quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Um ano sombrio


Aproxima-se o fim de um ano em que a palavra crise foi a mais pronunciada. Desde os gregos antigos ela define o momento em que o doente vislumbra a possibilidade da morte ou da sobrevivência. Ficarão por muito tempo as marcas de várias crises. A tragédia dos refugiados aos poucos vai sendo esquecida pelos noticiários mas está presente e vai permanecer como sombra do fracasso da humanidade e dos governos do mundo. Vamos nos acostumando com a violência a nosso lado, como quem vive em países destruídos pela guerra.

A degola de prisioneiros exibida na rede mundial, os desastres naturais e os provocados pelo homem, lama tóxica destruindo pequenos vilarejos do interior, o tiroteio nas ruas da cidade com suas balas perdidas. São detalhes de um grande cenário  de horror. Não dá para crer na beleza da aurora nem no repouso anunciado pelo crepúsculo de cores esmaecidas.

Enquanto os negociantes decoram suas lojas com símbolos do Natal, há um latejar de sangue nas fímbrias do dia e um olhar sem ternura nos semblantes. Procuram-se sinais de sorriso no rosto dos passantes mas se vê traços de ódio. Alguém me disse que existem duas cidades no mundo em que as pessoas têm medo das crianças. Uma seria o Cairo, a outra é o Rio. A passagem do ano traz consigo o despertar de esperanças.Precisamos descobrir onde residem as esperanças e então, como escreveu Maiakovski, tomar emprestada alguma alegria ao futuro.


domingo, 8 de novembro de 2015

Cidades mortas


As cidades nascem, crescem e morrem como os seres vivos.Quem se lembra de Nínive? Sua memória existe apenas na História. Foi a mais importante entre todas, quinze séculos antes de Cristo. O Livro de Jonas a ela se refere como uma cidade excessivamente grande.Perdeu-se no tempo também Senaqueribe, seu construtor, que resplandeceu o mundo com sua glória. E de Tikal, quem se recorda? Orgulho dos reis maias, foi abandonada porque cresceu demais e virou uma cidade perdida entre as árvores da selva.

Há dois anos, Detroit declarou a própria falência. Foi uma das mais ricas cidades americanas. Quando passar o tempo dos automóveis, que fizeram sua riqueza, talvez cumpra o destino de Nínive. Ainda abriga mais de quatro milhões de habitantes. Mas está morrendo. Hoje, javalis pastam no centro da cidade de Chernobyl, que foi grande e representou o poder atômico da União Soviética.


Todas vibravam sua energia e expandiram seu poder pelo mundo. Não resistiram aos desastres que amadureceram sob os pés dos seus habitantes. Algumas foram soterradas, em seu lugar surgiram outras cidades diferentes, muitas vezes com outros povos e falando outras línguas. As grandes metrópoles alimentam o mito de que são eternas mas o tempo não reconhece eternidade no que as civilizações humanas construíram.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Meu irmão


Sua agonia foi com a mesma coragem do menino com quem compartilhei a infância e foi meu amigo durante toda a vida. Comportou-se até o fim sem medo do confronto, afirmando sua humanidade perante o desconhecido.

Seu rosto de criança se revela na minha memória. Os cabelos de fogo, a face sardenta, o olhar inquieto e a curiosidade diante da vida. Seus embates e os meus cuidados de irmão mais velho. Ele me ensinou que a vida não é absoluta, pode ser desafiada e nisso reside a nossa vitória.


Agora o vejo partindo sem lamento, silencioso e grave. Suas palavras estão nos livros e nos textos que publicou mas o melhor se perdeu: o humor inteligente e ferino, o riso aberto e contagiante, o jeito de olhar com ironia para a tristeza da vida, o encanto da sua presença. Vejo, na névoa do tempo, o adeus da criança pequena que já compreendia o mundo. Descansa, meu menino, meu amigo, criança valente, pela última vez enfrentaste sem medo a escuridão.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Atividade


Iniciou muito cedo a sua jornada e de repente apareceu com um beija-flor preso na boca. Consegui resgatá-lo depois de algum trabalho para convencê-la. A pequena ave, em minhas mãos, com o coração disparado, demorou um pouco a acreditar que estava de novo em liberdade até partir num voo confuso, sem rumo, desesperado. Como costuma ficar sempre por perto, acompanhando meus movimentos, pulou para a mesa do computador, desorganizou os objetos que estavam em cima, pouco depois conseguiu acionar o grampeador e cravar um grampo na pata dianteira, que removi com cuidado. Ela permitiu essa operação talvez dolorosa com tranquilidade embora um pouco trêmula.

