sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Mundo novo

No alvorecer da revolução tecnológica, quando os espaços do mundo diminuiram e ampliaram-se as possibilidades de comunicação entre as pessoas, isto foi recebido com enorme otimismo.

Foi imaginado que a chegada da automação e da inteligência artificial significariam libertação para a  humanidade, que se livraria do trabalho, maldição bíblica depois do pecado original. Haveria mais tempo livre e se discutia o que fazer com ele, talvez o lazer criativo, a melhoria da condição humana.

Mas a receita desandou. Há notícias de trabalho escravo nas empresas asiáticas que fabricam produtos de alta tecnologia, sem falar nas usinas brasileiras de etanol.  O homem mais rico do mundo fez sua fortuna vendendo impulsos de telefone celular para os miseráveis em cartões pré-pagos. As grandes empresas contratam executivos com obrigação de estarem disponíveis as 24 horas do dia em todos os dias da semana.


Foi sequestrado o sonho de liberdade.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Direita e esquerda

O pensamento político tem um conflito entre duas correntes que vem desde Roma antiga.  De um lado os conservadores, que buscam manter os valores que receberam pela tradição e do outro aqueles que defendem mudanças capazes de melhorar a experiência humana num planeta combalido.

Como os conservadores sentavam-se no lado direito e os reformadores do lado esquerdo, nas assembléias da Revolução Francesa, estas  posições marcaram as duas ideologias contraditórias: direita e esquerda. Hoje, muitos dizem que esta divisão não mais existe e quem afirma isso são,  habitualmente, os de posições conservadoras, ou seja, a direita. A esquerda reivindica sua identidade. A direita é uma só e as esquerdas são várias, separadas pelo  maior ou menor grau de mudança ou revolução que apregoam.

Para as desavenças humanas, a divergência política é tão fatal quanto a provocada pelo fundamentalismo das crenças religiosas. Ou até mesmo quanto as brigas entre as torcidas dos times de futebol. Todos esses conflitos têm origem, penso, na crença de que existe uma verdade. Mas o que existe é a luta eterna e trágica dos homens pelo poder de obrigar outros homens a fazerem ou deixarem de fazer alguma coisa. Mesmo contra a vontade. O filósofo Marcelinho Cachaça, de quem já falei aqui, resumia: “quem está em cima bate, quem está embaixo apanha”.


domingo, 11 de agosto de 2013

Ilusões

A capacidade de sonhar mantem os homens vivos. E evita a auto-destruição e a loucura. O mundo não passaria de uma multidão muito mais ensandecida do que é se não fosse a imaginação, a possibilidade de romper a lógica do pensamento e da razão e mergulhar no escuro.

Tudo o que gerou conquistas humanas teve origem na fantasia. Pensar é o exercício da liberdade que leva a romper o cerco do real e explorar o desconhecido. Apesar do medo do que não se conhece, do terreno que nunca foi explorado antes. É daí que vem o temor de romper a fronteira da lógica, imposta pela cultura e pela mentalidade da época em que se vive.

Baudaleire dizia que a imaginação é parente do infinito. E Byron apostou na embriaguez como forma de ultrapassar os limites do comportamento intelectual do seu tempo: “the best of life is but intoxication”.  Foi o mesmo poeta que disse que na solidão é quando estamos menos sós.


A imagem que ilustra o post é da autoria de Van Gogh: Girassóis.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A cerimônia do adeus (2)

Linfoma. Uma palavra feia, de som anasalado, que se fecha em pronúncia soturna, num eco de maus augúrios. Ela voltou do veterinário com esse diagnóstico mas não há possibilidade de cirurgia. Localizado nos intestinos, o tumor tende a crescer e não há o que fazer a não ser evitar a dor com analgésicos e outros remédios que combatam a inflamação.

A medicação parece lhe ter aberto o apetite, pois comeu um pouco mais e balança a cauda como costumava fazer para demonstrar curiosidade ou bom-humor. Olha para nós à distância, sem se aproximar, como os gatos costumam fazer quando estão doentes.  Eles são bichos que protegem sua intimidade e não são dados a derramar emoções, como fazem os cães.

Seu olhar não revela medo, como aquele olhar entre assustado e melancólico que vi, em ocasiões muito tristes, em algumas pessoas doentes que iriam morrer.  Temos agora de acompanha-la até o fim, procurando fazer o melhor para o que lhe resta de vida, se isto for de alguma forma possível. E enquanto brilhar, preciosa, a luz em seus olhos que são tão belos.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A cerimônia do adeus

Ela está recolhida, quase se esconde pelos cantos da casa e praticamente parou de comer. Bebe muito pouca água e a veterinária, apalpando seu corpo, diagnosticou um tumor. Ela emagrece rápidamente. Só depois de fazer uma ultrasonografia, a doutora poderá dizer mais alguma coisa e o que poderá ser feito, se algo poderá ser feito.

O procedimento não deve ser diferente de uma cirurgia e mesmo assim o resultado é difícil de se prognosticar, pois uma cirurgia é algo muito invasivo e violento numa criatura tão pequena. E tão frágil e sem defesas diante dos males do mundo.


Ela me acompanhava todo o tempo pela casa, estava em todos os ambientes para aonde eu me movia. Ao me ver de saida, pedia comida, como se procurasse se proteger da fome durante a minha ausência. Agora,  num dos cantos da casa, me olha à distância, me acompanha com o olhar e em seguida fecha os olhos na busca do sono que talvez lhe traga alivio da dor que pode estar sentindo.