sábado, 13 de novembro de 2010

Poesia

Há muitos anos, lí um poema com o título “Testamento”, do qual decorei os primeiros versos:

Ao meu pai, deixo as minhas dívidas
e a guarda da mulher que nunca me foi fiel
um só momento de vida.
Ao meu irmão, deixo minhas roupas e meus sapatos
e que ele nunca ande pelos caminhos que andei.
A minha irmã, deixo a dentadura da pianola,
para que ela passe a vinda inteira
com a ilusão de que é uma grande artista.
Às minhas tias solteironas, deixo a minha memória
que elas soerguerão num monumento de lágrimas histéricas.


Esqueci o nome do poeta, fiz várias pesquisas no Google e na minha própria memória e nada encontrei.

Mas topei com um belo poema, com o mesmo título, da poetisa angolana Alda Lara, que nasceu em 1930 e morreu em 1962:

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

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