Passou alguns minutos lambendo o local ferido, atividade interrompida pelo salto veloz na direção de um pombo que pousara no muro da varanda. O ataque falhou e mais uma vez seu miado de decepção prometia futuras retaliações contra qualquer outro pássaro que se arriscasse em seus domínios. Sobrou para um bem-te-vi descuidado que espantei com um grito e por muito pouco não teve o mesmo destino do beija-flor. Ela passou a me olhar com desprezo e algum ressentimento.


Aceitou as pazes depois de uma guloseima mas mesmo assim marcou seu protesto correndo na direção de qualquer coisa que se movesse, fosse pássaro, planta, inseto ou papéis tocados pelo vento. Deu algumas corridas, acompanhou com o olhar um ruidoso bando de maritacas que passou ao longe e, como eram apenas sete horas da manhã, acomodou-se em minha mesa de trabalho, fechou os olhos e fingiu que dormia, sem deixar de me vigiar. Acompanha o movimento dos dedos no teclado. Disfarça. Como um dos seus divertimentos é me pregar sustos, espera que eu me distraia. A qualquer momento vai atacar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O sacrifício


O sentimento de que nada existe para sempre e tudo tem um fim, dependendo só da passagem do tempo, estimula a fantasia do infinito, da possibilidade de outras vidas e até de outras dimensões do eterno. A certeza da morte de tudo e a consciência da solidão do planeta num universo desconhecido plantaram a tristeza dos homens. A invenção da divindade, ao invés da libertação pela transcendência, criou a existência do pecado, da culpa e o fantasma da danação.

A dimensão trágica nos olhos de uma criança acossada pelo sofrimento desperta questões sobre a crueldade, a fatalidade e a existência de Deus. Ao afirmar que o mundo quebra indiferentemente os muito meigos, os muito bons e os muito bravos, Hemingway trazia para o plano individual uma síntese de toda a angustia humana e refletia sobre a inutilidade da virtude diante da tragédia do destino.Talvez o alcoolismo que o atormentava tivesse aí um dos seus fatores.


A tradição religiosa do ocidente crê na vida como uma consequência da morte. O sacrifício do filho mais amado de Deus foi a forma de purgar as imperfeições éticas de um mundo que continuou como era. Alguns chegam a dizer que pior. Talvez esta crença na salvação que só é possível com o oferecimento de uma vida em troca do perdão esteja na origem de todas as ilusões do mundo e seus sacrifícios inúteis. 

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O poder


A luta pelo poder é inerente aos grupamentos humanos e também realidade nos rebanhos, matilhas e toda forma de convívio animal. Mais do que dinheiro, tem sido o móvel das lideranças que surgem na sociedade. Nada seduz mais do que a capacidade de obrigar os outros a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, mesmo contra a própria vontade. E assim ocorrem os dramas sociais e também as grandes tragédias subjetivas, como Shakespeare mostrou em Hamlet, Macbeth, Julio Cesar e outras histórias do poder que ele contou de forma admirável.

Os ingredientes da luta e do próprio exercício do poder são a traição e a intriga, a inveja e o ódio, a corrupção e a vingança estimulados pela ambição e as fraquezas humanas. Como o poder político é a sua forma mais absoluta, na sua conquista expõem-se as misérias que afligem a condição humana. O crime, o suicídio, o genocídio e a prática de torturar fisicamente os adversários manifestam sua presença. A política é a forma superior de exercício do poder mas também conduz à danação, à derrota e à loucura.


