quarta-feira, 13 de abril de 2016

Infância



De sete para oito anos, costumava acordar muito cedo e os adultos o cuidavam, davam-lhe ordens e diziam o que deveria fazer em seguida. Detestava o banho e as lições, adorava o tempo em que, sozinho, comandava os pequenos bonecos de cera em improvisadas aventuras imaginárias. Havia conflitos entre os bonecos mas também passeios em paisagens extraordinárias, descobertas de monstros, companhia de duendes, risos e choro de ódio ou de desespero.

Contemplava o mundo, imaginava e se divertia. Os adultos, ao vê-lo silencioso e quieto, o chamavam filósofo e interrompiam seus momentos de paz incentivando brincadeiras, fazendo pilhérias, ditando o que ele deveria fazer em seguida. Outras crianças o divertiam mas também o irritavam, faziam-no calar ou rir mas na verdade preferia ficar sozinho e criar um mundo com os bonecos de cera.

Estudava no princípio da tarde e no começo da noite ainda explorava os cantos do quintal, até ser chamado para comer e em seguida dormir um sono de sonhos esquisitos. Voava e também caia mas nunca atingia o chão, era um abismo sem fim, uma vertigem de queda veloz até acordar e dormir de novo. Só muito tempo depois, adulto, pensou na solidão que abriga a alma das crianças.

sábado, 9 de abril de 2016

Passos



Uma aurora incendiada parece a chaga
de um crepúsculo sangrento,
como se a noite antecipasse o dia.

Os passos na rua são ritmos antigos,
maré de ventos soprando do deserto.
Os sonhos nadam numa argila escura,
espécie de lama a se espraiar nas plantas
transformadas em brasas encarnadas.

A fumaça exala brumas, a paisagem
descobre uma vez mais o rosto esmaecido.
A maré avança sobre os ritos, um altar
feito de galhos queima e o sacrifício
é como o respirar de quem morre
agonizando no nascer do dia.

Nem cânticos ou lamentos nem o pranto
consolarão a noite e seus tormentos.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Nabuco




Quatro milhões de africanos vieram escravizados para o Brasil. Chegaram a representar praticamente a metade da população e os senhores viviam com medo da revolta. O que os tornava ainda mais cruéis. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Sua economia dependia do trabalho dos escravos e também o modo de vida, o conforto e as relações sociais. Joaquim Nabuco, um dos melhores brasileiros do seu tempo, dizia que a escravidão estava tão entranhada na vida da Nação que muitos anos haveriam de passar até que essa mancha se apagasse.

Passaram-se mais de cem anos, o que é muito pouco quando pensamos na História. E um olhar no entorno nos mostra como Nabuco tinha razão. Somos uma sociedade hierarquizada, poucos senhores dominam o país e olham para baixo com o desprezo da mentalidade escravagista que de alguma forma ainda está presente. A população negra continua dominada através da pobreza e das poucas oportunidades de superá-la.

Nabuco disse que o regime escravista tomou conta do organismo do país e penetrou na sua alma. Enquanto a Nação não tivesse consciência do valor da liberdade para todos e não apenas para uma classe de senhores, a obra nefasta da escravidão iria adiante, mesmo quando não houvesse mais escravos. Ele viu antecipadamente como seria o futuro que vivemos hoje.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

Os melhores



Allen Ginsberg diz num célebre poema que viu os melhores da sua geração, famintos e nus, arrastando-se pelas ruas de um bairro miserável em busca de uma droga violenta. Há quase sempre uma sina destrutiva liquidando os melhores, quando não os acorrenta na paralisia de um limbo que acaba também por destrui-los.

A brilhante geração perdida dos anos 1920 pagou o preço do seu destino nos exemplos de alcoolismo, suicídio e degradação dos seus expoentes. Nos anos sessenta/setenta, a nosso lado, vimos tantos que se perderam na droga enquanto outros, torturados, presos, violentados por terem sonhado em mudar o país e também o mundo. Alguns deles, em plena maturidade, renderam-se e vieram a negar tudo em que acreditaram.


