terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Imagens

Às vezes tenho a impressão de vê-la em algum canto da casa. A imagem do seu movimento elegante de insinuar-se por entre os móveis procurando caminho até chegar onde eu estava, aproximar-se e depois aninhar-se a meu lado. Ou quando tiro os olhos do monitor para vê-la cochilando ao lado da tela.

Ela me acompanhava para onde eu fosse dentro do apartamento e, quando saia, me acompanhava até a porta. Na volta, ignorava por algum tempo a minha presença como para me dizer que eu não lhe fizera falta. Ambos sabíamos que era uma forma de punir a ausência porque, pouco depois, ela retomava o hábito de me seguir para onde eu fosse.


Por isso a memória traz a sua presença. No quarto, na sala, no escritório onde trabalho e agora escrevo este post com uma imagem que sempre retorna a minha memória: a de seu olhar fixo, ela já muito doente, olhando dentro dos meus olhos. Foi no dia em que saí de viagem para nunca mais voltar a vê-la.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Ressentimentos

Os dois sentimentos mais contraditórios entre si não são amor e ódio, mas os de ressentimento e generosidade. Muita gente carrega consigo uma carga genérica de vingança cega e ressentida que não dá lugar, entre as emoções, ao pensamento voltado para as razões do outro. Impede-lhe o reconhecimento generoso dos direitos, necessidades e sentimentos alheios


Trata-se de sentimento difuso, sem objetivo certo, ímpeto de aplicar castigo, tortura, linchamento e morte diante de qualquer suspeição de comportamento contrário aos cânones do julgamento pessoal. É uma cruel percepção do mundo, comum às religiões e às ideologias. Está presente mais hoje do que nunca nos debates dos assuntos do dia, ampliados pelos recursos das denominadas redes sociais criadas pela internet.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dante Milano

Um dos grandes poetas brasileiros, Dante Milano está quase esquecido. Contemporâneo do modernismo, recusou o poema-piada e alguns princípios do movimento, o que talvez tenha contribuido para sua marginalização. Há pouco, o poeta Jorge Elias Neto, num discurso, resgatou sua lembrança e leu este belo poema também quase esquecido:

Salmo perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e, não, de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos,
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.


Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Fama

O indivíduo midiático é  errático mas ao mesmo tempo obsessivo. Seu bem-estar depende de ser reconhecido por onde anda.  É uma busca desesperada de ser o que dele se imagina mas isto o perturba, acaba por afetar seu comportamento. Transforma-se, então, numa espécie de simulacro do que pensa que os outros pensam que ele é.

O midiático aliena sua vida e abdica de vivência íntima. Diante dos outros, age como um fugitivo que não quer ser reconhecido e sofre quando passa despercebido nos lugares públicos. Seu maior pesadelo é voltar ao anonimato mas se desespera e sente-se ameaçado quando atrai as atenções e não sabe o que fazer diante dos olhares de curiosidade.


O inferno dos famosos é um misto de prazer e desconfiança, de alta e baixa auto-estima em períodos curtos entre uma e outra. Aos poucos, abandona a vida interior e se defende procurando passar despercebido, como se fosse um desconhecido.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Escravos

O que uma sociedade tem de melhor vem do seu estrato popular mais profundo: tradições, sabedoria, visão do mundo real vivida com o sofrimento que a acompanha. A perversa hierarquia social formou-se na posse violenta da propriedade ocorrida na infância da humanidade.

A apropriação gerou o discurso e a prática do ódio. Transformou o outro no inferno que Sartre definiu. Além de ter criado o chefe, a figura que dispõe de autoridade e mando sobre as outras pessoas. E que promoveu a organização do Estado, entidade suprema, garantidora de que as coisas continuem sempre da forma como estão, com os poderosos exercendo o seu poder e dele usufruindo.


Existem novas formas de domínio do homem sobre o homem através da divisão de tarefas mecânicas em que inexiste a reflexão mais profunda. Como o treinamento substitui o saber filosófico, um novo tipo de escravização se dissemina e aponta para o futuro.