Abraham Lincoln disse que, para julgar o caráter de um homem, basta lhe dar qualquer parcela de poder. E para Erich Fromm a ânsia de poder não tem origem na força mas na fraqueza.Em seu desejo de conquistar a supremacia e a glória, os poderosos recebem de Miguel de Unamuno o aviso de que toda vida, ao final, é um fracasso. Em sua obra, Unamuno tentou dar sentido aos paradoxos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Os sinos


Nada do que é humano me é estranho, disse o poeta Terêncio, que viveu em Roma 200 anos antes de Cristo. Em latim, esta frase se escreve "Homo sum: nihil humani a me alienum puto”. Machado de Assis gostava de citá-la eliminando a última palavra, que nada tem a ver com qualquer sentido em português. Machado se rendia aos pudores da época em que viveu. Terêncio resumiu conceitos fundamentais, pois somos semelhantes e tudo o que acontece a outro poderia ter acontecido a nós mesmos. Daí a necessidade da compaixão e da tolerância.

Em cada um habitam muitos. Podemos ser covardes ou heróis mas são poucos os heróis. Somos capazes de vilanias e um gesto nobre nos emociona, uma covardia nos entristece porque admiramos a coragem e a beleza dos heróis. Luis Cernuda, poeta andaluz, dizia que um só exemplo da superioridade moral dos heróis é bastante para testemunhar toda a nobreza humana.


Nosso destino se confunde com o de outros seres humanos. Somos também os que sofrem, os perseguidos e as vítimas das injustiças, e para se fazer solidário não é preciso ser cristão. Ao dizer que nenhum homem é uma ilha, o poeta inglês John Donne termina seu poema lembrando que não se pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

domingo, 18 de outubro de 2015

A Nona


Trazer de volta momentos vividos é uma das notáveis emoções que a música desperta. Sensações desorganizadas de lembranças e reflexões guiadas pelo sentimento que o momento conduz. Da mais alta montanha ao vale mais profundo, como nos sugere o início da Sinfonia nº 1 de Brahms. Quando a compôs, ele quis homenagear Beethoven, que venerava e que morrera seis anos depois de seu nascimento. O maestro Von Bülow, alemão como os outros dois, dizia que a primeira sinfonia de Brahms era também a décima de Beethoven, que só compôs nove sinfonias.

É sobre a Nona Sinfonia que eu gostaria de falar. Sobre as imagens despertadas na memória e seus recantos inconscientes onde jazem as mais estranhas emoções. Nos primeiros acordes há uma praia deserta com dunas brancas no fim da tarde iniciando a noite, quando quatro jovens quase bêbados, saturados da magia do mundo, calavam-se, entregavam-se à música e olhavam para o mar escuro e calmo. Não havia pensamentos sombrios em Arraial do Cabo, Praia Grande, anos 70.


O poema de Schiller que Beethoven usou para o último movimento da Nona traz consigo a lembrança de momentos felizes. Quais momentos? Embora sem conseguir defini-los com clareza, há no entanto a consciência de que nascemos para desafiar destinos incertos e afirmar perante eles a nossa própria humanidade. Schiller chamou seu poema de À Alegria e Beethoven mandou cantar a Ode à Alegria, como passou a ser chamado, por um coral de vozes masculinas e femininas, pela primeira vez na história das sinfonias. Como a nos dizer que a voz humana é um dos mais belos instrumentos da música.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Paralelas


Crianças imaginativas costumam pensar que em algum lugar do universo haverá um duplo. Alguém igual a elas, que pensa e age como elas de idêntica maneira. O mito de uma vida paralela encontra-se também na busca da ciência por um planeta igual ao nosso, com a mesma atmosfera onde a vida floresceria tal qual a conhecemos.

Haveria uma outra existência ao lado da vida que vivemos. Nesta aparente percepção estaria a origem da arte, da religião, da criatividade e da loucura. E também da mentira, que é algo que não existe mas que passa a existir numa narrativa da imaginação. Somos porque pensamos, logo podemos duvidar da realidade. O real pode não existir, somos apenas o sonho dentro de um sonho.