Destinos trágicos rondam a vida dos homens e costumam acometer em primeiro lugar os expoentes de cada geração. Ernest Hemingway, o mais brilhante da chamada geração perdida, disse que “aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra a todos”. E acrescentou que aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos, indiferentemente. Seu suicídio parece ter confirmado o que dizia.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Outono



 
O outono ainda não disse a que veio mas o calor deixou de ser tão agressivo e humilhante. Copacabana logo começará a hibernar até que novos turistas, como um bando de andorinhas, comecem a chegar anunciando o próximo verão. O bairro vive com intensidade as estações mais quentes, quando regurgita e se agita com as multidões em busca do mar e de algum tempo de prazer.
Na expectativa das Olimpíadas, ainda se respira certa tranquilidade. Os botequins enchem-se nos fins de semana mas não se vê o azáfama constante, as enormes mulheres seminuas de nádegas imensas, as lindas adolescentes que desfilam na volta da praia. Estrangeiros louros ainda passam de mãos entrelaçadas com suas namoradas negras, romances que os surpreenderam na viagem em um país dificil de compreender.
Marquinhos, o maluco da vizinhança, passou ouvindo seu rádio que não toca nada. Dirigia-se com pressa a lugar nenhum, olhava fixamente o horizonte, ignorava quem passava a seu lado. Sente como todos que uma vez mais Copacabana inicia o recomeço do seu eterno ciclo de cada ano. Com seus contrastes, contradições e a violência saturada de ódio contaminando o ar.

quinta-feira, 24 de março de 2016

os rostos





as faces na multidão se dissolvem
são emoções intangíveis

os corpos se misturam
as calçadas exalam passos e odores
e ruídos e calor
tudo perpassa a escuridão dos tempos

as crianças olham
com olhos de ódio neles não se vêem
olhos de meninos

insones criaturas no final de um dia
de véspera em que a morte
espreita uma vez mais os inocentes

domingo, 20 de março de 2016

Os loucos


Malraux disse que toda arte é uma revolta contra o destino do homem. E Woody Allen, em uma de suas tiradas, diz que a vida não imita a arte, como queria Oscar Wilde, mas imita, sim, os maus programas da TV. Na discussão infinita sobre a utilidade da arte, nem sempre prevalece a razão, pois ela é uma expressão da loucura humana evitando que os homens enlouqueçam.

Perguntar a qualquer artista por que ele escreve, pinta, compõe, esculpe, enfim, por que exerce sua arte, ele dirá que não conseguiria viver se não o fizesse. Alguns dirão que é para não enlouquecer. A presença da loucura, além de vícios que sinalizam desequilíbrios emocionais, têm sido constantes na história dos artistas.

Alcoolismo, ópio, haxixe, heroína e outras drogas pesadas não estão longe do seu universo e da sua revolta contra o destino do homem. Muitas vezes apenas a arte não basta como ato de coragem capaz de transcender a condição humana. A impotência do artista diante de sua própria arte é a sua condenação.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Fantasmas


Podemos ver o mundo em diferentes dimensões porque a realidade depende de perspectivas, situações, lugares e estados da alma, dizia Doka. O mundo é diferente quando se está sóbrio ou quando se está bêbado. Afirmava que o maior problema filosófico da humanidade é que Deus não existe mas o diabo existe. Dizia não ter medo de Deus ou do diabo, mas temia os seus fantasmas interiores.

E onde residiam esses fantasmas que nos assombram e, de um modo ou de outro, nos acompanham pelo traçado das nossas vidas? O mundo é um lugar sombrio, incompreensível e ameaçador e os fantasmas se alojam nas emoções, nos medos sem origem, nos passos noturnos que silenciosamente se aproximam, imperceptíveis, de onde as crianças dormem.


Ele também não acreditava no destino nem na vocação superior dos santos pois nem a vida, nem o sonho, nem sequer a esperança acalentam a náusea que acompanha os infantes e os adultos enquanto vivos. Pouco antes de desaparecer para sempre, Doka disse, já meio bêbado, que viver é como um breve raio de sol numa praia estranha. Citava Conrad, que assim se referiu à juventude.

sábado, 12 de março de 2016

Memórias





Não existe passado quando somos jovens. Só com o tempo uma poeira de memória vai se acumulando, uma visão mais nítida vai surgindo das brumas de momentos vividos. Cada um desses instantes corresponderia talvez a uma experiência acumulada na nuvem da vida. Este momento foi realmente vivido ou só agora está acontecendo? E por que vem carregado de recordações?

Algo indefinido nos acompanha de perto, desde tempos sem lembranças, quando olhar o mundo trazia paisagens, cheiros, cores e uma incompreensível vivência de cada minuto. Momentos despidos da consciência obscura dos homens depois de morta a inocência.

