terça-feira, 11 de agosto de 2015

O Tempo


As lembranças mais distantes repousam enterradas no inconsciente, assim como os traços de antigas civilizações jazem sob camadas de terra e de escombros. Há surpresas nas escavações quando aparecem os restos de povos que ali habitaram e pouco deixaram da sua passagem e de sua memória. O que foi riqueza e pompa em certa época deixou apenas poeira, utensílios quebrados, esqueletos, sinais dispersos.

As civilizações extintas deixam pouco entrever da vida diária das pessoas que morreram junto com o seu tempo. As angústias do homem que viveu há cinco mil anos pouco se distanciam daquelas do século em que vivemos: sobrevivência, surpresas do mundo, descobertas, emoções dispersas, o sentimento amoroso, a desesperada procura de Deus.


Debaixo das camadas das eras repousam os amantes e os guerreiros, os pensadores, o generoso e o bom. Pouco ficou da sua passagem e muitas vezes desapareceu também a civilização em que viveram, sua cidade, sua casa e as circunstâncias da sua vida. É curioso como repetimos hoje o que eles foram e compartilhamos o seu destino, estes fantasmas esquecidos que habitam nossos sonhos e povoam as alucinações.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A poesia


Das Grandes Artes, destaco a poesia e a música. A música aproxima-se das emoções e as conduz a tocar as fímbrias da alma humana. A poesia, lidando com palavras, instiga pensamento e sensibilidade no convite ao entendimento do impossível. O que realmente quer dizer um poema, ao arrebatar sentimentos desconhecidos e às vezes tão contraditórios?

A inutilidade da poesia tem inspirado discussões, estudos e teorias para concluir que ela não serve para nada. Mas a humanidade talvez não pudesse viver sem a sombria, inestimável e profunda beleza que a poesia põe a descoberto. Nenhum animal alem do humano seria capaz de sentir sua força, a constelação de nexos surpreendentes que traz em cada palavra que utiliza.


Como a filosofia, a poesia é uma linguagem capaz de indagar sobre a experiência de viver, que não possui explicação possível. Seus símbolos e metáforas criam novos significados para velhas palavras na invenção de uma maneira nova de sentir e de procurar o entendimento do mundo. Somos incapazes da exata compreensão das coisas mas podemos, tanto na música quanto na poesia, tocar no absurdo e na intensidade que a vida transmite aos viventes.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Estorninhos


Os pássaros voam na paisagem que se estende  na planície até onde os olhos podem ver. Unidos, movimentam-se em largos bandos, como uma sombra que assume formas diferentes no ar. São negros, passam rápidos e as imagens que desenham no céu parecem breves momentos esculpidos pelo sopro do vento. Divertem-se, fogem, voam, revoluteiam.

Pergunto que aves são aquelas e os que estão ali não sabem o seu nome, apenas uma criança balbucia uma palavra – estorninhos - que na hora não entendo e que torna a repetir mas ainda uma vez e não consigo compreender. A mancha negra se move no horizonte e rapidamente volta ao ponto em cima de onde estou na companhia de algumas pessoas e da criança que tenta me dizer o nome daqueles pássaros. Todos olhamos para o céu.


Uma mulher grita algo, emite um som agudo e se cala. Os que acompanhamos o vôo daquela sombra  estamos em silêncio observando a grande mancha semovente. Agora, ela esboça o formato de um labirinto, em seguida desenha olhos assombrados no rosto do sol poente, como se ele, o sol, se afogasse nas nuvens sombrias em que aos poucos vai mergulhando.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Cotidiano


O garoto que pôs fogo no apartamento em frente tinha dezessete anos. Morava com a mãe viuva que se negou a lhe dar algum dinheiro para comprar drogas e ele cumpriu a ameaça de incendiar a casa. Na madrugada, os vizinhos acordaram com a sirene dos bombeiros, a rua de repente se encheu de gente.

Copacabana é um bairro onde se desenrolam esses dramas – grandes ou pequenos – típicos da tragédia urbana. Como o do pai proibido de ver a filha por ação da ex-mulher nos tribunais e que vai todo dia, clandestinamente, esperá-la na porta da escola e a leva até o ponto de ônibus. O tiroteio nas favelas do bairro e suas vítimas inocentes, crimes passionais, balas perdidas.


Episódios do cotidiano. Solidão dos dias, depressão dos velhos, meninos arrancados da vida. Os turistas, alegres, não percebem que há sempre um travo de violência e de tristeza no ar. As grandes cidades reúnem limites que ainda não foram alcançados pela imaginação de quem se dedica a escrever histórias.

domingo, 26 de julho de 2015

Doka


Doka bebia muito. Dizia que, lúcido, não conseguia entender o mundo. Existem tantas perguntas sem respostas e tantas indagações que os pensamentos se misturam e passam a pedir algo que possa controla-los, dizia. E os vícios são mais ricos que a virtude. Era assim que ele se destruia, por uma compulsão que o levava para fora da vida.

Pensava muito na infância, sem romantismo. Dizia que era uma fase de debilidade mental que, infelizmente, todos precisam passar por ela. Não tinha nítidas lembranças do seu tempo de criança, apenas de momentos muito rápidos, flashes de memória que não demoravam tempo suficiente para compreendê-los.


Não era um tipo de fácil convivência, o que talvez explique os quatro casamentos que ele próprio havia destruído. Todas as manhãs, quando se levantava, dedicava um tempo à meditação mas não chegava a lugar nenhum, achava que era um tempo que diariamente perdia. Doka era um gênio às avessas, que duvidava de tudo e nada compreendia. Dizia amar apenas o ruído das marés e as noites de tempestade.