sexta-feira, 5 de maio de 2017

Noite



Aves mortas penetram no sono da criança. Ela se move entre os pequenos corpos imóveis de penas suaves agitadas pelo vento. Depois há um tigre com estrias vermelhas e olhos de fogo incandescente. A criança olha em torno e volta-se para o arco-íris colorido. Mais uma vez o vento se transforma na tempestade de tons negros, cinza e bordas escarlates.

As cores se transformam também nas sombras que avançam  vindas do horizonte e toda a paisagem se move na direção de um lugar que não existe. Somente o pensamento aproxima esta paisagem da vida que vai nascer em algum lugar distante, úmido de chuva, sombrio como a noite das paragens frias.

E mais uma vez renasce o desejo de ver o voo dos pássaros inertes que atapetam o chão com penas movidas pelo vento. Os outros animais aproximam-se lentos, curiosos, amedrontados. Ignoram o significado de tudo, o chão de vidro assume a opacidade dos ventos e a criança, uma vez mais, tenta vencer o assomo de lágrimas intensas e da noite que nunca mais terminará.
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