Nossa existência seria, portanto, o produto do sonho de uma entidade adormecida em algum lugar perdido no cosmos. Somos, quem sabe, apenas o sonho de Deus ou um pesadelo no qual íncubos e súcubos atravessam nosso caminho, olham para dentro dos nossos olhos e nos impedem de enxergar a vida, nossa vida, a própria realidade e o mundo que talvez sequer exista na forma em que o vemos.

sábado, 10 de outubro de 2015

Bichos


A quantidade de bichos de estimação em Copacabana é maior que a população de humanos. Os velhinhos do bairro costumam estabelecer laços profundos de amizade com gatos, cães e passarinhos e com eles dividem os pequenos apartamentos em que viviam sozinhos. Levam-nos à rua e a eles se dirigem com a mesma linguagem carinhosa de mães cujas crianças ainda não aprenderam a falar.

Passear com o cão pode trazer o desconforto de voltar com algumas pulgas e carrapatos que infestam as ruas à espera de hospedeiros. Por isso a mulher do prédio em frente conduz seu pequeno poodle num carrinho de bebê. Sua vizinha leva o yorkshire calçado com pequenas botas de couro. E há o homem que passa de bicicleta pela Barata Ribeiro com um gato agarrado às suas costas.

O bairro tem o maior número de velhos da cidade. E também de viúvos e divorciados, dizem as estatísticas. Os números expressam a solidão que os pequenos animais vêm aliviar. É tanta e tão próxima a amizade entre gente e bichos que muitas vezes se tornam parecidos entre si. O mesmo jeito de andar, não raro a mesma aparência e o mesmo humor que são fruto da união e do entendimento entre eles.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Outubro

Tímido, indeciso, o sol volta a aparecer mas outubro começou com as nuvens cinzas que trouxeram chuva e esvaziaram  a praia. Copacabana retorna a seus dias mais calmos, que se desmentem pelos engarrafamentos da manhã e do fim da tarde. Marquinhos, o maluco da vizinhança, andava sumido e reapareceu limpo, barbeado e de roupa nova. Tenta organizar o trânsito, dirige raiva e condenação aos motoristas que ousam parar nos limites da faixa de pedestres. Seu olhar amedronta, as mulheres fogem.

Os velhinhos do bairro voltam a frequentar a fila dos bancos e supermercados. Tropeçam nas calçadas de pedras portuguesas, socializam, reclamam, esperar na fila é parte do seu dia. Desconfio que amam este momento em que fogem da solidão e tentam mudar o mundo enquanto esperam e reclamam.


A temperatura amena trazida pelas chuvas é das últimas do ano, que em breve retornará ao verão, a estação mais louca. Os turistas já começaram a chegar, um pouco tristes pela falta de sol. Mas em breve estarão queimados e vermelhos, a temperatura sufocante atacará de novo e os velhinhos, humilhados pelo calor, reclamarão nas filas, tropeçarão nas pedras das calçadas e, aos fins de semana, diante da televisão, voltarão a sentir medo dos arrastões.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Felicidade


Há quem a procure na paixão do amor ou no brilho da fortuna pessoal. Ou então viajando pelo mundo, no exercício do poder, às vezes no êxtase religioso. O homem está sempre em busca da felicidade porque não deseja ser infeliz.

Ordenamentos jurídicos incluem entre os direitos fundamentais o de aspirar à felicidade. Nos códigos severos das religiões, o paraíso estaria reservado apenas aos puros. Seus portões estão fechados aos pecadores e o castigo é não ter o privilégio de ser feliz após a morte.


Tanto quanto a utopia da paz na terra, a da felicidade enfrenta os horrores da realidade. A guerra, a intolerância, a miséria, violência e caos.  O genocídio e os crimes odiosos que se sucedem todos os dias, os desastres promovidos pela natureza destruindo paisagens e dilacerando vidas. A face horrível do mundo esmera-se na promoção do desespero. Os homens desejariam eternizar os breves momentos em que não são infelizes.