quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

No taxi

Entro no taxi e o motorista diz que sou o primeiro passageiro em mais de três horas. Rodava o tempo todo vazio, revoltado, pois ao fim do dia teria de pagar a diária. Às vezes trabalhava o dia inteiro só para pagar essa diária. E os passageiros rareavam.

Depois disse que era formado em administração de empresas, tinha sido gerente de banco até ser demitido, há dois anos. Não tinha conseguido se recolocar. E o trânsito da cidade estava cada dia pior, miserável, desumano.


Tem uma filha portadora de deficiência, ela precisa de tratamento e cuidados e os hospitais públicos estão abandonados, nem médico bate ponto neles. E disse que às vezes dá vontade de quebrar tudo. Pedi que parasse na esquina, paguei acima do que marcava o taxímetro, entrei no botequim e pedi uma bebida forte.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ser feliz

Entre os mitos que a humanidade acalenta, a felicidade talvez seja o mais recorrente. O desejo de se distanciar das limitações, da submissão diante do  inesperado que se abriga no desconhecido. Sonho do paraiso perdido, objeto de intensa angústia, terreno habitado por fantasias insondáveis.

O homem é o único animal com a certeza da morte e compensa seu desespero com as esperanças cultivadas. E com o refúgio no absoluto que as religiões e as crenças às vezes proporcionam.


O mito de ser feliz está presente nas mais profundas aspirações, nos votos, saudações de aniversário e ano novo, nas flores jogadas ao mar e também nas despedidas e nos acalantos. Os homens buscam a felicidade de maneira tão intensa que a decepção acaba por torná-los mais infelizes.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Calor

A temperatura alta do verão carioca, a umidade do ar e o sol forte desses dias me fazem lembrar um texto de Borges que fala da humilhação do calor. Acho que é isso: o calor humilha as pessoas, a roupa se cola ao corpo e o suor desce pelo rosto, o seu e o dos passantes. Você se sente como se carregasse bolas de ferro amarradas aos tornozelos. Todos reclamam do calor, uma mulher se abana de maneira nervosa e um camelô vende leques na calçada.

Uma amiga que nasceu e vive na Europa me disse um dia que a lembrança mais forte dos dias que passou no Rio, durante um mês de fevereiro, era a de uma gota de suor que lhe escorria, permanentemente, espinha abaixo. No calor europeu do mês de junho, não há suor. A baixa umidade do ar provoca um calor seco e sufocante.

O Rio é uma cidade que vive o verão. É quando ela mostra sua face verdadeira, regurgita, festeja e, literalmente, põe o bloco na rua em desfiles carnavalescos que começam desde janeiro. De abril a setembro, a cidade hiberna, esperando estes meses quentes de praias cheias, asfalto amolecido, bares com todas as mesas ocupadas, mulheres seminuas, samba e calor humilhante.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mister Lu

Mister Lu sobreviveu no Brasil dando aulas de inglês. Era chinês de Hong Kong e sua desventura começou quando apaixonou-se por uma diplomata brasileira e se mudou para cá. Pretendia casar-se. Antes de viajar, vendeu tudo o que tinha e comprou um terreno em Brasília onde ergueria uma casa e construiria o lar. Vítima de um vigarista, o terreno ficava dentro do lago da cidade. E a noiva morreu de repente antes do casamento.

Começou a dar aulas de inglês. Transferiu-se para o Rio, alugou um pequeno apartamento em Copacabana e embriagava-se todo fim de semana. Seu agradecimento irradiava felicidade quando, na aula das sextas-feiras, de vez em quando eu o presenteava com uma garrafa de uísque.


Um dia, me deu o livro de textos que o guiava nas lições, disse que não tinha mais nada a me ensinar e desapareceu para sempre. Nunca aprendeu direito o português. Algum tempo depois, me disseram que ele se matara, perto da virada do ano, com um disparo na têmpora direita.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Turistas

Eles já estão por aí, ainda muito brancos, alguns já acometidos da vermelhidão que decorre dos primeiros dias de sol. Muitos vêm de longe e procuram se expressar em inglês deixando atônitos, imóveis, os garçons dos botequins. Outro dia, ajudei um casal a pedir um prato de batatas fritas. Chope, souberam falar.

Um turista não passa despercebido, em nenhuma cidade do mundo. Algo os denuncia, um ar desprotegido e curioso, diferente modo de olhar as coisas, roupas de outra moda, curiosidade por tudo e o jeito meio perdido de  andar na rua.


Talvez seja Copacabana o bairro de maior concentração dos mais de um milhão de turistas que aparecem no Rio durante o verão, como andorinhas migratórias de outros climas. Fogem do frio do Hemisfério Norte, muitos vêm dos outros estados do Brasil para enfrentar o forte  calor destes meses. A beleza da paisagem parece compensar as ameaças que a cidade guarda em suas sombras.