sábado, 15 de abril de 2017

Aniversário

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Quando nos conhecemos éramos muito jovens e cada um de nós pai de duas filhas. Egressos do jornalismo, trabalhávamos na mesma agência de publicidade, pois para quem era muito jovem, tinha família e precisava de dinheiro, a publicidade pagava melhor. Numa prolongada noite em um bar de Belo Horizonte selamos nossa amizade. Descobrimos que havíamos lido os mesmos livros, ouvido as mesmas músicas, gostávamos dos mesmos filmes e tínhamos a mesma visão do mundo.

Foi um encontro que durou mais de cinquenta anos. Perpassamos ideias, tivemos vitórias e fracassos,  vivemos num país em que muitos amigos morreram na prisão sob tortura, algumas vezes nos separamos e tornamos a nos encontrar. Continuávamos a conversa interrompida. Ele, cristão. Eu, não tinha Deus como referência porque não recebi a graça da fé. Mas ambos acreditávamos na luta pela justiça social, na paz e no destino superior do homem.

Sua morte me fez pensar na passagem do tempo, no tempo cujo significado é a vida presente. O futuro é sempre o lugar em que estamos e o passado é feito de momentos mortos. Do passado restarão apenas a intensidade de alguns instantes vividos, o amor pela vida e uma antiga e boa amizade. Hoje, dia 15, era seu aniversário.
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