segunda-feira, 14 de outubro de 2013

No bar

No bar ao lado do mercado, na pequena cidade francesa, um casal está sentado a uma mesa, ela bebe vinho rosé, ele cerveja. É o princípio do outono, as folhas dos plátanos estão amarelecidas e já começaram a cair. Ambos passaram um pouco da meia idade, ele usa um pequeno brinco na orelha esquerda, ela não consegue disfarçar a dentadura e tem os cabelos desarrumados.

Ele acaricia as suas mãos e depois, com surpreendente agilidade, tira papel e fumo do bolso da camisa e faz um cigarro, como se fazia antigamente. Tem um nariz grande e vermelho, é magro e inquieto, bebe sem parar. Ela olha para ele apaixonadamente.

A tarde tem um tom cinzento, há pouca gente na rua. Os bandos de estorninhos negros e barulhentos já começaram a chegar e procuram entre as folhas das árvores um lugar para passar a noite. O bar está quase vazio, a mulher continua a olhar para o homem e de súbito começa a chorar discretamente, um choro constrangido, como se não quisesse chorar mas não podia evitar.


sábado, 12 de outubro de 2013

Galeão

Uma multidão de aflitos e mal dormidos cerca a esteira de bagagens na madrugada do Galeão. Alguns vão muito esperar pela mala perdida. É difícil não comparar a desorganização do nosso aeroporto com o funcionamento adequado de outros pelas cidades do mundo.

Tenho para mim que se trata de uma estratégia usada no processo de privatização dos serviços públicos. Primeiro, deixa-se que se deteriorem até que sejam despertadas a impaciência e a ira dos usuários. A privatização surge como solução para todos os problemas. Lembro-me do processo por que passaram as empresas de telecomunicações. Hoje, pagamos as tarifas mais caras do mundo e o serviço é alvo de queixas intermináveis.


Assim também ocorre com as empresas públicas. Passam por planejado processo de desmoralização, algumas chegam a apresentar prejuizos reais ou imaginários. E depois são vendidas a preço de ocasião.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O caminho de Santiago

Quando, por volta do Século XII, espalhou-se pela Europa que o apóstolo São Tiago estava enterrado em Compostela, começou uma enorme peregrinação até aquela pequena cidade da Galícia. Eram multidões de fiéis católicos que cruzavam o Continente numa caminhada que durava muitos meses, algumas vezes alguns anos.

Aqui no Sudoeste da França, ordens religiosas criaram abadias e mosteiros para apoiarem os peregrinos e no entorno deles surgiram cidades, fundadas por aqueles que ficavam pelo caminho, na ida ou na volta. Era um trajeto duro, cansativo, cercado de perigos e a constante ameaça dos assaltantes de estrada.


Quase mil anos passados, até hoje não cessou a peregrinação a Santiago de Compostela – Saint Jacques para os franceses – e ainda se cruza pelas estradas com muitos jovens e alguns velhos, de mochila nas costas e cajado nas mãos, numa determinada busca de Deus através da mística de São Tiago, que talvez tenha sido enterrado em Compostela.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Perpignan

A história de Perpignan remonta pelo menos ao ano 1000 e hoje, depois das batalhas vividas através dos anos, é uma cidade moderna, agradável e cosmopolita. O traçado medieval das ruas antigas é compensado pelos espaços em que se construíram praças onde se amplia o convívio humano. O bom gosto estético que se vê no caráter do povo catalão aqui se expressa na sofisticação da arquitetura dos prédios, nas vitrines comerciais, na decoração dos restaurantes, no traçado das ruas, no vestir das mulheres.

Adotando o slogan “Perpignan, la catalane” investe-se da sua personalidade de cidade francesa diferenciada, com cultura própria que nunca esqueceu sua própria língua – o catalão é tão falado na cidade quanto o francês. Tem orgulho de ter sido escolhida como a capital da cultura catalã. Salvador Dali dizia que o centro do mundo encontra-se exatamente na sala de espera da gare de Perpignan.


Ao contrário do catalão espanhol, que luta por sua autonomia e talvez por isso exiba um comportamento arrogante e autoritário, o catalão francês é de trato ameno e cordial. Sem perder sua identidade, integrou-se no país e não parece um povo dividido entre duas culturas distintas. Neste outono, Perpignan foi uma descoberta.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O banho

O hábito brasileiro do banho diário é uma herança cultural dos nossos antepassados indígenas. O colonizador português, como os europeus de maneira geral, evitavam água no corpo. Na Idade Média, pouco antes das grandes navegações que vieram a descobrir o Brasil, o primeiro banho do ano se tomava durante o mês de maio, depois do grande frio que começa em novembro de cada ano. Esta é a razão de maio ser até hoje o mês escolhido para a realização dos casamentos, pois comemorava o primeiro banho das noivas e tornava mais agradável a noite de núpcias.

Os indígenas brasileiros, que se banhavam várias vezes por dia, ensinaram aos portugueses o prazer do mergulho nas águas tépidas dos rios tropicais. Os hábitos culturais, sedimentados em gerações, demoram, no entanto, a ser abandonados.  Daí  vem o acre cheiro de corpos exalado nos ares da Europa nesses meses que sucedem o calor do verão. Neste outono europeu, penso que muita gente ainda espera o mês de maio do ano que vem.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A feira

Existem algumas poucas maneiras de o turista conhecer uma cidade estranha, embora a maioria não tenha real interesse em fazer isso. Prefere uma visão rápida da paisagem urbana, visitar alguns museus, lojas, shopping-centers e seguir adiante. Alguns batem recorde de visitas e chegam a passar por dezenas de cidades e países num único período de férias. Guardam apenas as fotografias apressadas.

Penso que a melhor maneira de sentir uma cidade, na celeridade de um turista, é visitar a feira livre. Ou o mercado central. É o espaço que mais traduz a cultura de um povo, seus hábitos e seu jeito de ser. De objetos artesanais, livros e músicas populares até a maneira de comer está tudo exposto nas barracas dos feirantes.


A feira também revela os produtos agrícolas locais e sua variedade e qualidade mostra se estamos numa área mais pobre ou mais rica. Os tipos humanos que frequentam a feira são o que há de mais autêntico na revelação de um povo e ainda se pode degustar, com prazer, a legítima cozinha da região.