Algo de novo então se anuncia como se fora trazido pelas águas de um rio sob influência das marés numa praia estranha. Um espaço assombrado de fantasmas da vida, palco onde eles riem, te observam e te provocam para uma vez mais tentar entender a existência e os mistérios que nela habitam mas que nunca foram enunciados.

terça-feira, 8 de março de 2016

Andar


Andar por andar – somente. Quase noite, o verso de Cecília se repete em minha memória enquanto ando pelas ruas de Copacabana. Um velho amparado numa bengala olha para o espaço à sua frente. Como se estivesse sozinho na multidão que se desloca ao longo do espaço entre a parede e o meio-fio. As lojas abertas e iluminadas procuram transmitir alegria a quem passa com um otimismo planejado para vender mercadorias. As calçadas são fluxos humanos infindáveis.

Os garis varrem os limites da rua. Eles são invisíveis, despercebidos como os velhos que transitam quase rentes ao bloco dos edifícios. Uma mulher negra, magra, com o ventre inchado pela gravidez, corre apressada levando uma criança nos braços e outra pela mão como se estivesse assustada, olha seguidamente para trás. Uma sirene da polícia superpõe o seu som irritante ao barulho dos motores.

Os homens e mulheres que distribuem folhetos de propaganda insistem com os passantes. Poucos são os que concordam em recebê-los. Mais adiante um deles, muito sujo, muito magro, veste um cartaz onde se destaca em letras maiores “Compro ouro”. Está separado do grupo que exibe vários desses cartazes. E os versos de Cecília se repetem: “Andar... – enquanto consente Deus que seja a noite andada”.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Fugas



Desde a antiguidade o homem aprendeu a fermentar e depois a destilar frutos e plantas para alterar o modo de ver o mundo. A bebida como fonte de embriaguez e fuga. As sociedades primitivas descobriram um modo de acelerar a fermentação mastigando os frutos e depois plantaram a vinha, que marcou um estágio mais avançado na civilização.

A bebida destilada significou o domínio da tecnologia que veio com a industrialização e o resultado foi a descoberta de um produto mais concentrado do que o vinho ou a cerveja, mais forte, com maior quantidade de álcool, de efeito mais rápido sobre os sentidos. Depois vieram as drogas e sua economia clandestina dirigindo o crime, a violência e a morte.

O homem, estranho animal condenado à consciência, descobriu que havia uma maneira de mudar a percepção da realidade. E de fazê-la parecer melhor, ao mesmo tempo em que encarava as tragédias em volta da sua vida. Entre elas a do seu próprio destino.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dizer


O que vejo não verás tão cedo

nesta terra de dor

e séculos de sangue.

 

Virás depois de mim,

dirás algo de poesia

 que a infância resguardou.

 

Dirás aos que virão depois de ti

o quanto vimos nos portais

onde estivemos prisioneiros.

 

Os outros saberão

quem na selva escura

era inimigo.

 

Onde a morte e a vida

se enlaçavam

em mesma dor constituídas.

 

E que amor era palavra sem sentido,

guardada na morada dos vermes,

mantida nas estantes.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Relance

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Em uma paisagem distante, recanto solar onde homens e animais se misturavam às cores verdes da natureza, ouviam-se o vagido solitário dos bezerros, a queda da água e o constante zumbido dos besouros. Os dias eram longos, contemplados pelo ir e vir das lembranças, o sorriso na face das crianças, ritmadas oscilações das árvores comandadas pelo vento.
A brisa trazia recordações que alimentavam os vivos. Nada era tão claro quanto as manhãs que se seguiam às auroras menstruadas do nascer dos dias. A tarde era serena, semeava o campo de uma noite que cobria os espaços, despertava o ciciar dos ruídos e alumbrava o pensamento.
O circo armava-se nos derradeiros limites da cidade, o desfile do palhaço produzia-se pela turba dos meninos que o seguiam, a rua fazia-se pequena para tanta alegria desbordante, os pássaros espantados acrescentavam mais espaço ainda àquela festa. Esta é a paisagem que ficou daquele tempo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ciclos




A vida não é uma história que decorre no único tempo em que dura. Acontece em ciclos, cada um que se encerra inaugura um novo e diferente, muitas vezes surpreendente. Nada do que você projetou para o futuro é sequer considerado no fio da vida que se desenrola em suas formas estranhas .
Há momentos de profundo cansaço, quando se instala o sentimento de que nada mais há a fazer, tudo se exauriu, o futuro está coberto de brumas e o horizonte se fecha. É num momento assim que uma etapa se finda  e outra se inaugura, talvez pior, quem sabe melhor, pois a vida se dá em ciclos, cansaços e ressurreições.
Cada ciclo inaugurado desmente a afirmação de que só se vive uma única vez. Existem sempre novas vidas em constante retorno. Somente a morte é definitiva.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Cena de rua



