segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Marcilhac



Numa curva suave do Rio Célé, Marcilhac surgiu em torno de uma abadia dos monges beneditinos construída no século XI e destruída na Guerra dos Cem Anos com os ingleses. Foi reconstruída e destruída mais duas vezes, nas guerras de religião e de uma vez por todas na Revolução de 1789. Restam sua ruínas, imponentes.

A abadia deu importância à cidade, em sua época. Parece ter sido construída sobre uma capela romana que existiu em tempos mais antigos. Percorrendo hoje seus corredores, as sombras daqueles muros que existem desde os começos da Idade Média ecoam os prazeres e os sacrifícios da vida monástica naqueles tempos.

Marcilhac não chega a ser uma cidade, é até hoje uma passagem para os peregrinos que se dirigem a pé a Santiago de Compostela. Uma parada para admirar o rio Célé, o mais formoso da Europa, dizem os franceses. Na curva de Marcilhac, antes de desaguar no Lot, ele diminúi também a sua marcha, junta-se num pequeno lago, espelha o verde das árvores em sua volta e pinta uma paisagem de tocante e calma beleza.




sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Rocamadour


Vem de longe a angústia do homem à procura de Deus. Por volta do século XI, uma onda de misticismo gerou o movimento de milhões de peregrinos na direção de Santiago de Compostela. Alguns séculos antes, o bispo de Compostela precisava de dinheiro para a construção de uma igreja e divulgou a lenda de que o apóstolo estava enterrado lá, no pedaço de terra que apontava para o Atlântico e era conhecido como Finisterra, o fim da terra.

Enquanto a história se espalhava e as multidões acorriam a Compostela, cidades surgiam pelos caminhos e uma delas foi Rocamadour. Entalhada nas rochas de calcário, construída em torno da montanha e acessada através de ladeiras íngremes e formidáveis escadarias, Rocamadour testemunhava a adoração de Deus pelos peregrinos que passavam em hordas por aquelas paragens da França .

Rocamadour está lá, até hoje. As hordas continuam chegando, nem sempre crentes, a maioria para admirar as construções assombrosas. A indústria do turismo fez da cidade um produto de extraordinário sucesso. O intenso comércio de souvenires, o preço do bilhete dos elevadores para evitar as escadarias erguidas pelos peregrinos e a imaginação dos comerciantes fazem da cidade um enorme caça-níquel, fiel à tradição inaugurada pelo esperto bispo de Compostela.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sonho


A realidade é uma ilusão, diz a personagem de um filme. O homem nasce só e morre só, tudo o que acontece entre estes dois eventos é pura percepção, pode ou não ser verdade. Talvez seja sonho, alucinação, embriaguez.

Foi para entender isso que os gregos inventaram a filosofia. Para explicar a realidade, se é que ela existe, pois até isso a filosofia tem obrigação de questionar.

Um sonho dentro de outro sonho. Morrer, dormir, a vida é uma história contada por um louco, cheia de som e fúria e sem qualquer significado, nos diz Shakespeare. Ele era um artista e não um filósofo, mas talvez exista mais verdade nesse enunciado do que supõe a nossa vã filosofia.

sábado, 8 de setembro de 2012

Um caderno antigo


No meio de velhos guardados, encontrei um caderno antigo, do tempo em que servi ao Exército. São páginas escritas com a minha letra, mas eu não me lembrava mais daquelas anotações. Elas misturam a descrição de armas de guerra com esboços de poemas que devo ter escrito durante as aulas que nos apresentavam à tecnologia desenvolvida para matar.

O FM Madsen tem uma velocidade de tiro de 184 mts por segundo e sua caixa da culatra está dividida em caixa, tampa, suporte da coronha, portinhola e guarda-mato, diz uma anotação. E, ao lado, estes três decassílabos: “o mar que conduzimos nos sentidos/desde gélidos pássaros feridos/às coisas animadas que nós somos”.

Na mesma página da minuciosa descrição de um Lança-Rojão, arma tática da Cavalaria, a tradução que devo ter feito, durante a aula, de um poema de Paul Eluard: Eles ignoravam que a beleza do homem é maior do  que o homem. Eles viviam para pensar e pensavam para calar. Eles viviam para morrer e continuavam inúteis.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O amor no país profundo


As personagens não têm o glamour que se costuma ver no cinema. O cenário dispensa as produções esmeradas e a música é brega. Mas o tema é universal, pois trata  do amor e seus sofrimentos. Em Vou rifar meu coração, a diretora Ana Rieper comprova mais uma vez a excelente escola brasileira de documentários.

Apesar de algumas sequências um pouco longas, o filme cativa pela sinceridade dos depoimentos num pano de fundo de canções desesperadamente sentimentais. Protagonistas anônimos e figurantes famosos como Lindomar Castilho, Amado Batista, Aguinaldo Timóteo, Wando, Nelson Ned e Walter dos Afogados. Os astros da música que dá alento às dores de corno do povo do Brasil profundo.

