sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Jogadores

Loteria, Van Gogh, 1882

Quanto mais alto o prêmio acumulado, maiores são as filas pelas calçadas em frente às lojas da loteria. São os velhos e a gente pobre de Copacabana tentando a sorte duas vezes por semana. E há  também as lojas do Joquei, onde se assiste pela tv e se aposta nos páreos que poderão trazer o instante de alegria.

Jogar é viver decepções alimentadas de sonho. Milhares contribuem para o gozo de poucos, às vezes de um único vencedor que recebe o brinde do acaso. Alguns procuram descobrir leis que regem as incertezas e desenvolvem teorias e crenças  que compõem a complexa psicologia do jogador.


As apostas representam esperança no destino. Diante das inúmeras casas de jogo, as filas crescem sob o sol destes dias de grande calor, na crença de que a felicidade é possível. Pode estar oculta nas bolinhas do sorteio, nas patas de um cavalo ou no talão do bicho do cambista perseguido pela polícia e que está sempre sentado à porta do botequim.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Cordel

Exímios versejadores, os poetas do cordel improvisam a descrição de um mundo particular. Como dizem os argentinos sobre o tango, se algo existe que os poetas do cordel não cantaram é porque não existe. Herdeiros de uma tradição que vem do fim da Idade Média, os cantadores passaram por Portugal mas foi no Nordeste brasileiro que desenvolveram seu talento, encontraram seus temas e consagraram a  poesia do povo.

Os poetas eruditos não conseguem viver do que escrevem, mas os poetas populares do cordel, como Leandro Gomes de Barros e João Martins de Ataíde, sobreviveram do que produziram e divulgaram.

Os versos possuem regras rígidas a obedecer. Entre os vários estilos, o mais difícil, a meu ver, é o “galope a beira mar”. Tem onze sílabas e um ritmo de galope que desafia a criatividade do poeta. A estrofe tem de terminar dizendo “na beira do mar”.

Dois exemplos:
Cantor do lamento da água da fonte
que desce ao açude e lá fica a teimar
com o sol e com o vento, até se finar
no último adejo da asa sedenta,
que busca salvar-se da morte e inventa
cantigas de adeuses na beira do mar.

                        Eu quero nos mares viver e sonhar...
                        Bonitas sereias desejo pescar,
                        Trazê-las na mão pra Raimundo Rolim,
                        Pra mim e pra ele, pra ele e pra mim,
                        Cantando galope na beira do mar.

(José Alves Sobrinho)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Perfeição e vício

Qual é o grau de perfeição das instituições humanas? Nenhum, seria a resposta cética. Nem a interlocução com Deus praticada pelas religiões estaria livre do crime, da corrupção e outras desgraças humanas. Religiosos culpados de pedofilia, juizes que vendem sentenças, nações inteiras vitimadas pelo crime, injustiças e todas as outras iniquidades.

O homem imperfeito das filosofias sonharia com a perfeição mas  o confronto com a realidade nega-lhe a virtude e consagra a vitória do vício. A humanidade trava luta com seus limites e aspira a transformação, seja ela social, política ou espiritual e subjetiva. Algo que transformasse a condição humana.


A experiência da vida, contudo, choca-se com as idealizações e corrompe as aspirações do belo e do bom. Consagra o oposto e desafia o sonho enquanto Satanás dá uma gargalhada. Um pensador bêbado, que foi meu amigo enquanto viveu, sentenciava que o maior problema da humanidade é que Deus não existe mas o diabo existe.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Zanzibar

Leio numa revista de São Paulo a dica de um restaurante em Zanzibar, na Tanzania, e me pergunto  o que motivaria alguem a ir jantar num restaurante em Zanzibar. Os guias descrevem praias de mares azuis e a possibilidade da realização de safaris pelo interior africano. Os brasileiros, que até há pouco exibiam certa timidez diante de viagens pelo mundo, transformaram-se num povo cosmopolita.

Nas capitais do mundo, encontram-se imigrantes ou viajantes brasileiros nas mais diversas atividades. Soube de um cearense que se dedicava, em Hong Kong, a transportar turistas em seu riquixá. Em Londres ou Nova Iorque, estão nas mais diversas atividades, de engraxates a professores universitários. Nesta última, encontrei um mineiro que vendia pão de queijo em um pequeno balcão sob a escada de um edifício em Manhatan.


O preço mais em conta das passagens aéreas, os enormes aviões e aeroportos cada vez maiores convidam a classe média a se aventurar em países distantes. Mas algo me disse, ao ler a dica do restaurante, que havia qualquer coisa de estranho no desejo de jantar num restaurante em Zanzibar.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sobre a loucura

As manifestações humanas de loucura são formas de enfrentamento e desafio diante do que talvez seja o mundo real. Assim como o são a embriaguez, o sonho e a divagação sem os limites da lógica, na direção de horizontes desconhecidos. Refugiar-se no mito, na religião e nas crenças transcendentais são formas assumidas pela imaginação provocadas pela dúvida sobre se existe a realidade, como tem sido descrita pela ciência.

A existência da arte, da poesia e da busca pela beleza, em todas as suas formas, representam o confronto com o mundo que se convencionou chamar de real. Assim como também o amor, sublimação do instinto sexual, cuja existência garante a espécie e sua sobrevivência.


A exata noção do mundo como realidade, e não como vontade e representação, seria insuportável para o ente humano, como atesta o legado dos suicidas. Foi assim que o homem criou a arte, submeteu-se ao amor e mergulhou no desconhecido.