domingo, 20 de setembro de 2015

Escrita


Escrevo. O pensamento rompe seus limites,
o pensamento se transforma
em sua própria intensidade.
Um fio toca os dedos e ameaça
desfazer-se a cada instante
como simples gotas d'água.

Um gesto era sereno e de repente
dínamos girando enlouquecidos
provocam sons e energia
retirados da náusea, do sono,
da matéria dos ventos.


Cânticos recolhem seus triunfos
no triturar de cascos de animais.
Objetos ocultam sua música
na harmonia de sentidos
para sempre adormecidos.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cidades


As cidades são organismos vivos, mudam com o tempo até ficarem irreconhecíveis. Quando  voltamos, depois de prolongada ausência, é difícil reconhecer o lugar onde nascemos. A paisagem da infância desapareceu, os edifícios são outros, o trânsito complicou-se, as pessoas são estrangeiras. Para Drummond, sua Itabira tinha se transformado apenas num retrato na parede. Mas como doía.

Os novos bairros trazem nova gente, os antigos envelhecem junto com o povo que neles vive. O centro das cidades costuma também se mudar de uma região para outra e deixa velhos prédios abandonados. Os ricos cada vez mais se afastam e levam seu próprio conforto para recantos mais aprazíveis.


As mudanças no centro do Rio vão mais uma vez mudar sua paisagem. Quem voltar daqui a alguns anos não vai reconhecer as novas ruas, os novos meios de transporte, as novas construções, o mar redescoberto. Os lugares serão diferentes. A Praça Mauá, deteriorada e triste, ressurge como se fosse outra, lembrando à cidade que ela nasceu às margens de uma baía que lhe deu o nome porque pensaram que era um rio. O Rio havia esquecido a vocação do mar.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Estações


O bairro amanhece sombrio nesses dias de típico inverno, quando o céu de chumbo saturado de nuvens cobre o tempo e molha as calçadas escorregadias. As ruas quase desertas, bares vazios, algumas poucas velhinhas arriscam-se a sair de casa para a rotina diária das compras. Copacabana hiberna, o verão ainda demora um pouco mas a primavera está próxima e anuncia com chuvas a sua chegada.

Não temos as estações do ano tão marcadas como nos países do Hemisfério Norte. Mas alguns dias de frio nos trazem a inconsciente memória de países distantes. Com exceção dos indígenas, no Brasil somos todos exilados, viemos de outras terras, trazemos no rosto a marca de origens distintas na África, na Europa, no Oriente e na Ásia.


Sob a chuva fina, uma mulher atravessa a rua, um automóvel buzina de forma estridente, uma criança corre e um cão tristonho mija no tronco de uma árvore na Praça Serzedelo Correia, onde João Antonio morreu. Há uma atmosfera vazia neste lugar onde tanta gente costuma o ano inteiro aglomerar-se nos prédios, na praia, na confusão das ruas. Copacabana mergulha no cinza das brumas, espera o calor do sol para voltar a viver a sua vida em que se misturam abandono, solidão e caos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Infância


Em suas cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke o aconselhava a voltar os olhos para a própria infância, quando não encontrasse inspiração para a poesia. Volte a sua atenção para ela, disse, e procure fazer ressurgir as imensas sensações desse vasto passado. 

Nem todos se lembram da infância, como Paulo Mendes Campos ao dizer “sou restos de um menino que passou”. O adulto costuma manter prisioneira a criança que teima em sobreviver e que às vezes o faz despertar na noite escura da alma, onde são sempre três horas da manhã, no dizer de São João da Cruz.


Somos todos restos de nós mesmos, tateamos no escuro das sensações vividas que enterramos como lembranças esquecidas. A criança que permanece viva ainda não aprendeu a formular palavras mas insiste em nos dizer que não estamos prontos para a poesia nem para o entendimento da lógica do mundo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Realidade e sonho


A realidade nem sempre existe mas existe o sonho. Nada no mundo real é exatamente como interpreta a nossa percepção. Outra pessoa, diante do mesmo espectro, terá olhar diferente e verá de forma diversa o que vimos e sentimos. Cada um de nós está olhando o mundo segundo a própria visão subjetiva, influenciada por aspirações inconscientes.

Em oposição à realidade, o sonho é construído segundo emoções atormentadas por pesadelos que destroem paraísos imaginários. Mas ele insiste, o sonho, em apontar caminhos que a realidade confronta mas que poderiam conduzir para alem dos universos imperfeitos.


Cultivar sonhos ou enfrentar a realidade são formas diferentes de se relacionar com a vida. Uma, vista como distante e alienada; a outra, escravizada pela condição da matéria. Mas há sempre a consciência latente de que toda realidade foi precedida de um sonho que não se perdeu na convulsão dos conflitos humanos.