.

“Reclama do galego”, disse o garçon, com receosa discrição e olhando para a caixa registradora; atrás dela sentava-se o dono do botequim. Mandaram chamá-lo e o mais alto deles, o que se veste com elegância, faz as sobrancelhas e usa uma bengala, procurou saber a razão daquele preço por um magro filé de peixe.

O dono do botequim acentuou o sotaque da Galícia e informou que estava comprando o peixe bem mais caro porque é assim todo ano na época da Páscoa. Um dos velhinhos riu com ironia e disse que por aquele preço nem o coelho da Páscoa. O da bengala, antes de recolher entre eles o dinheiro para pagar a conta, disse com desprezo que um botequim de terceira classe em Copacabana estava cobrando mais caro do que La Tour d’Argent, quando ele morava em Paris.
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