quinta-feira, 18 de julho de 2013

Esperando o Papa

Eles já chegaram, os peregrinos brasileiros, e estão espalhados pelo bairro. Diferentes dos turistas do verão, que são muito brancos, muito louros, avermelhados de sol. Estes que chegam agora possuem tez diferente. São morenos, feições mestiças da raça brasileira mas com a mesma curiosidade sobre o bairro famoso, falsamente rico e cosmopolita em grande parte do ano.

No metrô, fotografam as escadas e os tapetes rolantes e uns aos outros, sempre em grupos alegres, excitados. Alguns cantam em coro músicas que nunca ouvi. Reconhecíveis à distância, diferenciam-se por uma maneira simples no vestir e que transmite a impressão de um estilo meio por fora da moda do momento.


Entre os turistas louros que vêm em busca do sol do verão e estes que esperam o Papa no inverno, há em comum o gosto pelas sandálias de dedo. Uns são alegres e gregários, ruidosos e curiosos. Os outros, os louros e muito brancos, são solitários, andam em pequenos grupos. Sóbrios e calados, expandem certa alegria quando estão juntos, sentados, bebendo cerveja nos bares que ocupam as calçadas de Copacabana.

sábado, 13 de julho de 2013

Os velhinhos do bairro

Os velhinhos do bairro acordam cedo e muitos vão para as ruas nas primeiras horas cumprirem sua rotina diária. Copacabana, como atestam os censos e as pesquisas, é onde se concentra a população mais idosa da cidade.

Como teve o seu maior surto de desenvolvimento nas décadas de 30 e 40, quem se mudou para cá nessa época, se ainda estiver vivo, está muito velho e mesmo os seus filhos já passaram ou estão perto dos oitenta anos. A ocupação  da orla aconteceu com grandes lançamentos imobiliários primeiro em Copacabana e depois Ipanema, Leblon, seguindo em direção à Barra, onde agora se concentra a população mais jovem.


Os velhinhos saem cedo para as compras e também na busca de contato humano. Socializam uns com os outros nas filas e criam laços com caixas de banco, atendentes de farmácias, seguranças do metrô, caixas de supermercado e com os porteiros dos prédios. Conversam longamente com eles. No Natal e na Páscoa, levam-lhes presentes e ovos de chocolate.

sábado, 6 de julho de 2013

Memória

A experiência vivida se transforma,  com a passagem do tempo, em referências esparsas de épocas que talvez tenham de fato existido, ou não. Mistura-se a fantasias criadas em vivências remotas onde a criança e o adolescente se misturam e criam os sonhos no adulto. Regiões habitadas pelas sombras.

Incidentes imaginados corporificam-se em emoções configuradas de dor e perplexidade, alegria e êxtase. Mas em tudo permanece a lembrança que precisa existir para dar vida a pensamentos mortos. Como a passagem de núvens que assumem formas inesperadas, surpreendentes.


A memória e o momento se confundem no instante fugaz. No estado crepuscular que antecede o sono e lá penetram com a missão de desenhar um mundo paralelo. Universo que surge no clarão de um raio, impressão súbita, talvez louca, de entendimento das coisas irreais.

sábado, 29 de junho de 2013

Uma história sem fim

Há muitos anos, quando eu tinha quinze anos, comecei a escrever uma história que não deveria ter fim. Era sobre um homem que olhava a própria vida como um palco cujas personagens interpretavam diferentes papeis e ele assistia. Não podia interferir na trama embora se tratasse de sua vida e as personagens não passassem dos tipos diferentes que ele próprio representava.

Tempos depois, acho que eu já tinha trinta anos, retomei a história que não terminara e vi que o protagonista continuava assistindo o desfilar daquelas personagens, cada vez mais estranhas. Mas eram parecidas com ele próprio e ele não queria aceitar que aqueles tipos eram apenas a representação de si mesmo.

Faz alguns dias achei a história que eu não terminara perdida numa gaveta e o homem havia mudado, na tentativa de incorporar os tipos que durante tanto tempo desfilavam diante de si. As personagens estavam diferentes, haviam envelhecido e recusavam-se a continuar interpretando as faces diversas de quem as olhava, não conseguia entendê-las e mesmo assim procurava dirigi-las.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Um velho

Um pouco depois da seis da manhã, cruzo com ele na Nossa Senhora de Copacabana. Sua calça jeans bem suja teimava em escorregar para baixo, o que o obrigava a tirar as mãos dos bolsos para levanta-la. Andava de cabeça baixa, olhar no chão, vestia um pulover velho, fazia frio como costuma fazer no começo do dia nesses meses de inverno em Copacabana.

Tinha dificuldade de andar em linha reta, balançava o corpo de um lado para o outro pois era gordo e as pernas pareciam fracas. Virava o rosto para um lado e para o outro da calçada como se procurasse alguma coisa. Parou diante de uma lixeira, olhou para dentro e depois retomou a caminhada lenta e sem ritmo, indecisa.


O empregado de um botequim lavava a calçada, o que o fez desviar-se para o limite do meio-fio. Devia ter pouco mais de oitenta anos, ou menos, talvez. Em frente aos fundos do Copacabana Palace, olhou para a direita, viu que não havia trânsito naquela hora e atravessou lentamente a rua.