quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ausência

Faz tempo que não os vejo juntos, os quatro velhinhos gays. Costumavam sentar-se no botequim da esquina e nas manhãs de sábado concentravam a atenção na saida do metrô. Deleitavam-se alegremente com a chegada dos jovens que vinham do subúrbio. E trocavam comentários sobre a beleza da juventude que desfilava em direção à praia.

Um deles aparentava estar doente. Muito pálido, apoiado na bengala, mas não parecia disposto a se entregar. Fumava e bebia muito. Outro, bem vestido, elegante, olhava em volta como se estivesse entediado com a mediocridade e a falta de classe de Copacabana. Percebi que na conversa entre eles costumava mencionar lugares de Paris que conhecera quando jovem.


Este ainda está presente nos lugares de antes. Caminha com dificuldade, apoiado ao braço de uma acompanhante e às vezes senta-se a uma mesa do mesmo botequim. Permanece calado e ausente, como se não houvesse ninguém a seu lado, apenas as brumas cinzas que misturam presente e passado na solidão dos velhos.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Delírios

Topo com Marquinhos fazendo um discurso no meio da confusão da Barata Ribeiro. Em sua loucura, com sua linguagem indecifrável, ele gesticula e olha fixamente, com expressão muito grave, para algum ponto no horizonte dos edifícios. Acho que consigo compreender algo do que dizia: ”...então eu disse pra ela!...”

Continuo a andar sem saber o que ele teria dito para ela. No seu delírio, falava com alguém, contava algo importante e não se dava conta de nada em seu entorno. Não estava ali, na calçada movimentada  de uma das principais ruas de Copacabana. Refugiava-se na sua vida paralela, movimentada e dura.


Continuei minha caminhada, a essa altura pensando que todos temos nosso mundo interior de fantasias, temores, fantasmas, euforia e de caos que só se revela nos sonhos. Um limite muito tênue nos impede de viver, como Marquinhos, o lado escuro que nega a lucidez do pensamento, que é outra fantasia a nos habitar na turbulenta relação com o mundo tal qual o imaginamos.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

No taxi

Entro no taxi e o motorista diz que sou o primeiro passageiro em mais de três horas. Rodava o tempo todo vazio, revoltado, pois ao fim do dia teria de pagar a diária. Às vezes trabalhava o dia inteiro só para pagar essa diária. E os passageiros rareavam.

Depois disse que era formado em administração de empresas, tinha sido gerente de banco até ser demitido, há dois anos. Não tinha conseguido se recolocar. E o trânsito da cidade estava cada dia pior, miserável, desumano.


Tem uma filha portadora de deficiência, ela precisa de tratamento e cuidados e os hospitais públicos estão abandonados, nem médico bate ponto neles. E disse que às vezes dá vontade de quebrar tudo. Pedi que parasse na esquina, paguei acima do que marcava o taxímetro, entrei no botequim e pedi uma bebida forte.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ser feliz

Entre os mitos que a humanidade acalenta, a felicidade talvez seja o mais recorrente. O desejo de se distanciar das limitações, da submissão diante do  inesperado que se abriga no desconhecido. Sonho do paraiso perdido, objeto de intensa angústia, terreno habitado por fantasias insondáveis.

O homem é o único animal com a certeza da morte e compensa seu desespero com as esperanças cultivadas. E com o refúgio no absoluto que as religiões e as crenças às vezes proporcionam.


O mito de ser feliz está presente nas mais profundas aspirações, nos votos, saudações de aniversário e ano novo, nas flores jogadas ao mar e também nas despedidas e nos acalantos. Os homens buscam a felicidade de maneira tão intensa que a decepção acaba por torná-los mais infelizes.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Calor

A temperatura alta do verão carioca, a umidade do ar e o sol forte desses dias me fazem lembrar um texto de Borges que fala da humilhação do calor. Acho que é isso: o calor humilha as pessoas, a roupa se cola ao corpo e o suor desce pelo rosto, o seu e o dos passantes. Você se sente como se carregasse bolas de ferro amarradas aos tornozelos. Todos reclamam do calor, uma mulher se abana de maneira nervosa e um camelô vende leques na calçada.

Uma amiga que nasceu e vive na Europa me disse um dia que a lembrança mais forte dos dias que passou no Rio, durante um mês de fevereiro, era a de uma gota de suor que lhe escorria, permanentemente, espinha abaixo. No calor europeu do mês de junho, não há suor. A baixa umidade do ar provoca um calor seco e sufocante.

O Rio é uma cidade que vive o verão. É quando ela mostra sua face verdadeira, regurgita, festeja e, literalmente, põe o bloco na rua em desfiles carnavalescos que começam desde janeiro. De abril a setembro, a cidade hiberna, esperando estes meses quentes de praias cheias, asfalto amolecido, bares com todas as mesas ocupadas, mulheres seminuas, samba e calor humilhante.