sábado, 13 de outubro de 2012

Sobre a História


Quando se fala em História, o pensamento é levado a imaginar uma corrente de acontecimentos que teria começo, meio e fim. O mundo inteiro, países, nações e as pessoas como personagens de uma narrativa virtual contada pelo destino. Haveria então uma lógica nos fatos e na sua ocorrência que se sucede no tempo.

Mas não é assim que acontece. Não existe sentido lógico sequer na vida humana, regida por casos fortuitos. A História é uma sucessão de imprevistos. Já se tentou explicá-la através de feitos pessoais de grandes homens ou da lógica dos conflitos. Mas tudo o que aconteceu ou acontecerá no mundo poderia não ter sido. Ou poderia ter sido o seu contrário.

A espécie humana, que domina o planeta, produto de uma contínua evolução, segundo a ciência, poderia não ter existido. Bastaria um pequeno acidente genético, um tropeço ou cataclismo para que não existisse sequer uma História, que é produto do acaso.

domingo, 7 de outubro de 2012

Assalto no metrô


Na estação Chatelet, a mais movimentada, elas entram no vagão lotado, em bando, e lhe empurram forçando a própria entrada. Uma delas, que se colocara bem atrás de você, faz pressão com o corpo contra o seu. Atento, você percebe que, de repente, sua carteira desapareceu do bolso. Pressionada, a menina deixa a carteira cair no chão, aproveita a súbita parada na estação seguinte e foge. O bando a acompanha, nervoso. Ela não teria mais de 13 anos, o olhar era duro, o rosto pálido, de tez doentia. Você suspira aliviado com a recuperação de todos os seus documentos e algum dinheiro.

A Romênia é um país da União Europeia, o mais pobre deles. Egresso de uma ditadura brutal, ainda é dominado pela desordem econômica, a corrupção e o desemprego que chega a mais de vinte por cento entre os jovens. Eles estão emigrando para os países mais ricos em busca de sobrevivência. E roubam, traficam drogas, prostituem-se, formam bandos como aquele da estação Chatelet.

Desde ontem, não consigo esquecer o olhar daquela menina.

sábado, 6 de outubro de 2012

Chez la Vieille


Paris possui bons restaurantes, em qualquer categoria de classe ou preço. Mas é crescente o número de pièges à touristes, as armadilhas para turistas. Nomes de grande tradição como o Pied de Cochon, Brin de Zinc, Le Petit Zinc e Pharamond saíram das mãos de profissionais e foram comprados por grupos empresariais sem compromisso com a qualidade e de olho na multidão de turistas pouco exigente e com bastante dinheiro.

A culinária é uma forma de artesanato, alguns chegam a chama-la de arte. Perde a alma quando passa a ser vista apenas como forma de fazer dinheiro. Parece ter sido este o ponto de vista do empresário Christian Millet quando comprou o bistrô Chez la Vieille (1, rue Bailleul), que fez sua fama quando sua dona era a velha Adrienne.

Millet procurou manter a mesma atmosfera de antes, a mesma decoração das pequenas salas e contratou o jovem chef Itché Tagouma. Vê-se, pelo nome, que ele não é francês. Mas é um mestre da cozinha francesa e tem o que ensinar a muitos chefs da França.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A proliferação da obesidade


As revistas femininas volta e meia falam da elegância da mulher parisiense e costumam compará-la com a mulher americana. Uma seria magra, a outra descuidada com o próprio peso. A francesa, apesar do culto que o país devota à gastronomia, estaria imune à maldição da obesidade. Penso que já não é bem assim.

Embora se cruze com mulheres elegantes, esbeltas, bem vestidas, já se pode no entanto observar uma mudança de padrão no estereótipo. Vê-se que o sobrepeso está presente nas ruas de Paris em mulheres e homens gordos, o que era raro no passado.

A pressa da vida, a popularização do fast-food, a ansiedade contemporânea, talvez sejam estas algumas das causas da proliferação da obesidade. Há quem diga que tudo começou quando o primeiro McDonald’s fez sucesso na França. Hoje, são centenas espalhados pelo país e um deles, vitorioso, exibe sua bandeira no Carrousel du Louvre, o sofisticado shopping center do afamado Museu.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Quercy no outono


Os plátanos começam a apresentar folhas com tonalidades de ouro, sinal de que em breve cairão, cumprindo o ritual do outono.  No Quercy o verão ainda dá sinais de vida mas aos poucos as pessoas vão esquecendo o calor, que elas cultuam como os adoradores do sol dos tempos antigos. Este ano, dizem, as temperaturas bateram recordes nas praias artificiais do rio Lot.

Estão todos felizes com o verão passado. Agora, é preparar-se para seis meses sombrios. Ainda se veem bandos de turistas, velhos, pois os jovens voltaram às aulas e abandonaram as praças, os bares e os campos. O trenzinho ainda circula pelas ruas de Cahors mas, ao invés das crianças, transportam os velhos, que aproveitam os últimos dias sem chuvas e de pouco frio.

No Bar du Centre, bebem os fregueses de sempre, aos poucos vão desaparecendo as mesas na calçada. Jaja e Didier dizem que vão se trancar no interior do bar e lá ficarão até abril, quando as janelas se abrirão de novo e o sol tingirá de azul mais uma vez o céu do Quercy.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Malbec


A maneira mais inteligente de criar uma identidade é ser o que os outros acham que nós somos, parece ser a estratégia dos produtores de vinho de Cahors. Depois de perder mercado para os argentinos, que desde logo chamaram a uva típica de Cahors pelo seu antigo nome – malbec – os produtores locais fizeram o mesmo e deixaram de chama-la “auxerrois”.

Uma nova estratégia de marketing encontra-se em andamento. Depois de rebatizarem o vinho, foram lançados os tipos branco e rosé, para acompanhar o gosto dos jovens. Degustações em feiras e eventos, folhetaria, cartazes e redesenho de rótulos procuram reposicionar o velho vinho da região que se deu tão bem na terra argentina.

O trunfo de Cahors na competição com a Argentina, que hoje é o primeiro produtor mundial, é lembrar que foi em seu território que surgiram as plantações da uva, ainda no tempo em que os romanos dominavam o país gaulês. No começo, era apenas uma entre as várias espécies de bordeaux. Teve um período de glória, depois caiu no esquecimento. Agora, ressuscita e quer deixar no passado que malbec significou mal bec, ou seja, mal para o bico, ruim para o paladar. 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Marcilhac



Numa curva suave do Rio Célé, Marcilhac surgiu em torno de uma abadia dos monges beneditinos construída no século XI e destruída na Guerra dos Cem Anos com os ingleses. Foi reconstruída e destruída mais duas vezes, nas guerras de religião e de uma vez por todas na Revolução de 1789. Restam sua ruínas, imponentes.

A abadia deu importância à cidade, em sua época. Parece ter sido construída sobre uma capela romana que existiu em tempos mais antigos. Percorrendo hoje seus corredores, as sombras daqueles muros que existem desde os começos da Idade Média ecoam os prazeres e os sacrifícios da vida monástica naqueles tempos.

Marcilhac não chega a ser uma cidade, é até hoje uma passagem para os peregrinos que se dirigem a pé a Santiago de Compostela. Uma parada para admirar o rio Célé, o mais formoso da Europa, dizem os franceses. Na curva de Marcilhac, antes de desaguar no Lot, ele diminúi também a sua marcha, junta-se num pequeno lago, espelha o verde das árvores em sua volta e pinta uma paisagem de tocante e calma beleza.