terça-feira, 6 de agosto de 2013

Finitude

A consciência da finitude se dá pelo testemunho do que morre em torno de nós. Plantas, animais, amigos, o próprio dia que morre no crespúsculo para renascer amanhã, mas que não será o mesmo dia. Será diferente, tão diferente que talvez venha a destruir a ilusão de equilíbrio de um mundo em eterna transição.

Nada será como antes parece um slogan apropriado para cada novo dia. É um lugar comum como o de que o mesmo rio nunca passa embaixo da mesma ponte. E o fato de que amanhã não seremos os mesmos que somos hoje, pois envelheceremos e os acontecimentos estarão cada vez mais distantes da nossa vontade.


Quando se é muito jovem, um sentido da permanência das coisas nos acompanha e somos incapazes de imaginar o fim de tudo, pois vivemos numa realidade em processo, acontecendo. E existirá sempre uma luta do homem com seu destino, aquela que Hemingway percebeu ao compreender a simbologia das corridas de touros, um confronto travado contra si mesmo no qual ele foi derrotado.

domingo, 4 de agosto de 2013

O inconsciente

O inconsciente é o território mágico onde tudo acontece diferente da realidade quotidiana e com aparência de completa irrealidade. É o lugar onde habitam as emoções, os fantasmas e o medo. Está sempre conosco, é premonitório e profundo, uma vida paralela que não envelhece e permanece na infância.

Comunica-se conosco por imagens, sem palavras, através de emoções e sustos, nas margens oníricas do sono ou pelos pressentimentos que às vezes se realizam. Dizem que é mesmo capaz de prever o futuro mas é certo que muitas vezes governam nosso comportamento sem disso nos darmos conta.


Em seu círculo sem fronteiras nem limites residem os sonhos, a criatividade humana, a loucura e a tristeza. Acompanha a vida em seus tormentos e nos estados de euforia que não podemos explicar mas que nos levam a compreender as coisas infinitas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Marcelinho

Marcelinho foi um dos que beberam até morrer. Risonho, não revelava o inferno interior do qual se defendia na compulsão de beber. Hospedado comigo em Arraial do Cabo, colocou ao lado da cama uma garrafa de uísque barato que acordou vazia. Quando tomava uma dose de vodka às seis horas da manhã, justificava dizendo que já era meio-dia na Russia.

Norman Mailer, ele mesmo um bebedor compulsivo, dizia que há uma verdade na maioria dos bêbados sérios e Jack London deu seu testemunho: “Não houve tempo, em todo meu tempo, em que eu não quisesse uma bebida”.

Marcelinho, que morreu muito jovem, pilheriava dizendo que o que faz bem à alma não faz mal ao corpo. Mas sabia que estava se destruindo. Uma vez me disse que a cabeça lhe dizia para ter cuidado mas o coração pedia.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A rotina

Aos poucos, Copacabana retoma sua rotina e é devolvida a seus habitantes. Passou o furacão religioso. O trânsito volta a sua loucura habitual e as ruas, que ficaram por quase uma semana vazias de automóveis e cheias de gente, exalam mais uma vez o seu cheiro de gás carbônico.

De manhã bem cedo, Marquinhos, o maluco da vizinhança, passou em passos rápidos, quase correndo, recitando em seu linguajar confuso algo sobre a vida, como se desse conselhos a alguém imaginário. Pequenos grupos de peregrinos estrangeiros ainda estão por aí tentando usufruir de uma réstea de sol neste inverno frio.

O homem que bebe cerveja estava novamente a postos no botequim, às sete horas da manhã. Olhava os passantes. Um dos quatro velhinhos gays passava com uma bolsa enorme na direção do supermercado e os jogadores de dama da praça Campos da Paz começavam suas partidas que vão até à noite. Os bares lavam o chão, desmontam-se os palcos que serviram aos rituais do Papa.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

A palavra esperança

A palavra mais pronunciada pelo Papa foi esperança. Chefe supremo de uma Igreja em crise, seu discurso procurou também reforçar as energias de um mundo em colapso. Ele próprio contestado, pelo papel que teria desempenhado como cardeal na recente história argentina, enfatizou a necessidade do resgate dos valores morais de um universo em decadência.

E colocou os jovens e as crianças como protagonistas do grande evento, numa estratégia de marketing da sua igreja que aposta no futuro para resgatar a influência do catolicismo no mundo, que já foi absoluta no passado. Hoje, perde seguidores no Brasil e em outros países para seitas evangélicas. O mega-espetáculo dessa Jornada deverá trazer muitas ovelhas de volta ao rebanho. As religiões cada vez mais apelam para o espetáculo na pregação de seus evangelhos.

Copacabana, eleita como palco do evento, suportou o impacto adicional de três milhões de pessoas em suas ruas. O trânsito caótico deu lugar a espaços vazios de automóveis e cheios de peregrinos. Os esgotos entupiram, a maré subiu, os camelôs festejaram vendas.

Viu-se, também, uma diferença entre o Papa e outros pastores que ocupam programas de televisão: ele não pede dinheiro em suas homílias.


sábado, 27 de julho de 2013

A batalha

No mundo inteiro, o poder dominante assusta-se com a internet. Pela primeira vez, outras forças exercem sobre a sociedade um tipo de influência política que a democracia clássica jamais havia proporcionado antes: rápida, mobilizadora e até mesmo transformadora.

Este é a razão de todos os governos, em todo o mundo, tentarem dominar este território que até agora conseguiu sobreviver com certa liberdade e alguma anarquia.  O poder é inimigo da liberdade e até agora não sabemos como será o desfecho da contradição que dispõe de um lado a força avassaladora das classes dominantes e de outro este poder mobilizador que a contraria.

Não há dúvida de que o poder econômico já domou parte da internet desde os tempos em que ela servia apenas ao mundo acadêmico. Os grandes grupos descobriram um novo campo gerador de lucros. Mas ainda restam brechas. O poder político pressiona para ocupá-las e as forças contraditórias já tomaram posição de combate: de um lado, o Poder - político e econômico - e, de outro, o impulso que conduz a humanidade à eterna luta pelo direito de contestar e de livremente expressar seus pensamentos.