Eles estão deitados na calçada da pequena praça, dormem no dia claro, de sol luminoso e forte calor neste apogeu do verão. O barulho dos automóveis e o acelerar dos ônibus não são capazes de acordá-los. Dormem profundamente em pleno dia de trabalho, comércio intenso, lojas abertas e transeuntes apressados.
Devem ter se recolhido nas últimas horas da madrugada, quando são menores os perigos da noite e por isso os mendigos do bairro costumam dormir na companhia de um cão que os protege. Eles só têm um ao outro e ambos dormem profundamente. Ela coloca com cuidado o braço protetor sobre as suas costas.
Em volta, alguns pertences desarrumados, duas bolsas de aparência um pouco cara e origem talvez clandestina. As pessoas que passam, umas olham-nos com desprezo, outras com alguma indignação por um quadro que lhes parece triste e feio. Para muitos eles são invisíveis, fazem parte de uma paisagem miserável a que o bairro já se acostumou. Refletem também, na intensidade anônima da rua, uma desajeitada e silenciosa cena de amor. Mas esta passa despercebida.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Insetos



A humanidade foi capaz de se adaptar ao rude e violento planeta que habita e chegou ao ápice da cadeia alimentar. Poder supremo, dotada de inteligência, capaz de desenvolver a ciência, expressar-se pela arte, descobrir coisas e observar o mundo através de sua imanente sensibilidade. Reina entre os viventes, reinventa a natureza e, no exercício da sua vontade, influi sobre o meio ambiente em que vive.
O ser humano se desenvolveu, transformou-se em força superior, preservando características originais da sua condição de fera: animal carnívoro, omnívaro, violento e sanguinário, entre todos os bichos é o único que mata o semelhante por vingança ou pelos mais fúteis motivos.
Predador supremo, o homem está no entanto posto em risco pelo menor e mais desprezível dos seus inimigos, ameaçado de morte e extinção pelo inseto. Semeador de epidemias, propagador de moléstias mortais, com 10 milhões de espécies diferentes, o inseto tem aptidões para vencer e substituir a humanidade no domínio e na liderança da vida no planeta Terra.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Os velhinhos gays

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 Durante os carnavais eles se reuniam no bar da esquina, os quatro velhinhos gays, para a sua melhor diversão: acompanhar com o olhar os rapazes que passavam em direção à praia. Levantavam-se para ver os pequenos blocos evoluindo na Barata Ribeiro. Bebiam e riam, um riso cúmplice entre eles, malicioso e divertido.
Não os vejo mais. O último deles andava com uma acompanhante que o vigiava quando sentavam-se os dois à mesa do botequim. Provavelmente para não deixa-lo beber nada que não fosse um refrigerante. Há muito que também não o vejo. Os outros três haviam sumido aos poucos, a intervalos de tempo cada vez menores.
Viveram tempos alegres. Ou então sabiam onde descobrir alegria. Olhar para o carnaval da juventude parece que tinha esse poder sobre aqueles velhos nos derradeiros tempos de suas vidas que, de alguma forma, souberam como viver.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

vinha o dia



despido de sua máscara
vinha o dia
trazia lembranças bichos

carregando seu passado
tropeçando e se nutrindo
de memória

vinha o dia seus tercetos
apontavam a matéria e nos diziam
que nem o canto nem o pranto

cessariam
nem o destino revelado
algo a se mover nos templos

e nos bares
na fome
suicídios

espetáculos de dor presenciados
memórias simplesmente
sem qualquer entendimento

explicação de nada
funeral de cinza acumulada
vinha o dia

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Holocaustos



Quatro milhões de africanos foram trazidos para o Brasil como escravos. Seus donos tinham o direito de matá-los, se assim o quisessem. Muitos o fizeram. Em Canudos, vinte mil sertanejos foram massacrados pelas tropas federais. O genocídio praticado pelos turcos contra os armênios deixou mais de um milhão de mortos. Os belgas mataram dez milhões de pessoas durante a ocupação do Congo.

A história do mundo é uma sucessão de crimes praticados pelo homem contra o homem. Não é preciso falar em combates de guerra para medir o grau de violência na natureza da humanidade. A vida diária expõe o desejo de matar, o homicídio é mais ameaçador do que as doenças como causa de morte entre os animais racionais.


Da sucessão de genocídios, alguns foram esquecidos. Ficou forte na memória histórica o holocausto judeu, noticiado e analisado em todas as suas formas de violência brutal. Foi também a prova final da falência da humanidade. Escrita na parede em um campo de concentração, encontrou-se uma frase que ficará gravada na má consciência do nosso tempo: “se existe um Deus, ele terá de implorar pelo meu perdão”.