Do interior de Sergipe e Alagoas aos subúrbios das metrópoles, uma crônica brasileira sobre a paixão, o amor e suas formas, a traição e o abandono. Com o realce da trilha sonora de um romantismo tão intenso que só a música brega é capaz de alcançar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Talassa, Talassa


O Rio é uma cidade que nasceu do mar. Foi o caminho por onde vieram os descobridores e o leito natural de uma paisagem tão decantada e tão cultuada pelos próprios habitantes. Mas o Rio, ao longo da sua história, tem afastado de si o mar.

De Copacabana ao centro, viaja-se por autopistas construidas em aterros que escondem a praia em duvidosas construções. As ondas, que antes batiam no morro da Glória, onde se encontra a Igreja, estão hoje represadas a mais de um quilômetro de distância.

A Avenida Atlântica, várias vezes aterrada, é também o palco de arenas, quiosques, tabiques misteriosos como o da foto, escondendo a paisagem. O carioca, que diz amar sua cidade, odeia o mar.

sábado, 4 de agosto de 2012

Fim de semana


Um galo pequeno e magro é conduzido em uma coleira por uma mulher magra e pequena nos dias de grandes jogos do Fluminense, ambos com a camisa do time. Mas é ele, o galo, quem faz o caminho, anda na frente e conduz a mulher. 

Um ciclista passa rápido pela ciclovia com um gato agarrado em suas costas. O gato tem um ar tranquilo, parece à vontade, tanto quanto o homem que o carrega.

Há também um outro homem com seu papagaio nos ombros. E um compositor que passa de bicicleta e reproduz num alto-falante seus sambas de partido-alto gravados numa voz rachada que assusta o papagaio. E há os cães. Vira-latas, poodles, labradores, yorkshires, shih tzus, maltezes, acompanhando o ar de solidão dos homens e mulheres que passeiam na praia.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mondovino



Rudy Kurniawan (foto), um esperto indonésio de 36 anos, viveu em Nova Iorque durante 10 anos de vender vinhos raros em leilões. Era também conhecido como Dr. Conti, por causa do seu vinhedo favorito, o Romanée-Conti. Respeitado como um profundo conhecedor, só no ano de 2006 ele vendeu US$36 milhões em vinhos franceses. Todos falsos.

Na outra foto, um Petrus de 1961, legendário Bordeaux cujo preço chega a 104 mil euros por caixa. O da esquerda é falso. A técnica de Rudy era usar bons vinhos em garrafas falsas de marcas famosas em safras especiais. Transformava vinhos caros em caríssimos.

Rudy foi preso pelo FBI mas parece nos dizer como os ricos podem ser enganados. No desejo de exibir sua fortuna e diferenciarem-se das pessoas comuns, tornam-se presas fáceis de quem sabe dimensionar até onde vai a estupidez humana. 

domingo, 15 de julho de 2012

No calçadão


A mulher miúda tem o passo apressado, balança os braços e o corpo como se fosse uma boneca de molas. Usa um boné bem maior do que a circunferência da cabeça e óculos estreitos que lhe dão uma aparência de morcego. A outra que vem em seguida, muito branca, alta e magra, tem uma bolsa a tiracolo, passadas largas e o olhar determinado.

Quando se caminha diariamente no calçadão, num mesmo horário, acabamos por cruzar sempre com as mesmas pessoas. Somos capazes de adivinhar quem vamos encontrar em seguida. O gordinho de peito nu quer faça frio ou calor antecede a mulher de rosto contraido que corre com enorme esforço. Ela luta contra o excesso de peso, que lhe avolumou os quadris e lhe deformou a barriga.

Caminhantes e corredores solitários, alguns estão ali porque o esforço físico proporciona uma certa euforia; outros, com carregada expressão no rosto, fazem sacrifício supremo para compensar os anos de prazer que acabaram por deixar pesadas lembranças.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Veranico



A lua cheia no ceu sem núvens substitúi nas horas da noite o sol que de dia tem dado ares diferentes ao inverno de Copacabana. As manhãs são de praias cheias. Ao contrário de outros anos, o bairro não hiberna à espera do próximo verão.

O calçadão se movimenta com seus quiosques ocupados pelos turistas que devem ter vindo conferir a paisagem decantada. As mulheres desfilam bronzeadas pelo calor inesperado. A maioria está acima do peso, confirmando o que dizem pesquisas sobre a obesidade do nosso povo.

Os velhos do bairro também saem para a rua e se dirigem como sempre às filas dos bancos e supermercados. Parecem mais ativos, este ano, porque o inverno tarda e o mês de junho nos brindou com esses dias de primavera.