sexta-feira, 8 de junho de 2018

Um artista




Anthony Quinn, ator de tantos filmes em Hollywood, nasceu em Chihuahua, no México, em 1915, e morreu em Boston, em 2001. Embora naturalizado americano, não cortou os laços com a sua terra. Parece ser esta uma das angústias que perseguem os artistas. Eles sentem-se estéreis quando esquecem o lugar onde nasceram.

Pouco antes de morrer, deixou registrada a forma como imaginava seus funerais. Queria que fossem na forma tradicional dos índios do seu país. Eles não enterravam nem cremavam seus mortos.

Pediu para ser levado em procissão por seus treze filhos ao alto de uma montanha e lá fosse deixado para servir de pasto às aves de rapina. Elas comeriam seu corpo que, depois de digerido pelos pássaros, seriam espalhados pelos mais longínquos territórios do seu país. Foi uma bela declaração de amor à pátria feito por alguém que em breve ia morrer.


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Desvãos



O sono demora e há sombras na parede do quarto. O olhar tomba na meia-escuridão e o pensamento explora regiões assombradas, ventos estivais, fantasmas adormecidos. Há também sons imaginários, paisagens desenhadas de angústia e um interminável cansaço que aos poucos distende o corpo e provoca o mergulho da noite.

Sonhos que se misturam ao que parece realidade mas que são apenas pequenos delírios, quedas no abismo, respirações suspensas, sustos. Convites à vigília que angustia crianças despertas em lágrimas. Elas investigam a perda da própria infância, imaginam o que resta de desilusões.

E há também o som confuso das águas, torrentes de espuma a inundar sombras e o que restou do fogo dos incêndios. Algo que nunca termina, tem o brilho de dores insondáveis, da eterna música que acompanha a vida, a morte e o gozo das coisas para sempre findas aos olhos do menino.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O velho e o tempo



Tempo frio e a chuva fina cobrem de cinzento as ruas da cidade. O velho se desloca pelas calçadas estreitas na direção do bar. As árvores verdejantes lembram que a primavera está presente em todas as plantas, em todos os jardins, na juventude em que a natureza, uma vez mais, desperta para outro ciclo do tempo. As meninas do colégio passam pela praça larga na direção de algum lugar onde a alegria continuará a transbordar dos sorrisos.

A memória persegue o velho que tenta olhar para o futuro. Existem amarras onde a vida se ancora e há sempre algum esforço para desatá-las e continuar a navegação. Pois o passado dificulta o renascer da vida. No entanto há brisa após a chuva, o vento desamarra a lembrança e existem as paisagens, a surpreendente descoberta dos segredos.

Uma passagem pelo serpentear do rio, como se fosse o espelho das curvas da existência, no acaso em que habitam todos os seres vivos, a beleza das coisas, a inútil compreensão do mundo e todos os calafrios. Por fim o bar quase vazio, a paz da meditação serenando os espíritos inquietos que nunca deixaram de acompanhar o velho desde sua mais antiga infância.



domingo, 29 de abril de 2018

Réquiem sem música




Réquiem sem música

Edna St. Vincent Millay
Trad. Celso Japiassu


Não estou resignada em se encerrarem corações amantes no áspero chão.
É assim, e assim será pois sempre foi assim pelos tempos afora:
Na escuridão eles partem, os sábios e os gentis. Coroados
de lírios e de louros eles se vão; mas não estou resignada.
Amantes e pensadores estão dentro da terra contigo.
Juntos com a poeira inútil e opaca.
Um pouco do que sentias, do que tu sabias,
Uma fórmula, uma frase permanecem – mas o melhor está perdido.
As respostas rápidas e sábias, o honesto olhar, o riso, o amor, –
Eles se foram. Eles foram alimentar as rosas. Elegante e sinuosa
é a flor. Perfumada é a rosa. Eu sei. Mas não estou de acordo.
Mais preciosa era a luz em teus olhos do que todas as rosas do mundo.
Dentro, dentro, dentro da escuridão da tumba
Suavemente eles se vão, o belo, o terno, o gentil;
Quietamente eles se vão, o inteligente, o sábio, o bravo.
Eu sei. Mas não estou de acordo. E não estou resignada.


Dirge Without Music 

I am not resigned to the shutting away of loving hearts in the hard ground.
So it is, and so it will be, for so it has been, time out of mind:
Into the darkness they go, the wise and the lovely.  Crowned
With lilies and with laurel they go; but I am not resigned.

Lovers and thinkers, into the earth with you.
Be one with the dull, the indiscriminate dust.
A fragment of what you felt, of what you knew,
A formula, a phrase remains,—but the best is lost.

The answers quick and keen, the honest look, the laughter, the love,—
They are gone.  They are gone to feed the roses.  Elegant and curled
Is the blossom.  Fragrant is the blossom.  I know.  But I do not approve.
More precious was the light in your eyes than all the roses in the world.

Down, down, down into the darkness of the grave
Gently they go, the beautiful, the tender, the kind;
Quietly they go, the intelligent, the witty, the brave.
I know.  But I do not approve.  And I am not resigned.


Edna  St. Vincent Millay, “Dirge Without Music” from Collected Poems © 1928, 1955 by Edna St. Vincent Millay and Norma Millay Ellis. Reprinted with permission of Elizabeth Barnett and Holly Peppe, Literary Executors, The Millay Society.
Source: Collected Poems (HarperCollins, 1958)